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MATLAB Ortamında Geliştirilen YAR İşlemcisi

3. UYGULAMA

3.5 MATLAB Ortamında Geliştirilen YAR İşlemcisi

Iniciar uma análise histórica a respeito do tratamento dado à homossexualidade e aos homossexuais, ao longo da história humana, compreende vários dados e pensamentos a respeito da sexualidade no período em estudo. Sempre que o tema sobre discriminação contra homossexuais é debatido, surge a ideia de que o cristianismo é o grande responsável pelos processos e procedimentos que levaram vários povos e nações a discriminarem os homossexuais (JURKEWICZ, 2005), vendo-os como “pessoas inferiores”, em razão de seus comportamentos diferentes dos comuns (LOURO, 2004). Não há dúvidas, de que o Cristianismo foi um dos grandes responsáveis pelo processo discriminatório dos homossexuais no ocidente, condenando a homossexualidade, como comportamento contrário a vontade de Deus e, por esta razão, pecaminoso. Entretanto, ele não está sozinho. Judaísmo e Islamismo, religiões com um número grande de adeptos, da mesma forma são contrários ao comportamento homossexual24. Antes do Cristianismo alcançar o “status” de religião oficial do Império Romano, a homossexualidade já havia sido objeto de condenação pela legislação romana (JURKEWICZ, 2005), ainda que essa legislação estivesse “adormecida” e tivesse como objetivo, condenar atos homossexuais contra menores, para coibir o abuso sexual de crianças e condenasse a prática homossexual passiva proibida aos cidadãos romanos.

A “Lex Scantinia”25 datada de 226 A.C, demonstra que a preocupação com os comportamentos homossexuais, fosse sua aceitação ou negação, já fazia parte do cotidiano da antiguidade, com os atos homossexuais passivos, sendo condenáveis, ao que tudo indica, pelo fato de realizarem o “papel feminino”, enquanto aos homossexuais ativos, não havia reprimendas por se manterem em seu “papel masculino”. Entretanto, a aplicação desta lei estava em franco desuso antes da chegada do Cristianismo ao poder. Com raízes profundas no

24 Judaísmo e Islamismo, a exemplo do Cristianismo são religiões patriarcais que prezam pela manutenção de uma sociedade heteronormatizada onde a figura masculina é vista como representação da própria divindidade. 25 E. Westermack, Cristianity and Morals, Londres, 1939, pp.371-372

Judaísmo e sua ascensão ao poder, o Cristianismo trazia em seus ensinamentos a proibição da homossexualidade, entendida como comportamento contrário à vontade de Deus, e por isso, passível de punição severa, razão pela qual, a “Lex Scantínia” deixa de ser “letra morta”, iniciando e ampliando com maior rigor e vigor a condenação da homossexualidade. A ampliação dos atos homossexuais tidos como condenáveis, deixa a esfera dos abusos de menores e homossexualidade passiva, para englobar todo e qualquer ato ou comportamento homossexual.

É um edito que, dentro de um clima quaresmal, admoesta ao arrependimento, mas ameaça com penas extremas em casos de falta de conversão. É importante sublinhar que, enquanto os editos anteriores centravam-se na prostituição homossexual e no abuso de jovens, os editos de Justiniano condenavam indiscriminadamente todo ato homossexual. (GAFO, 1998, p. 97).

Na esteira das legislações antecedentes, outras vieram condenando a homossexualidade, vista a partir de então, com fundamentos cristãos arraigados nas Sagradas Escrituras, reconhecendo-a não somente como contrária à natureza humana dada por Deus, mas também, como uma forma de rebeldia que deveria ser coibida, a exemplo do que fora feito com Sodoma e Gomorra. Essa visão da homossexualidade como pecado passível de pena de morte, vai ganhando força ao longo dos séculos e, sendo refletida no pensamento dos escritores cristãos, que transportam para suas obras as influências sofridas pelos decretos imperiais. Entretanto, apesar das proibições das práticas homossexuais permearem os escritos dos pais da Igreja, era usual conceder ao homossexual o “benefício” do arrependimento e a reconciliação com Deus, o que significava negar seus desejos carnais e render-se aos ditames da Igreja Cristã em formação. Embora a sodomia seja considerada pecado grave, não existe uma perseguição sádica contra os homossexuais permitindo sempre o recurso prévio ao arrependimento. (GAFO, 1998).

