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A abordagem a teorias científicas é discutida, principalmente, no âmbito da filosofia da ciência, que busca compreender e explicar os avanços científicos, além de mostrar o melhor caminho para que a ciência possa evoluir. Nesta seção, adota-se uma visão histórica para descrever o papel recente das teorias na ciência.

Nosso breve relato histórico inicia-se no século XIX, no qual dois posicionamentos filosóficos distintos se destacavam mais na explicação sobre o conhecimento científico: de um lado os adeptos de Hegel e seus sucessores neo- hegelianos, que procuravam explicar a realidade em termos de entidades metafísicas abstratas que não podiam ser especificadas empiricamente, como o chamado Absoluto; e de outro lado, o movimento do positivismo lógico, que defendia o empirismo e combatia os excessos metafísicos de Hegel e seus sucessores (SUPPE et al., 1977).

Ainda segundo este mesmo autor, dentre as variações existentes no positivismo lógico, destacava-se o materialismo mecanicista, que era uma mistura do positivismo comtista (Auguste Comte), do materialismo e do mecanicismo. Seu principal porta-voz era o alemão Ludwig Büchner, que rejeitava o idealismo e o “super-naturalismo”, em defesa de um método científico que forneceria conhecimento objetivo à luz da investigação empírica e sem recurso à especulação filosófica.

Mesmo depois de tanto tempo, o mecanicismo ainda exerce suas influências na forma de pensar em alguns domínios científicos, entre eles o domínio médico. Rios et. al (2007) destaca a influência do paradigma cartesiano, reducionista e mecanicista sobre o pensamento médico. Tais autores citam o fato de que o corpo humano é considerado uma

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máquina que pode ser analisada peça a peça; a doença é vista como um mau funcionamento dos mecanismos biológicos e o papel dos profissionais de saúde é intervir, física ou quimicamente, para consertar o defeito no funcionamento de um específico mecanismo enguiçado. Rios et. al (2007) acrescenta ainda que a medicina moderna mantém esse paradigma dominante, porém centrado numa abordagem hospitalocênctrica, curativista e verticalizada.

O final do século XIX registrou uma crise do materialismo mecanicista, que passou a ser questionado como resultado dos avanços na psicologia e na fisiologia. Hermann Von Helmholtz (1863) apud Suppe et al. (1977) salientou a importância da mediação dos sentidos e da atividade pensante do sujeito no crescimento do conhecimento científico. Surgiu então, a filosofia da ciência neo-kantiana, que compreendia o objetivo da ciência como o de descobrir as estruturas ou formas gerais das sensações, que constituem teias de relações lógicas entre sensações (COHEN 1871 apud EDGAR, 2011).

Na visão neo-kantiana, a ciência descobriria as estruturas dos fenômenos e não das coisas em si. Nesse contexto, as teorias científicas passam a ter um papel fundamental e, na posição neo-kantiana, todas elas devem conter um elemento a priori de caráter puramente formal.

E foram as próprias teorias científicas mais importantes da época – a teoria da relatividade e a teoria quântica – que fizeram emergir uma crise nas filosofias da ciência daquela época, devido principalmente a duas questões: (i) Como incorporar as revoluções da física? (ii) Qual é a natureza da investigação científica? Nenhuma das três escolas de filosofia da ciência da época – o materialismo mecanicista de Büchner, o neo-kantismo de Cohen e o neo-positivismo machiano de Ernst Mach – não conseguiam dar conta dos novos avanços científicos (SUPPE et al., 1977).

Diante deste cenário, no início do século XX, Carnap e Schlick estabeleceram um influente grupo de discussão sobre o conhecimento e os avanços científicos, fundamentalmente, baseados no positivismo lógico, que ficou conhecido como Círculo de Viena (PESSOA JR., 1993) – fato marcante na época. Esse grupo de filósofos, que se reuniu até 1936 – ano do assassinato de Schlick -, fundou as bases para a criação da visão ortodoxa (ou visão recebida) de teorias, que buscava explicar as teorias científicas a partir da lógica e de uma postura empirista e positivista. A visão ortodoxa consolidou-se como uma filosofia ciência na década de 50, quando alguns de seus adeptos empiristas (Carnap, Hempel, Feigl, Reichenbach) se instalaram nos Estados Unidos, conforme destacado por esse mesmo autor.

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Essa consolidação não significou consenso entre os filósofos da época. Duras críticas foram desferidas contra a visão ortodoxa, como, por exemplo, por Karl Popper. Popper (2008) rejeita o critério verificacionista de significância cognitiva, defendendo a idéia de que teorias científicas não podem ser verificadas por qualquer acúmulo de evidência observacional. Ainda, sustenta que o problema central da filosofia da ciência é o crescimento do conhecimento científico, e isso não poderia ser reduzido a um estudo de linguagens artificiais, como sugerido pela visão ortodoxa.

No estudo das teorias cientificas, Popper é conhecido por seu critério da falseabilidade e por advogar o falibilismo (POPPER, 1963). De acordo com o critério da falseabilidade, hipóteses científicas são falsificáveis e, dessa forma, os cientistas estão aptos a estabelecer quais achados empíricos tornam as hipóteses falsas. O falibilismo é a visão de que nenhum conhecimento presumido, nem mesmo conhecimento científico, é absolutamente certo. Como o conhecimento humano é incompleto, provável e conjectural, o cientista deve buscar a verdade, mas esperar verossimilhança. Verossimilhança é uma medida qualitativa de como uma teoria pode ser mais ou menos próxima da verdade (BHASKAR, 1978).

