As crianças, por sua pouca idade e autonomia, chegam ao museu através de alguém que as leva. Ouvem falar de museus e estabelecem suas referências sobre essas instituições através de outras pessoas e meios de comunicação. Quem são essas pessoas, e que meios são esses? Conhecendo-os podemos conhecer também a origem dessa relação.
Podemos tabular as respostas a esta pergunta de duas maneiras: contando familiares de maneira geral, e separando pais de outros familiares. No primeiro caso, temos que 66 crianças foram ao museu com familiares, 20 foram com a escola, 02 com outros grupos/pessoas e 15 não foram ou não se lembram quem as levou.
No segundo caso, o número de familiares fica dividido da seguinte maneira: 47 crianças foram com os pais (ou padrastos), 16 foram com outros familiares (tios, avós, irmãos), e 7 crianças citaram apenas a palavra família ou os familiares, sem especificar grau de parentesco. A soma ultrapassa os 66 anteriores, pois várias crianças citaram ao mesmo tempo pais, avós, irmãos, etc.
Surpreendeu-me o fato de a grande maioria ter ido ao museu com a família, especialmente nas escolas públicas. Ao perguntar na roda de conversas se eles também iam com a escola, várias crianças responderam que sim, mas sua primeira lembrança era com a família.
Na EMEF Dutra, alguns alunos comentaram ter ido ao museu com a escola, mas a maioria frisou que vai mais com familiares. No segundo grupo ainda demoraram a lembrar, e só responderam que haviam ido com a escola após a repetição da pergunta. Nas respostas escritas, ninguém havia citado a escola nesse grupo. Não citaram nenhuma visita escolar específica, sendo que as suas referências parecem ser mesmo familiares.
Na EE Artur Sabóia, as crianças responderam que também foram ao museu com a escola, alguns com esta e outros com outra escola. Eu perguntei por que eles lembraram primeiro de responder que foram com a família. Uma menina respondeu que foi primeiro ao
museu com a família depois com a escola, depois outras crianças afirmaram o mesmo. Na segunda turma, três alunos disseram ir mais com a escola, mas a maioria disse que vai mais com a família.
Perguntei o que preferiam, um garoto disse preferir ir com o pai, assim passa mais tempo com ele. Outro disse que com a família ele “curte a família, diversões...”, então eu perguntei sobre a escola e ele falou “Aí fica difícil né!”. Um garoto respondeu que com a escola é legal porque a professora permite que eles vejam tudo. Eu perguntei se com a família não podia ver tudo e ele disse que também podia. Ou seja, vão ao museu com os dois (família e escola), lembram mais da família, não sabem definir ao certo o porquê. Contaram que foram ao Museu Afro Brasil com a escola, há um ano atrás, não lembraram para me contar como era, mas imagens desse museu aparecem nos desenhos desta turma.
Ainda assim, nas duas escolas públicas não havia acontecido visita recente ao museu, sendo que as experiências relatadas junto à escola eram distantes e um pouco vagas. No Colégio Waldorf Micael, embora os alunos tenham muitas atividades externas, a professora me explicou que só iriam ao museu no quarto ano, pois até então o plano da escola privilegiava outras experiências como contato com a terra e algumas atividades manuais. Nessa escola, a grande maioria dos alunos havia visitado o museu com os pais, mas também houve um número razoável de crianças que nunca haviam visitado um museu.
No Colégio Beatíssima, ao contrário, cerca de metade das crianças havia visitado o museu com a escola, sendo esta uma referência fortíssima na visão de museu e do comportamento que se espera dentro do mesmo, como vimos anteriormente. Nessa escola colhi um depoimento interessante sobre como é visitar com os pais e como é com a escola, qual a diferença: o interessante é que com a escola a visita é considerada mais legal, mas ao mesmo tempo é o momento em que alguns consideram pior, porque estão com os amigos e não podem conversar.47
Na categoria de resposta “outras pessoas e grupos” tivemos apenas duas citações: “a tia da salinha da igreja” na escola municipal, e “os escoteiros” na escola Waldorf. É interessante notar que ambos tratam de espaços de educação não-formal, ainda que tenham aparecido poucas vezes em relação ao todo.
Abaixo podemos acompanhar no gráfico quem leva as crianças ao museu e as diferenças encontradas em cada uma das escolas. As colunas indicam a porcentagem em cada uma das escolas e o percentual médio para cada um dos itens. As respostas ultrapassam o total de cem por cento dos alunos por terem, vários deles, indicado mais de uma referência simultânea:
Gráfico 4
RESPOSTAS
(Percentuais) DUTRA SABÓIA BEÁ MICAEL TOTAL
Pais 42,85% 68,18% 28,57% 70,58% 49,47%
Escola 7,14% 13,63% 53,57% 0% 21,05%
Familiares 21,42% 27,27% 28,57% 11,76% 24,21%
Outros 3,57% 0% 0% 5,88% 2,10%
Não foi / Não
lembra 32,14% 9,09% 3,57% 17,64% 15,78%
RESPOSTAS
(Quantidade) DUTRA SABÓIA BEÁ MICAEL TOTAL
Pais 12 15 8 12 47 Escola 2 3 15 0 20 Outros Familiares 6 6 8 2 23 Outras pessoas/grupos 1 0 0 1 2
Não foi / Não
lembra 9 2 1 3 15 0% 20% 40% 60% 80%
Pais Escola Familiares Outros Não foi / Não lembra
Quem te levou ao museu?
