• Sonuç bulunamadı

Em rápida apreciação na Introdução desse trabalho comentamos a respeito de um aspecto que foi indissociável ao itinerário de boa parte desses indivíduos, a contínua mobilidade e a constante itinerância a que obstinadamente se submetiam, em busca de trabalho e melhores condições de sobrevivência. Ora se deslocando de fazenda em fazenda, ora se movendo em direção às cidades que surgiam no rastro do café, ou buscando a Paulicéia que, tentadora, os seduzia acenando com inúmeras oportunidades, ou mesmo se dirigindo para outros países como a Argentina e o Uruguai, o certo é que esse aspecto crônico foi inseparável da trajetória desses sujeitos, nesse dado período.

A questão que se coloca ao historiador é como percebê-lo, já que, em sua maioria, esse transitar incessante não deixava rastro – dado este denso de significados, conforme quisemos demonstrar nos elevados índices dos sem domicílio – tornando o fenômeno praticamente imperceptível do ponto de vista documental. Informes da Secretaria da Agricultura baseados na Inspetoria de Imigração do Porto de Santos indicam, apenas em alguns anos, o destino para onde embarcavam95, porém, do ponto de vista da sua circulação interna, considerando as entradas e saídas, a ocorrência é de difícil aferição.

No caso do espanhol, porém, há algumas outras evidências dessa mobilidade, reveladas por informações constantes nos LRC. A primeira delas, insuspeita, apareceria logo nos primeiros anos compulsados, quando observamos a existência de reiterados casos de inscritos, cujos registros continham pequena anotação no canto da página indicando “Vá a Rio” ou “Vá a Buenos Aires” e, ainda mais acintosamente “Vá a Rio a buscar trabajo”96. Nessa trilha, outras pistas. O simples trânsito em direção a outro destino patenteava-se, na indicação de hotéis da cidade como domicílio. O Hotel Español então situado na Estação do Norte (hoje Estação Roosevelt) encabeçava uma lista de tantos outros97, numa evidência suplementar da falta de apoio oficial de qualquer natureza e da escassez de uma rede de solidariedade. Esse é um dos ângulos da questão, que evidenciaria desdobramentos dos mais inusitados, que tenderam ao acirramento na proporção em que avultava a demanda dessa população itinerante à cidade.

95 Esses informes indicam as saídas pelo porto de Santos para outros países (“Europa; Ásia; África; Norte- América; Argentina; Uruguai e diversos”).

96 Em registros posteriores, na década de 1910, a esses locais acrescentou-se “Vá a España”.

97 Apenas para exemplificar, entre os anos de 1893-1902, foram os seguintes os hotéis mencionados:

Revelador nesse sentido, e indicador do vulto que a questão tomaria, traduz-se o fato de a Federación Española (FE) prever, por meio de seus estatutos, a criação de um “albergue noturno onde possam pernoitar os espanhóis sem recursos [...] por no máximo 15 dias”98. É provável que esse projeto não tenha se concretizado, acentuando mais o problema dos muitos recém-chegados, famílias inteiras por vezes, que passavam a viver na indigência, perambulando sem destino.

Esta questão, como tantas outras, demorou a merecer a atenção da autoridade consular, ainda que casos de declarados indigentes já freqüentassem as dependências do CGE e as páginas de seus registros. Somente em 1915 é que o Cônsul Ignácio de Arana, em memorando ao Ministro de Estado espanhol, assim se pronunciaria a esse respeito:

Los asilos y casas de beneficência de San Pablo segun me participan las autoridades locales no podrán en lo sucesivo acoger a mas niños y ancianos por estar desde hace varios meses llenos y atendiendo a muchas mas personas de las que en ellos caben99. Regularmente, durante o período analisado, o EDE publicaria subscriçõesque se abriam em favor desses desamparados, como no caso ocorrido nos finais da segunda década, quando o problema parecia ter-se acirrado ainda mais, em que solicitava adesão para ajuda “ao compatriota Manuel Díaz, esposa e três filhos, recém-chegados do interior e que carecem de albergue”100.

O êxodo em direção às áreas urbanizadas de um contingente de miseráveis expulsos do campo em situação de penúria, e o inchaço das cidades, em suas conseqüências, desde há muito vinha alarmando as autoridades e se transformara numa das preocupações centrais da Sociedade Promotora de Imigração. Dentre outras questões apontadas, note-se o que dizia o Secretário da Agricultura, já em 1895:

Apesar de todas as seguranças introduzidas nos contratos, verifica-se que uma parte considerável dos imigrantes tendo embarcado com declaração de serem agricultores, recusam-se, depois de chegados às hospedarias, a aceitar colocação na lavoura. A conseqüência é o crescimento extraordinário de população proletária das cidades, principalmente da capital101.

