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De acordo com Carneiro (2006) o tema da pluriatividade foi introduzido no debate acadêmico brasileiro nos anos de 1990. No entanto, antes mesmo de falar da presença da pluriatividade e de atividades não agrícolas no campo, torna-se necessário deixar claro ao leitor o que se entende neste trabalho por pluriatividade, haja vista que não existe um consenso dentro da sociologia rural sobre a aplicação do termo. Inicialmente torna-se necessário distinguir pluriatividade de atividades não agrícolas. A

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pluriatividade em termos gerais seria a combinação de atividades agrícolas com não agrícolas, já as atividades não agrícolas referir-se-iam àquelas atividades não relacionadas diretamente com as atividades agrícolas, mas que ainda assim poderiam ser exercidas no campo. Assim, a pluriatividade implicaria na existência de atividades não agrícolas, mas as atividades não agrícolas não implicariam na presença de pluriatividade (SOUZA e SOUZA, 2008).

Sacco dos Anjos (2000) apud Souza e Souza (2005) identificou três principais enfoques para a interpretação da pluriatividade: o primeiro buscaria explicar o fenômeno por uma perspectiva macroestrutural, em que o foco seria as mudanças e as transformações das estruturas sociais e econômicas. A pluriatividade, nesse caso, estaria relacionada ao avanço do capitalismo no campo, assim ela estaria mais associada às condições socioeconômicas de uma região específica. Dentro dessa abordagem as atividades não agrícolas concorreriam com as atividades agrícolas. O segundo enfoque, buscaria explicar o fenômeno do ponto de vista micro-estrutural, como sendo fruto de estratégias familiares para a reprodução na unidade familiar, atribuindo assim às famílias rurais o papel de agentes sociais nesse fenômeno. Dentro dessa perspectiva a atividade não agrícola subsidiaria a atividade agrícola. Já o terceiro enfoque seria aquele que buscaria agrupar as duas perspectivas para explicar o fenômeno da pluriatividade. Assim, optou-se, neste trabalho, por entender a pluriatividade a partir do terceiro enfoque como um fenômeno interligado aos processos de transformação do campo, porém não se ignorando o papel das famílias rurais.

Outra crítica direcionada à pluriatividade estaria relacionada ao seu caráter de

“novidade” como aponta Carneiro (2006), ou seja, para alguns estudiosos a

pluriatividade não pode ser vista como fruto dos processos de transformação da sociedade, essa crítica baseia-se no fato de que a presença de atividades não agrícolas combinadas com atividades agrícolas no campo está presente desde sempre, como era o caso dos antigos moinhos e ferrarias, indústrias essas chamadas de domésticas. No entanto, de acordo com Carneiro (2006) para qualificar a pluriatividade enquanto um fenômeno novo e evitar essa crítica é necessário se ater a determinados contextos em que a combinação das atividades agrícolas com as não agrícolas corresponda a uma dinâmica recente, produzida pelas novas configurações das relações campo-cidade e pelas novas articulações entre agricultura e sociedade.

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Candido (1964) contribui para sustentação dessa afirmação dado que ao estudar as transformações dos modos de vida do caipira paulista mostra que esse era desprovido de recursos econômicos e que as chamadas indústrias domésticas eram a sua principal fonte de bens de consumo, sendo estes roupas, alimentos e utensílios, contribuindo assim para autossuficiência da família e servindo também a vizinhança. Observa-se, portanto, que essas chamadas atividades não agrícolas no passado não tinham o mesmo sentido que têm hoje no campo: antes elas eram direcionadas para o consumo familiar e da vizinhança, hoje essas mesmas atividades têm como consumidor o morador das cidades e como fim o lucro e não a subsistência. O termo pluriatividade, nesse sentido, de acordo com Mattei (2007), se caracterizaria por ser um fenômeno decorrente de um processo de revitalização e transformação do mundo rural. Assim, para Carneiro (2006), o significado das atividades não agrícolas não estaria dado pelo tipo de trabalho realizado e, sim, pela maneira como esse trabalho e a renda obtida por meio dele integrar-se-ia à dinâmica de reprodução familiar.