O escopo de críticas à visão ortodoxa não se restringe aos enunciados de Popper e é bastante amplo (SUPPE et al., 1977). Apesar de haver uma discordância sobre quais dos aspectos de tal visão são inadequados, esse mesmo autor afirma que de fato há um consenso entre os filósofos da ciência que a visão ortodoxa é inadequada para explicar o avanço das teorias científicas, mesmo em sua versão final desenvolvida por Carnap e Hempel.

Uma abordagem alternativa à visão ortodoxa surgiu no final da década de 50 e viria a se constituir em uma nova filosofia da ciência, que não se limitava apenas aos aspectos lógicos da ciência (PESSOA JR., 1993). Essa abordagem ficou conhecida como teoria dos globalistas, da qual faziam parte Willard Quine, Paul Feyerabend, Norwood Hanson, Stephen Toulmin e Thomas Kuhn. Alguns pontos ressaltados pelos globalistas (BACHELARD, 1934; KUHN, 1962) são: (i) rejeita-se que uma teoria científica se assenta em bases sólidas fornecidas por dados observacionais; (ii) o contexto social e histórico tornam-se relevantes para entender porque uma teoria é preferida em relação a outra; (iii) a transição de uma teoria para outra não é mais vista como uma ampliação cumulativa de conhecimento, mas como uma ruptura.

Nos anos 60, Thomas Kuhn é o principal ícone dentre os teóricos globalistas e sua obra A Estrutura das Revoluções Científicas ressalta o fato de que a transição entre teorias se dá através de revoluções, e que entre estes períodos de transição tem-se a chamada ciência normal.

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Kuhn (1962) advoga que a evolução científica não emerge diretamente da acumulação de fatos, mas através de “revoluções” surgidas de um conjunto de circunstâncias e possibilidades desafiadoras. Tais circunstâncias geram um novo paradigma, caracterizado por: uma nova e radical conceitualização dos fenômenos, a necessidade de uma nova estratégia de pesquisa para obtenção de evidências de suporte às novas teorias, o surgimento de questões e problemas que as teorias anteriores não estão aptas a explicar.

Na abordagem kuhniana, os períodos de ciência não-revolucionária, chamados de ciência normal, são conduzidos por comunidades científicas que compartilham uma matriz disciplinar, que sendo compreendidas como um tipo de paradigma, não podem ser explicitadas de maneira completa, mas adquiridas de forma implícita no processo educacional, especialmente através da assimilação de exemplares.

Nas décadas de 70 e 80, outros autores como Lakatos (1970), Feyerabend (1975), Van Fraasen (1980) e Suppes (2002), apresentam suas metateorias debatendo as idéias de Kuhn e dos globalistas. Lakatos (1970), por exemplo, propõe sua metateoria com base numa versão do falseacionismo de Popper unificada com as idéias de Kuhn, enquanto Van Fraasen (1980); Giere (1988); Suppes (2002) criam suas metateorias tendo como base a visão semântica de teorias, que enxerga as teorias científicas como entidades extra-linguísticas, muito além de um conjunto de formalismos.

Por fim, o panorama da filosofia da ciência, nas décadas de 80 e 90 aos dias atuais, caracteriza-se por uma pluralidade de abordagens, enraizadas tanto nos globalistas quanto na visão ortodoxa (PESSOA JR., 1993). Nesse cenário, destacam-se: (i) os seguidores da visão semântica, especialmente popular na Alemanha; (ii) a chamada epistemologia evolucionária (Campbell, 1960; Hull, 1988), que procura entender a dinâmica científica a partir da teoria da evolução em biologia1; e (iii) o embate entre o realismo científico e o anti-realismo provocado, principalmente, pela obra de autores anti-realistas, tais como Van Fraassen (1980).

Sobre este último item citado, é importante ressaltar a diferença central nos argumentos apresentados por realistas e anti-realistas: o realismo científico (POPPER, 1963; BUNGE, 1974; CHURCHLAND, 1985; SMITH e CEUSTERS, 2010) defende o argumento de que as teorias e os modelos científicos possuam valor ontológico, isto é, eles devem ser construídos em direção à verdade, buscando captar, numa maior

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Segundo a teoria da evolução em biologia (Campbell, 1960; Hull, 1988), grupos de pesquisa seriam análogos às espécies, e as idéias científicas funcionariam como traços genéticos, passando por um processo de seleção ao serem compartilhados por outros grupos de pesquisa.

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aproximação possível, “o que realmente existe” no mundo; por outro lado, o anti-realismo (CARTWRIGHT, 1983; NEWTON-SMITH, 1985; VAN FRAASSEN, 1980; PUTNAM, 1992) não julga como necessário o comprometimento com entidades sob o ponto de vista ontológico. Sob essa perspectiva, as hipóteses acerca do mundo são apenas construções mentais, que se impõem não por seu caráter referencial, mas em função de sua capacidade explicativa (SILVA, 1998), não sendo a verdade o objetivo central das teorias científicas.

Apesar de adotarem visões antagônicas, realistas e anti-realistas concordam em um ponto sobre a questão da explicação científica. Para ambos, as teorias e os modelos “dão conta” dos fenômenos do mundo, já que eles são capazes de explicar de maneira bem sucedida tais fenômenos. Nesse sentido, modelos e teorias são além de instrumentos de descrição, instrumentos de explicação científica e, assim, fundamentais para aquisição do conhecimento científico acerca do mundo a nossa volta.

Benzer Belgeler