A questão central, para as autoridades, era a retenção dessa mão-de-obra no campo e, até certo ponto é incompreensível a rotatividade que passa a existir, levando-se em conta a

98 EDE 18.03.1914.

99 AGA. Caja 1692. Memorando de 16.01.1915.

100 EDE 25.08.1920. Ver também, a esse respeito: FLOREAL, Sylvio. “Os párias. Uma noite no albergue noturno”. In: Ronda da meia noite. Vícios, misérias e esplendores da cidade de São Paulo. São Paulo: Paz e Terra, 2003 (escrito originalmente em 1925), pp. 49-55.

101 Relatório Anual apresentado ao cidadão Dr. Presidente pelo Dr. Theodoro Dias de Carvalho Junior. São Paulo, 1896, p. 41. Apud: TRENTO, A. Op. cit.,1988, p. 121.

constatação de que a primeira crise provocada pela queda dos preços internacionais do café ocorreria apenas em 1896102.

Para Aziz Simão, contudo, as evidências indicam que “o mercado de trabalho rural foi apenas sua larga via de acesso a outras oportunidades de ação econômica, principalmente nos núcleos urbanos que se criavam ou cresciam, com sua expressiva participação”103.

Outros fatores, por suposto, estariam envolvidos. Os relatórios oficiais vinham apontando para o fato de as saídas de emigrantes superarem as entradas, no movimento global, denunciando o fato de que muitos emigrantes embarcados com passagem subvencionada até Santos, uma vez na cidade, dali prosseguiam viagem por conta própria para os países platinos, especialmente para a Argentina, ao mesmo tempo em que registravam o aumento no número de repatriamentos, a partir de 1887. A Argentina sempre significou a pedra no sapato de nossa política imigratória e era fato corriqueiro a preferência dos imigrantes por aquele país, ao qual se atribuíam distintas justificativas: “[Na Argentina] no ocurre como en el Brasil, donde, a mas de ofrecer graves inconvenientes para la salud, los naturales tienen odio letal a los extraños”, afirmaria uma autoridade diplomática espanhola, em 1911104.

Fica evidente assim que, mesmo no período anterior à virada do século XIX, houve a conjunção de inúmeras variáveis na intensificação da mobilidade do imigrante, sendo contudo interessante reter que, em suma, alguns desses fatores acabariam por dilatar a cidade de São Paulo com o crescente aumento do contingente de miseráveis em situação de extrema penúria, fatores a respeito dos quais se pronunciaria, em memorando ao Ministro de Estado espanhol, o cônsul Juan Solórzano alertando da

necesidad de vigilar y fiscalizar los embarques por el puerto de Gibraltar de gente indocumentada, desconocedora de las faenas del campo, de gente agrupada constituyendo familias falsas que llegan, se separan, no pueden ir a las fazendas y aumentan el número de los que diariamente llegan a la puerta de este Consulado en demanda de socorro y repatriación105.

Para Maria Alice Rosa Ribeiro106 dentre outras razões, esse fato decorreu também das dificuldades de permanência no interior, atacado constantemente por epidemias de febre

102 O preço do café em moeda nacional começou a declinar a partir de 1894, ocasião em que passou de 15 mil réis por 10 kg, para 13 mil réis em 1896; em 1900, caiu para 9 mil réis e em 1902 para 5 mil réis. Cf. MALUF, Marina. Ruídos da memória. São Paulo: Siciliano, 1995, p. 131.

103 SIMÃO, A. Op. cit., 1966, p. 28.

104 El Mundo, 28.07.1911. AHI. AMAE. Ofícios da Legação Brasileira em Madrid. 105 AGA. Caja 1692. Memorando de 01.01.1913.