EMEF Dutra EE Sabóia Beatíssima Micael Média Total
Junto aos depoimentos já citados percebemos que, com exceção de uma das quatro das realidades pesquisadas, embora a escola tenha apresentado uma importância significativa, o maior responsável por levar a criança ao museu e oferecer-lhe esse primeiro contato nesse recorte de pesquisa, ainda é a família, em especial os pais.
É interessante notar que a escola onde a referência escolar na relação museu- criança aparece com mais força é justamente a única escola onde houve manifestação negativa quanto aos procedimentos dentro do museu. Isso nos leva a pensar sobre os perigos da excessiva escolarização dos museus. Ora, se uma criança só tem experiências escolarizadas de museu, será ela capaz de identificá-lo também como opção de lazer? Será que esta criança retornará ao museu quando adulto, ao se distanciar da sua vida escolar?
Sob essa perspectiva, fico contente em ver que as famílias estão levando suas crianças aos museus, ainda que lhes faltem frequência e diversidade. Acredito que o papel da escola nessa formação de público seja muito importante, porém não é capaz de substituir a ação familiar no que diz respeito à consolidação de uma relação mais informal e prazerosa com o espaço museológico. Falaremos mais a esse respeito no próximo capítulo.
Até agora, falamos sobre quem leva a criança, já que esta não vai sozinha, até o museu. Porém, ao tratarmos de quem intermedeia essa relação, devemos completar o quadro com os meios ou pessoas pelos quais a criança toma contato com a palavra museu, ou seja: através de quem ou do que, além das experiências vivenciadas dentro do espaço museológico, a criança compõe a sua ideia sobre estas instituições?
Não houve uma pergunta específica, dentro das onze essenciais do jogo de perguntas, que tratasse desse assunto, mas uma pergunta extra nos grupos maiores e variadas colocações durante a roda de conversa em diversos grupos podem nos dar uma ideia a respeito desses intermediadores.
Nessas ocasiões, as crianças disseram ter ouvido falar de museus principalmente através dos pais, professora ou escola, sendo essas respostas encontradas nas quatro escolas. Outros familiares e amigos foram citados em três escolas, ficando de fora apenas a EE Artur Sabóia e o filme “Uma Noite no Museu”48, só não foi citado nos grupos da EMEF
Dutra.
Outras referências que apareceram foram: propagandas na TV (Sabóia e Micael), Novela (Sabóia), Jornal (Sabóia), Rádio (Micael) e Cartazes (Micael). O jornal apareceu de forma bem interessante: durante a conversa ao falarmos de nomes de museu, um dos meninos citou o Museu da Casa Brasileira. Eu perguntei se ele conhecia esse museu, e
onde tinha ouvido falar dele, então ele me mostrou o jornal que tinha acabado de pegar na estante (nessa escola fizemos a pesquisa em uma pequena biblioteca).
Além das referências diretas, cabe citar aqui alguns elementos interessantes, por não fazerem normalmente parte da nossa realidade, e que as crianças citaram como algo que pode ser encontrado nos museus. Os dinossauros e seus ossos apareceram em todas as escolas. Uma menina da EMEF Dutra também falou sobre os quadros de Van Gogh, Da Vinci e sobre múmias. Perguntei a ela quem lhe havia contado sobre essas coisas, e ela respondeu ter sido a professora.
Quanto aos dinossauros, aos poucos, nas conversas, consegui levantar distintas referências para eles. A primeira é sem dúvida o filme “Uma Noite no Museu”, relativamente recente no período de realização da pesquisa e cujo teor, segundo as próprias crianças, envolvia esse grande réptil. Uma das meninas do Colégio Micael também contou ter visitado com seus pais o museu onde fora realizado tal filme, nos Estados Unidos. Além do filme, foram citados, no Colégio Micael, a exposição “Dinos na Oca”, e na EMEF Dutra, o Museu de Zoologia, onde esses exemplares puderam ser realmente vistos em nossa cidade. Os dinossauros, por fascinarem as crianças de todos os lugares, mereceram constantes aparições nos seus desenhos.
Por fim, podemos enumerar como principais intermediadores da relação criança- museu os pais e a escola, sendo que os pais colocam-se a frente nessa função junto a outros familiares como tios, avós e irmãos. Completando o quadro, referências como a TV e o cinema também assumem papel fundamental no imaginário infantil referente a esses espaços, e devem ser levadas em conta em nossas reflexões.