Time Series Analysis and Its Applications to Data on Traffic Accidents
MATERYAL VE YÖNTEM Materyal
Como dissemos anteriormente, a crítica à cultura teórica e a exaltação do fenômeno dionisíaco em O Nascimento da tragédia não são apenas afirmados enquanto conteúdos, mas parecem buscar realização na forma mesma pela qual o livro se elabora.
Por mais que as obras posteriores de Nietzsche difiram de O Nascimento da
tragédia, seja quanto às concepções, seja quanto ao estilo, encontramos nesse seu livro e
em todos os outros uma forma de elaboração muito própria, que desdenha a citação de fontes, a contextualização histórica dos problemas tratados, a especificação da origem dos conceitos utilizados, priorizando uma interpretação cuja demonstração só se pode fazer por sua unidade e coerência internas.
O nascimento da tragédia não se apresenta como um trabalho pautado por regras
consensuais da comunidade acadêmica. Um dos aspectos da dessemelhança reside no estilo mesmo da escrita: arrebatada, passional, estendendo-se em arroubos, aqui permitindo-se longos rodeios e parênteses, ali fazendo afirmações peremptórias. A esse propósito, Nietzsche observará mais tarde, na Tentativa de auto-crítica acrescentada ao
livro:“Acho-o mal escrito, pesado, penoso, frenético e confuso nas imagens, sentimental, aqui e ali açucarado até o feminino.”
Um outro aspecto da composição do livro, ligado ao primeiro, é a forma pela qual aparecem, mas sobretudo se ocultam, no corpo do texto, as referências que marcam o autor tanto em sua relação com a antiguidade grega quanto com a produção filológica de sua época.
Nietzsche parece transitar com grande liberdade entre deuses, poetas e dramaturgos gregos42, sem explicitar o que é da ordem de suas próprias hipóteses e sobre o quê as
fundamenta, ou o que deve a outrem. Assim, são expressas as mais singulares hipóteses e idéias, sem praticamente qualquer referência à literatura relativa ao tema e aos ângulos pelos quais o explora.
No que diz respeito à inscrição filosófica do livro, Nietzsche aponta claramente sua filiação à linhagem filosófica de Kant e Schopenhauer, sem mencionar, todavia, qualquer referência ou comentários da época sobre a obra desses autores _ quando se sabe, para limitarmo-nos a um exemplo, da importância da leitura de Lange e Kuno Fisher em sua aproximação da filosofia kantiana.
A própria influência de Wagner aparece de forma curiosa. Nietzsche dedica-lhe reverentemente o livro em seu prefácio: “O autor...em tudo o que ideou...conversava convosco como se estivésseis presente e só devesse escrever coisas que correspondem a esta presença.” Essa forma um tanto maciça de “presença” de Wagner é destacada ainda pelo grandioso papel atribuído ao compositor no renascimento do mito trágico alemão. Contudo, a afirmação desse ideário não faz referências ao seu desenvolvimento pelo escritor Richard Wagner.43Autores mais recentes apenas ocasionalmente são
mencionados, em relação a um ou outro ponto específico, como Schiller e Schlegel a respeito da função do coro. Outras ideias importantes encontram referências em autores e obras que Nietzsche certamente leu, mas não menciona44
42 A viva relação de Nietzsche com a antiguidade grega é sublinhada por Colli (1987), que considera
como o “grande charme de sua inatualidade” a forma pela qual o filósofo ataca Sócrates, por exemplo, como se estivesse vivo e diante dele. Esta forma de “tratar o passado como se fosse presente” mostra-se na forma vívida pela qual trata não apenas os filósofos, como Sócrates, Platão e os pré-socráticos, mas também os mitos e a arte da antiguidade.
43
A título de exemplo: Nietzsche, embora adotando, segundo Chaves (2006),, a hipótese wagneriana segundo a qual a tragédia teria tido seu apogeu num período arcaico, começando a declinar a partir de Eurípides, não cita Wagner a este respeito.
44
A importância do êxtase e da saída de si no culto dionisíaco, relacionando-o à tragédia, encontra-se, relembra Chaves (2006), em Karl Ortfried Muller e Paul Yorck von Wanterburg.