106 RIBEIRO, M. A. História sem fim ... Inventário da saúde pública – São Paulo, 1880-1930. São Paulo: Editora Unesp, 1993, p. 105.

amarela, que, na última década do Novecentos, atingira especialmente as imensas regiões do Oeste por onde se alastrava o cafezal, poupando, no entanto, a Capital. A esse propósito,

Meus bisavós estiveram na Fazenda Monte Alto, por volta de 1893, 1895. Comeram o pão que o diabo amassou ali. A mãe da minha bisa perdeu dois filhos de febre amarela e foi banida para o mato com eles queimando de febre. Os dois morreram e ela os enterrou, cavando com as próprias mãos as suas sepulturas. Fugiram dali a pé (...)107. A necessidade de se repatriar, de retornar a seu país em situação mais deplorável do que quando o deixou, afigurava-se para o imigrante como o mais degradante e humilhante dos desfechos. Em seu imaginário, e no daqueles que permaneceram, o retorno só se justificaria após uma bem sucedida trajetória no país de acolhida. Retornar, portanto, era atestar o próprio fracasso, dupla e publicamente, com a agravante de ter de apelar às autoridades para sua concretização.

No livro de repatriamentos do CGE, é possível listar algumas das alegações aventadas pelos solicitantes: “velhice”; “abandono do chefe de família”; “abandono do filho e do marido”; “abandonada pelo marido”; “enfermidade”; “viuvez e sem recursos” e “tuberculose” para o caso de um tipógrafo, foram razões enumeradas em duas páginas consultadas, apenas no ano de 1909.

Analisemos de perto um desses casos, o “abandono do chefe de família”. A requerente era uma mulher de 48 anos, com cinco filhos (idades entre 2 e 19 anos), há apenas um ano em Ribeirão Preto que, todavia, embarcara por Gibraltar, ou seja, realizara um embarque clandestino. Casos similares pipocavam, desenhando inumeráveis variações dentro do mesmo enredo, como este, filtrado pela lente de um escritor:

Esta mulher franzina, pálida, com 4 filhos, veio há 6 meses da Espanha para uma fazenda; é viúva e diz que já veio assim da sua terra. Dorme aqui [no albergue] há 2 semanas. Quer voltar à Espanha, mas, como o seu estado de miserabilidade o não permite, espera que o cônsul lhe conceda uma passagem gratuitamente108.

No decênio 1903-1912, analisando as inscrições femininas nos LRC flagramos 80% dos casos como pertencentes a viúvas com idade média de 30 anos, nas quais constava, em mais da metade, a observação indicando que eram candidatas à repatriação.

107 DIEGUEZ, Márcia. Fragmento de depoimento. Comunicação pessoal. Correio eletrônico de 17.03.2003. A depoente reside em Santos e é funcionária da Biblioteca do Centro Español daquela cidade.

Oficialmente, no período compreendido entre 1887 e 1914, a repatriação foi a responsável pelo grosso das saídas, 65%. Do restante, 30% foram para a Argentina e o Uruguai, 4% para outras regiões brasileiras e 1% para os Estados Unidos109.

Esses homens e mulheres em constante deslocamento moviam-se aparentemente em grupos, alguns de natureza familiar (fato evidenciado pelos sobrenomes comuns) ou provenientes de um mesmo local no interior onde provavelmente trabalhassem como colonos (fazenda, localidade, cidade ou agência consular), dado evidenciado pela realização de registros no CGE em seqüência, numa mesma ocasião. Esta mesma evidência pôde ser observada para os casos em que a coincidência, nos registros seqüenciais, dizia respeito aos locais de origem comum (pueblos ou províncias), indicando ser esta uma outra maneira de que se valiam nessa mobilização, indício que sugere ter sido esta uma decisão compartilhada. Jornaleros em sua maioria, conforme salientamos, declaravam haver viajado de terceira ou quarta classe e apresentavam-se ao CGE geralmente s/documentos, e talvez aí residisse a única motivação de sua inscrição, a necessidade de um documento individual (lembremos que o passaporte era um documento familiar) que pudesse viabilizar a locomoção para outros Estados ou mesmo países.

Neste caso, pode-se aventar a hipótese, bastante plausível, de que muitos talvez fossem obrigados a partir sozinhos, deixando para trás a família, nuclear ou não, abandonando as fazendas, onde deixavam mulher e filhos. Em outros casos, era a própria viúva que se punha a caminho, com seus filhos pequenos.

Nessa constante peregrinação, muitos acabavam se desencontrando, perdendo-se de seus familiares e conhecidos. Se assim não fosse, por que razão o EDE manteria com regularidade, durante toda a série examinada, a coluna personas buscadas? Eram irmãos desaparecidos e/ou que se perderam, tios que reclamavam por seus sobrinhos, e conhecidos que, embarcados juntos acabavam se dispersando, indicando que a incidência de indivíduos que não retornavam ou não davam notícias era grande. Crescente, a demanda para esse tipo de nota, inicialmente gratuita, passou a custar 2$000 por cada três publicações110.