A literatura cristã dos primeiros séculos, sobre a homossexualidade demonstra que, apesar do entendimento deste comportamento como antinatural e contrário à vontade de Deus, as punições destinadas aos homossexuais não se diferenciavam muito das punições aplicadas a outros tipos de pecados carnais, excluindo-os do sacramento do batismo, da comunhão e do catecismo, bem como aplicando penas de privação de liberdade e banimento (DANTAS, 2006). Na verdade, a homossexualidade era vista como mais perniciosa quando praticada no âmbito religioso. Isso motivou uma crescente preocupação com a possibilidade de sua expansão na vida eclesiástica, que poderia denotar um enfraquecimento do poder-regulador exercido pela Igreja Cristã, razão pela qual, houve a necessidade de “hierarquizar a gravidade” da conduta homossexual, perante outras condutas tidas como antinaturais e

pecaminosas; o que levou a homossexualidade a ser considerada mais nefasta para a sociedade que outros atos sexuais, como a prática da bestialidade, por exemplo, e menos grave que o incesto e adultério. No século V o olhar sobre a conduta homossexual muda radicalmente no Império Romano. A legislação passa a reconhecer e repudiar, fundamentada em valores estritamente cristãos, os atos sexuais estéreis, como contrários à vontade e mandamento divino para crescer e procriar, equiparando os atos homossexuais, como um dos piores atentados às leis divinas. Desta forma, a repressão contra a homossexualidade ganha importância e espaço no contexto cristão. Esse novo entendimento sobre os atos homossexuais, culminam com a determinação do Imperador Justiniano de punir a homossexualidade com a castração e em caso de reincidência a morte pela fogueira.

Nos séculos seguintes o “controle das atividades sexuais” é ampliado para além do caráter e implicações exclusivamente sexuais, como característica de uma cristandade ativa, exigida pela Igreja Cristã de seus membros. O determinismo biológico de conduta sexual destinada a homem e mulher, por “ação divina”, é agregado ao determinismo sócio-moral, determinado pela Igreja, em especial a partir dos Concílios de Latrão (VELOSO, 2011). A moralidade cristã, como reguladora e condutora dos comportamentos sexuais na sociedade, inicia um processo de fortalecimento da cultura cristã em detrimento de outras culturas consideradas moral, ideológica e politicamente incorretas, pelo simples fato de não adorarem o mesmo Deus. A questão sexual ganha destaque em alguns concílios lateranenses, onde tanto a homossexualidade praticada por clérigos como a praticada por leigos, são terminantemente proibidas e condenadas.

Que todos os que forem considerados culpados do vício antinatural que fez a ira de Deus descer sobre os filhos da desobediência e destruir as cinco cidades com fogo, se forem clérigos serão expulsos do clero ou confinados em mosteiros para fazer penitência, se forem leigos serão excomungados e completamente separadaos da sociedade dos fiéis26. (THIRD LATERAN COUNCIL, Canon 11, 2013).

Essa aversão ao comportamento homossexual por parte da Igreja Cristã, fundamentada, na passagem da condenação das cidades de Sodoma e Gomorra e cidades adjacentes pertencentes ao Vale de Sidim, à sua destruição por fogo vindo diretamente do céu, como forma implacável do castigo de Deus aos moradores daquelas cidades, por praticarem a homossexualidade, cria um estereótipo forte e “convincente” de que a homossexualidade deve ser evitada a todo custo, sob pena, de sofrer castigo semelhante àqueles que insistissem nessa conduta. O que se percebe nesse cânone é uma construção sócioestruturante, que surge em um

26 As versões dos Concílios de Latrão utilizadas neste trabalho encontram-se disponíveis em língua inglesa na página da Fordham University The Jesuit University of New York. http://www.fordham.edu/ Traduzida para o português de forma livre pelo próprio autor.

contexto histórico, onde o pecado da desobediência de Adão e Eva é “convertido” em pecado sexual, iniciando ataques a todo e qualquer ato sexual, que não possua o único propósito da procriação. O afastamento dessas pessoas do convívio social, dentro ou fora dos parâmetros e limites eclesiais, demonstra a força da Igreja como a única detentora da “vontade celestial” e consequentemente aquela com outorga divina, capaz de determinar quais os comportamentos sexuais são ou não aceitos por Deus.

Com a Igreja assumindo o papel de conduzir os rumos sociais, vão surgindo paradigmas sociais, de comportamentos certos e errados arraigados nos padrões cristãos. A heterossexualidade, para procriação, é elevada à condição de única sexualidade verdadeiramente não condenada por Deus, as demais são consideradas pecado. Nesse contexto o sexo por simples prazer também é condenável, ainda que na constância do casamento. Isso demonstra que as identidades sexuais são fruto de uma construção sociocultural de base religiosa, que determina ao indivíduo, seu modo de pensar, agir e viver sexualmente. Deste modo, a Igreja transportou um contexto sociocultural da antiguidade bíblica, para uma nova realidade onde a homossexualidade é entendida como comportamento indigno da criação perante seu criador, enquanto a heterossexualidade, para procriação, defendida como ato natural e de acordo com os desígnios do criador.