A tradição clássica da criação de uma identidade alemã através do retorno aos gregos em geral, e particularmente do teatro, decisiva na formação de Nietzsche e na própria forma de relação com a experiência grega traduzida por seu texto, praticamente não é explicitada: encontra-se apenas uma única menção, embora de forma clara e destacada, da importância da luta de Goethe, Schiller e Winckelman no esforço do espírito alemão para aprender dos gregos.45
Nietzsche não faz referência explícita, ainda, aos debates científicos contemporâneos: o questionamento mesmo de uma “consideração teórica do mundo” não os menciona. Também não se refere em momento algum à questão, que lhe é tão próxima, da conjuntura contemporânea do ensino e da produção da filologia.
Se aliarmos a todos esses aspectos o tom exaltado do texto de O nascimento da
tragédia, não nos surpreende a violenta reação do jovem filólogo Willamovitz, segundo
o qual Nietzsche possuiria parcos conhecimentos sobre o assunto tratado, abordando-o sem rigor e sem critérios de cientificidade _ embora a resposta de Röhde tenha vindo mostrar que não era esse o caso.
Ao empreender uma tentativa de auto-crítica de O nascimento da tragédia, muitos anos depois, Nietzsche há de considerá-lo “confuso”, “sem vontade de limpeza lógica”, em seu desdém por qualquer forma de demonstração. Contudo, essa constatação não o leva a preferir uma forma de exposição mais clara e cuidadosa, e sim a desejar que houvesse radicalizado então o seu modo de expressar-se. “Quanto lamento agora que não tivesse então a coragem (ou a imodéstia?) de permitir-me em todos os sentidos, também uma linguagem própria para intuições e atrevimentos tão próprios _ que eu tentasse exprimir penosamente, com fórmulas schopenhauerianas e kantianas, estranhas e novas valorações que iam desde a base contra o espírito de Kant e Schopenhauer, assim como contra seu gosto!” Ou seja: muitos anos depois, ao avaliar seu “primogênito”, Nietzsche lamenta nele a falta não de uma maior clareza de
45
Ao apresentar o dualismo entre o dionisíaco e o apolíneo, Nietzsche não se refere à presença de um antagonismo entre dois princípios na reflexão filosófica sobre a tragédia, lembrado por Machado (2006): em Schiller, Schelling e Hegel, cada qual à sua maneira, traduzindo a oposição e a conciliação do par necessidade x liberdade; em Hölderlin, como um antagonismo irredutível entre um princípio que une e um que divide: o formal e o informal, o limitado e o ilimitado, antecipando, pois, a própria oposição nietzscheana.
argumentação, que não obstante reconhece, mas problemas relativos a uma audácia insuficiente na linguagem utilizada.
Mesmo não tendo ousado então tal radicalização da linguagem, o fato é que Nietzsche preferiu arriscar-se ao tipo de crítica que sofreu do que seguir certas regras próprias a um trabalho acadêmico, que aliás não desconhecia. Denunciando os riscos da visão histórico-crítica da cultura socrática, que aniquila o mito ao buscar fundamentá-lo historicamente, é como se sua escrita, ao desvincular-se dos “fundamentos históricos” que poderiam ser apresentados para as ideias que nos traz, procurasse construir-se ela própria de maneira mítica, aos moldes de um mito filosófico.
Quanto aos pontos de vista sobre a cultura teórica e a cientificidade, ainda que Nietzsche reavalie suas formas de compreensão e valorização do conhecimento científico na evolução posterior de sua obra, reafirma algo de essencial que já percebera desde então: “O que consegui então apreender, algo terrível e perigoso...hoje eu diria que foi o problema da ciência mesma _ a ciência entendida pela primeira vez como problemática, como questionável” .
No mesmo texto, destaca-se esta observação: o livro foi “colocado sobre o terreno da arte _ pois o problema da ciência não pode ser reconhecido no terreno da ciência”. Faz parte integrante da filosofia de Nietzsche, a nosso ver, o desenvolvimento da idéia de que a questão do lugar e do valor da ciência na cultura não pode ser colocada na linguagem da própria ciência, nem no interior dela própria _ ainda que exija apreço e familiaridade com suas produções, e uma verdadeira paixão do conhecimento.