Referindo-se muito apropriadamente sobre essa questão, o problema dos desaparecimentos, Afonso Schmidt111 assim se pronunciava:

Quase todos os dias os jornais são solicitados a publicar fotografias de homens, mulheres e crianças de quem os parentes ignoram o paradeiro [...]. E mesmo alguns

109 Boletim do Departamento Estadual do Trabalho, nºs 59-61, 1927. In: TRENTO, A. Op. cit.,1988, p. 121.

110 EDE 16.05.1913, dentre muitas outras edições.

consulados [...]. Há também os que nunca mais dão sinal de si. São os que morrem por essas estradas e não se consegue identificar.

Conjugados todos os fatores – crises conjunturais, epidemias, conflitos com fazendeiros e capangas, falta de perspectiva, inadaptabilidade às condições locais adversas –, surgia, enfim, do ponto de vista do colono, a força de atração da cidade de São Paulo, de onde emanava a maior demanda de mão-de-obra de todo o Estado, o “mercado de homens”, no entender de Pierre Denis, a acenar com múltiplas e diversificadas possibilidades de inserção laboral, formal ou informalmente. Além do mais, em alguns casos, até mesmo o colono cuja intenção fosse apenas a de trocar de fazenda, tenderia a vir para São Paulo, cidade de onde partiu e que conhecia, e onde estavam as oportunidades de emprego na lavoura. Nesses casos, dificilmente esse imigrante retornaria para o interior, fascinado com a cidade, com seus atrativos e as possibilidades potenciais que à primeira vista se apresentavam; outro fator relevante nessa decisão foram representadas pelas redes de parentesco, amizade ou vizinhança, fundamentais na decisão de permanecer112.

Essas evidências sugerem de imediato que havia uma enorme massa flutuante de pessoas desocupadas vagando ou em trânsito pela cidade, composta em sua maioria por estrangeiros, que representavam a maioria da sua população. Essa abundante oferta de mão-de- obra, resultante dos ingressos massivos de imigrantes com passagem subvencionada pelo poder público, pode, do mesmo modo, ser considerada como a responsável pelos baixos salários no colonato – que, no entanto, produzia alguns artifícios para amenizar a compressão, como a permissão para a produção de gêneros de subsistência para venda, nas fileiras dos cafezais jovens.

Na cidade, receptora dessa mão-de-obra, os salários ou a remuneração, pautando-se pelo padrão cafeeiro, também flutuavam de acordo com seu movimento cíclico. Daí as altas taxas de desemprego e a crescente quantidade de desempregados pela cidade, homens e mulheres, adultos e menores, vivendo de atividades esporádicas, alguns na indigência e que passariam a ser identificados como “vagabundos”, em cujo enquadramento, para o caso de reincidência, previa-se a expulsão.

Quanto aos imigrantes já estabelecidos na cidade, a situação também deixava a desejar. Logo no ano seguinte ao da abertura do CGE, 1894, os registros indicam uma avalanche de inscritos aqui domiciliados indicando sua intenção de se dirigirem para a cidade do Rio de Janeiro, e, nesse particular, uma rápida apreciação às suas ocupaciones é lapidar:

eram barbeiros, sapateiros, alfaiates, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, vidreiros, foguistas, cocheiros, marinheiros, cigarreiros, caldeireiros, empregados do comércio, escreventes e também jornaleros, homens com idade variando entre 14 e 54 anos.

Andaluzes em sua maioria, a sua influência, infiltrando-se no cotidiano da cidade, já podia ser percebida, por meio dos chistes jocosos que se espalhavam pelas ruas:

Ouve-se aqui freqüentemente um ditado anedótico, de forma variável: “está como o outro, que foi persignar-se e quebrou o nariz”.

É o andaluz: “púsose a santiguar y se sacó un ojo”. Outra frase nossa: “é um pão e um pedaço”.

Não a encontramos nos catálogos, mas é vulgaríssima em São Paulo.

Prende-se evidentemente ao espanhol – “Bueno es un pan con un pedazo”113.

Esse indicador apontando indivíduos de vários segmentos profissionais e ocupacionais domiciliados na cidade, muitos casados e provavelmente com família, que necessitavam buscar trabalho fora dela, é sinal do quanto o mercado de trabalho da cidade estava saturado já a esta altura, até mesmo para aqueles com alguma especialidade ou ofício. Pode-se, a partir daí, imaginar como seria para o indivíduo desqualificado – o jornalero, por exemplo – sem o domínio de qualquer ofício, que a ela demandava ou nela permanecia à cata de qualquer trabalho, na sua faina diária de improvisação pela sobrevivência.