A heterossexualidade, restrita ao casamento como a única forma de uma vida sexual correta na presença de Deus, não somente traz à tona elementos que possibilitam a compreensão do horror cristão diante da homossexualidade, como deixa claro que a união entre um homem e mulher em casamento, é elemento constitutivo do direito à salvação. “Pois não só virgens e os continentes, mas também as pessoas casadas encontram graça diante de Deus pela fé e boas ações, merecendo alcançar a bem-aventurança eterna”( FOURTH LATERAN COUNCIL, Canon 1, 2013).

O entendimento da homossexualidade, como representação de um comportamento contrário à vontade de Deus, de acordo com uma fundamentação exclusivamente religiosa cristã, nada mais é, do que uma construção pré-concebida, com conceitos arraigados na força simbólica demonstrada por (BOURDIEU, 2008), em detrimento das formações e construções sociais fundamentadas nas demais ciências humanas, antropologia, sociologia e psicologia. A suposição religiosa cristã, da homossexualidade como pecado capital, determina obrigatoriamente, todo o movimento contrário à homossexualidade com fundamentos exclusivamente religiosos e especificamente cristãos. Esse pré-conceito fundamentalista a respeito da homossexualidade, criou obstruções visuais, impedindo uma compreensão global sobre os mecanismos de controle social, exercidos por meio e como meio de controle da

sexualidade, como forma de imobilizar socialmente inimigos políticos. A homossexualidade como fator de condenação social e consequentemente arma política, já era utilizada desde o século V.

O historiador da corte de Justiniano, Procópio, alegava que a motivação dessa legislação (impopular e que pouco fez para deter o comportamento homossexual) era política e não religiosa, já que prisões sob essa acusação eram um método conveniente para afastar pessoas indesejáveis.(SPENCER, 1999, p. 74).

Esse controle da sexualidade por meio de diversos mecanismos, ao mesmo tempo em que possibilitou o controle dos indivíduos com orientação homossexual, os condicionou a buscar uma auto repressão de seus corpos e desejos, aderindo às regras heterossexuais que obrigavam ao casamento ou à abstinência sexual, tidas como as únicas aceitáveis. Ser ou parecer homossexual poderia significar não somente castigos físicos e perda de bens, mas também uma possível sentença de morte, por métodos insidiosos e cruéis, já praticados desde a época dos imperadores romanos.

A lei dos Imperadores Constâncio e Constate (342) não apenas condena a pederastia, mas também aos homossexuais passivos, que se oferecem à maneira de uma mulher (provavelmente se referem à prostituição homossexual). A lei de Valentiniano II, Teodósio e Arcádio (390) castiga com a pena de serem queimados vivos os que se dedicam à prostituição homossexual e os que procuram homens ou rapazes com fim de prostituição. (GAFO, 1998, p. 97).

Seja como for, a brutalidade dos castigos infligidos, ou simplesmente a possibilidade de sua aplicação, fossem por razões políticas, religiosas ou ambas, sedimentou no imaginário social-religioso a compreensão de que a homossexualidade, era na realidade perniciosa e prejudicial à vida em sociedade. Vistos como defraudadores de inocentes e negadores da determinação divina, a respeito da suposta superioridade masculina sobre a feminina, os homossexuais ao assumirem no ato sexual, uma identidade de gênero feminina, não estavam em consonância com a natureza masculina de provedor e mantenedor, não somente de sua família, mas de toda obra redentora de Deus.

A queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C., não significou o fim das ideias e ideais cristãos; o Cristianismo já havia se consolidado e se expandido pelo mundo antigo. Com a expansão cristã, vieram também as fórmulas de combate e repressão, utilizadas pelo Império Romano para dissipar quaisquer movimentos contrários ao poder constituído. Toda a máquina repressora estatal do Império foi “herdada” pela Igreja, que a colocou em pleno funcionamento em um dos períodos mais controversos e lamentáveis da história cristã. O episódio histórico da inquisição, foi marcado por inúmeros casos bárbaros de tortura e abuso de poder praticados pelos inquisidores. Criado pelo papa Gregório IX em 1231, o Tribunal do Santo Ofício tinha como objetivo, combater todo e qualquer ato que fosse considerado pela

Igreja como heresia. Deste modo, toda pessoa que contrariasse os ditames impostos pela Igreja, seria imediatamente rotulada como herege e passível dos inúmeros castigos que estavam à disposição, para uso dos inquisidores, e a criação de castigos “especiais” para comportamentos específicos. A criação do Tribunal do Santo Ofício, foi uma forma da Igreja Católica “corrigir” certos “desvios da fé” dentro da própria instituição, que contestavam a opulência do clero, a autoridade papal e as bases dogmáticas do catolicismo, que fundamentavam e mantinham incólumes as estruturas eclesiásticas de poder e controle social.