Rambaud (1973), ao estudar o processo de transformação da sociedade rural na França a partir da questão do trabalho rural, fornece uma explicação para a gênese do fenômeno da pluriatividade. O autor esclarece que a noção de profissão quando vivenciada no campo não desaparece com o trabalho agrícola. Porém, a justaposição, de uma atividade agrícola e de outra profissão mostra a resistência do primeiro e a pressão do segundo. Ou seja, a presença de atividades agrícolas e não agrícolas no campo implica a coexistência de duas sub-culturas interiorizadas com seus próprios valores.

A noção de pluriatividade, portanto, permitiria analisar com maior precisão a forma como os rendimentos advindos do trabalho seriam alocados pela família. As atividades pluriativas apontariam, também, para o surgimento de padrões individuais de realização do trabalho entre os membros da família, padrões esses que transformam as

unidades produtivas familiares em “unidades multidimensionais”, devido à combinação

de atividades agrícolas e não agrícolas, que gerariam diferentes tipos de remuneração, (MATTEI, 2007).

No Brasil, a partir dos anos 1990, o crescimento das ocupações e rendas não

agrícolas (ORNAS) começou a chamar a atenção de alguns pesquisadores, em

territórios rurais marcados por uma dinâmica de aproximação do mercado de trabalho, de produtos e de serviços entre o campo e a cidade. O crescimento das ORNAS se deu, segundo Abramovay (2009), Kageyama (2008), Favareto (2007), não como uma

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estratégia tradicional e secularmente utilizada de combate às formas de precarização da unidade produtiva familiar, mas, antes, como uma forma de diversificar as opções de renda através da combinação de atividades agrícolas com não agrícolas.

De acordo com dados divulgados pelo Grupo Rurbano no ano de 1997 cerca de quatro milhões de pessoas estariam ocupadas no campo com atividades que fugiam à produção agrícola tradicional. Além disto, quatro em cada dez trabalhadores seriam remunerados por atividades não agrícolas, com um crescimento de 35% em menos de dez anos. Segundo o Censo (2000) haveria aproximadamente 15 milhões de pessoas economicamente ativas no campo no país, com cerca de 1/3 delas trabalhando em ocupações não agrícolas. Essas ocupações estariam ligadas a atividades para o oferecimento de serviços de lazer, turismo, construção de moradias para neorurais e preservação ambiental. Em contrapartida, o emprego ligado exclusivamente ao setor agropecuário, com a utilização das novas tecnologias teria levado à queda de 1,7% ( de emprego) ao ano (OLIC, 2001).

Graziano da Silva (1997) utiliza-se de dados da PNAD para mostrar a evolução da população economicamente ativa que reside no campo e trabalha com atividades não agrícolas, a partir do estabelecimento de uma comparação entre a PEA rural e a PEA agrícola; apresentando, também, como o crescimento de setores ligados a serviços como transporte, escolas e hospitais incentivaram a construção de casas de campo e de lazer para finais de semana, atraindo, assim, turistas e aposentados. Por fim, ao analisar comparativamente a renda agrícola e não agrícola das famílias rurais com as famílias urbanas concluiu que as rendas não agrícolas seriam em média maiores que as rendas agrícolas dentro de uma mesma região do país.

Outro aspecto relacionado ao fenômeno da pluriatividade, que deveria ser destacado neste estudo está relacionado a influencia das atividades não agrícolas na diversificação dos grupos sociais que residem e/ou trabalham no campo, aspecto esse abordado por Rambaud (1973), Graziano da Silva (1997) e Wanderley (2009). De acordo com Wanderley (2009) nas sociedades modernas, o dinamismo rural seria capaz de atrair outras atividades econômicas e outros interesses sociais, além dos ligados à agricultura. Fatores como, as facilidades de transporte e comunicação, a idade para a aposentadoria e os estímulos ao desenvolvimento local teriam tornado o campo atrativo a outras categorias sociais. A agricultura, portanto, teria deixado de ser um fator de povoamento e estaria ocorrendo um aumento da população não agrícola no campo, na

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medida em que se diversificaria econômica e socialmente o campo. Para Wanderley (2009) ao se pensar o campo para além da sua função de produção agrícola e associá-lo a uma maior qualidade de vida, os espaços rurais tornar-se-iam espaços de consumo, voltados para atividades ligadas à residência, permanente ou secundária, lazer e turismo rural.

Benzer Belgeler