Ainda mais calamitosa demonstrava ser a condição daqueles que, por infortúnio, adoeciam. Percorrendo-se as notas do EDE, através das quais se buscava ajudar a esses infelizes, iniciando-se alguma subscrição ou simplesmente pedindo auxílio, alguns casos são exemplares. Numa delas, pedia-se mantimentos e roupas para 5 crianças, a maior com 11 anos que, órfãs, aguardavam a repatriação. Estariam “recolhidas” na Rua São Caetano, 179114. Em outra, uma mulher com 6 filhos, vivendo na Rua Rocha, 45, cujo marido encontrava-se “gravemente enfermo” e com a sogra de idade avançada (88 anos) “de cama”, pedia auxílio às pessoas caridosas115. Em outro momento, o próprio articulista do EDE se manifestaria, lastimando o estado em que encontrou a família de Federico Martín, “ele, adoentado, cadavérico, no fundo da cama, vivendo num quintal da Rua Caetano Pinto, 70, de aluguel”116 e, novamente invocando a caridade da comunidade, informava da condição do “compatriota José

113 AMARAL, Amadeu. Tradições populares. São Paulo: Editora Hucitec, 1976, p. 240. Santiguar: fazer vários sinais da cruz, estranhando ou se escandalizando com algo.

114 EDE 14.02.1914. 115 EDE 30.09.1918. 116 EDE 19.12.1919.

Miranda, atacado de paralisia, com mulher e três filhos na miséria”117. Essas figuras perdidas – contingentes de homens e mulheres oriundos em sua maioria da Andaluzia, cujo destino inicial era o núcleo cafeicultor e que, por razões as mais diversas acabaram cruzando ou fixando-se na cidade –, se não fizeram parte do Censo Ocupacional da Cidade, atrás examinado, com certeza logo passariam a engrossar páginas de relatórios oficiais, que informavam do desconforto que a sua presença vinha causando na população da Paulicéia. Com efeito, os poderes públicos vinham demonstrando preocupação com a crescente leva de desempregados na cidade: homens, mulheres e crianças pobres que viviam de ocupações esporádicas, como ameaça à manutenção da ordem, identificados como “vagabundos”118 e que, como tal, traziam perigo à sociedade119.

Anteriormente esse fato já vinha freqüentando os relatórios policiais. Guido Fonseca120, com base nos Relatórios apresentados pelos Chefes de Polícia aos Presidentes da Província, fez uma incursão no mundo policial da cidade, ressaltando que já em 1875 era grande a preocupação das autoridades para com o “grande número de estrangeiros refratários ao trabalho”. Os imigrantes seriam novamente citados em outro Relatório, anos depois, 1878, como quem não respeitava a propriedade e a integridade física dos cidadãos, nomeando locais, na cidade, em que atuavam. Chamados de alienígenas e vagabundos, completava o Relatório que “sua ousadia era tanta que atacavam os transeuntes à mão armada e nas ruas mais freqüentadas” e que “os espanhóis e os italianos deviam estar sempre sob as vistas da Polícia,

117 EDE 16.12.1920. A esses chamamentos manifestavam-se com contribuições alguns membros da colônia, geralmente esposas de comerciantes ou pequenos empresários, estes geralmente membros de alguma sociedade beneficente.

118 No artigo 300 do Regulamento nº 120, de 31.01.1842, são definidos como “vagabundos” os indivíduos que não têm domicílio certo, nem profissão ou ofício, nem renda ou meio conhecido de subsistência. Ver: SALLES, Iraci. República: a civilização dos excluídos (representações do “trabalhador nacional”, 1870-1919). São Paulo: Tese de doutoramento, FFLCH-USP, 1995, p. 63.

119 Dentro dessa premissa e demonstrando que a “criminalidade transformara-se numa dimensão da vida de São Paulo (...) seja pela sua interiorização sob a forma de insegurança que passou a integrar a vida das pessoas, em grau maior ou menor”, e utilizando-se de estatísticas policiais, Boris Fausto concentrou sua análise em duas modalidades de infrações, ocorridas no período: os crimes e as contravenções penais, ou “crimes sem vítima”, utilizando-se para tanto das prisões efetuadas na cidade e dos inquéritos abertos pela polícia, com cuja comparação demonstra a enorme defasagem entre o número de pessoas presas na cidade e as processadas, número que

Benzer Belgeler