Entretanto, as heresias não surgiram por oposição à religião católica, mas dentro dela, tanto que os grupos tidos como heréticos, tais como os valdenses, bogomilos, albigenses, dentre outros, pregavam o retorno da pobreza dos tempos do cristianismo primitivo, criticando a opulência que a Igreja Católica havia adquirido, assim como a venda de indulgências e a corrupção do alto clero. (VARGAS, 2010, p. 163)

As perseguições aos clérigos, que se colocavam contrários à Igreja, logo foram ampliadas a todo e qualquer movimento que fosse contrário aos mandos e desmandos do alto clero. O terror implantado pela Inquisição, muitas vezes levou os próprios familiares a denunciarem os acusados, tamanho era o temor das penas que poderiam sofrer, aqueles que fossem considerados cúmplices dos hereges e consequentemente vistos como amantes de

satanás. As perseguições, antes destinadas aos membros insurgentes do clero, foram

ampliadas e concentradas em todos os cidadãos que não professassem ou renegassem a fé cristã. Judeus, muçulmanos, cientistas e mulheres que utilizavam conhecimentos de chás e ervas curativas, todos eram vistos como hereges. Ao serem detidos, os perseguidos não tinham direito de saber o nome de seus acusadores, mas podiam citar o nome de outras pessoas, inclusive seus inimigos declarados, para que fossem investigados pelo Santo Ofício (MOTT, 1998a).

Os suspeitos eram perseguidos incansavelmente onde estivessem e, quando capturados, julgados sem direito à defesa, o que não significava uma inevitável condenação, entretanto, muitas vezes a absolvição era tão cruel quanto a condenação, pois não era raro ter que admitir a heresia de um parente próximo. Quanto aos condenados dentre as inúmeras formas de castigo, os piores eram a condenação à morte pela fogueira e a mesa de evisceração. Todos os métodos de torturas praticados, tinham como objetivo, uma morte lenta e dolorosa que pudesse ser vista por todos para coibir quaisquer práticas ou comportamentos contrários aos estabelecidos pela determinação da Igreja.

A ampliação do “rol de culpados” pelo crime de heresia cresce sobremaneira, e os comportamentos sexuais considerados contrários à “natureza humana”, de acordo com os preceitos bíblicos, passam a ser alvo da Inquisição e de seus castigos e penas. Aos

homossexuais eram aplicados os castigos gerais como os específicos em razão de “seus crimes”. A culpabilidade poderia ser atribuída de acordo com a idade do infrator, o que significava penas menores e menos cruéis para indivíduos jovens, em oposição às penas mais severas para indivíduos adultos. Aos menores de quinze anos a pena era a reclusão de três meses, enquanto, para os adultos abaixo de trinta e três anos, era estipulada uma multa que se não fosse paga, os condenaria a ter seus genitais amarrados, andarem nus pela cidade, açoitados e posteriormente expulsos. Os maiores de trinta e três anos, eram acusados e julgados sem direito à defesa, e se considerados culpados, eram condenados à perda dos bens e a serem queimados vivos em praça pública. Sendo considerado um dos mais graves pecados, a homossexualidade foi perseguida e combatida pelo Santo Ofício, sem contudo, existir um posicionamento unânime sobre como tratar o assunto.

A sodomia, entretanto, não foi estigmatizada e perseguida em todos os tribunais do Santo Ofício da Espanha, nem mesmo pela Inquisição portuguesa em seus primeiros anos de instalação. Isto demonstra que inexplicáveis fatores históricos, políticos e culturais estariam por trás do maior ou menor radicalismo da homofobia católica. (MOTT, 2011).

Seja como for a perseguição implacável do Santo Ofício aos homossexuais, ao menos em tese, não surtiu o efeito almejado, extinguir os atos sexuais que fossem praticados sem o único propósito da procriação. A homossexualidade e os homossexuais continuaram sendo uma realidade presente na sociedade, ainda que fosse viável, manter essa e outras práticas sexuais, de forma oculta e clandestina, tanto na Europa como nas colônias espanholas e portuguesas do novo mundo.

Benzer Belgeler