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Nesse período, Carlinhos costumava tocar suas canções no piano da Estação da Luz, atividade que fazia com duplo sentido: divulgação de mensagens bíblicas, do seu trabalho como músico, forma de ampliar seus contatos e vender seus discos.

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Em 2008, a Associação da Comunidade do Moinho, Defensoria Pública e o Escritório Modelo da Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP entraram com pedido coletivo de usucapião da área, concedido pela 17º Vara Federal de São Paulo (VAZZOLER; GIOVANNETTI, 2008).

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Compreende que a música em sua vida é parte de uma revelação divina e suas canções são “mensagens de amor e paz à humanidade. Está faltando amor!” No quadro 8, descrevemos um de nossos encontros na Estação da Luz.

Quadro 8. Uma tarde na Estação da Luz

Era uma tarde ensolarada de janeiro, e não havia tanto movimento na cidade. Na entrada da Estação que leva ao saguão onde fica o piano57, alguns vendedores e trabalhadoras do sexo. Carlinhos estava tocando e cantando, cercado de pessoas. O movimento da Estação era curioso. Alguns passavam rapidamente, outros paravam na roda para observar por algum tempo; depois, conheci aqueles que se dirigiam ao local para ouvir e serem ouvidos. Intercalava canções do Legião Urbana e suas próprias composições. As pessoas faziam pedidos, e, não raro, Carlinhos realizava alguma venda de CD, de forma discreta, para não chamar a atenção dos funcionários da Companhia do Metrô.

As trabalhadoras do sexo aproximavam-se com cautela. No intervalo de suas performances, foi cumprimentá-las. Disse-me que tentava alimentar a amizade com algumas delas, pois percebia que sofriam de forte preconceito, o que também experimentava por ser negro e pobre. Além disso, ficava muito satisfeito por saber que ouviam suas mensagens através daquelas canções e que, em certos momentos, as distraía do trabalho, o que considerava positivo.

Um grupo se aproximou e no intervalo entre uma música e outra perguntou “Qual é a sua Igreja, irmão?”. Alguns irmãos de fé reconheciam em suas canções mensagens bíblicas ligadas a sistemas religiosos neopentecostais e, nos intervalos, o procuravam para falar de suas Igrejas e compartilhar aspectos de sua fé que se desdobravam em reflexões sobe a Bíblia e a atualidade. Na roda que cercava o piano, ouviam-se comentários sobre seu talento e o quanto merecia maior reconhecimento.

O piano alterava radicalmente o ritmo e o cenário do saguão daquela estação de metrô, e Carlinhos fazia parte desta composição. Para alguns, apenas passagem; para outros, diversão, trabalho, encontro e possibilidades de troca.

Seu estilo de se vestir também chamava a atenção. Mostrava sua adesão ao reggae, ao preferir o uso das cores verde, amarela e vermelha, as cores da bandeira da Etiópia. E por que a opção por designar um ser superior de Jah? Segundo Carlinhos, são influências de um

57 Os encontros com Carlinhos Luz partiram do piano da Estação da Luz, que fica no saguão localizado próximo à saída para o Parque da Luz. Esse piano faz parte do Projeto Toque-me, Sou Teu. Ver

sul-africano que conheceu no albergue e lhe falou sobre a Cannabis sativa como instrumento de ligação entre homem e Deus. Incorpora alguns elementos do movimento Rastafári, o qual entende como uma religião de origem jamaicana que proclama Hailé Selassié, imperador da Etiópia entre 1930 a 1974, como a representação de Jah na terra. O imperador seria descendente do bíblico encontro do rei Salomão de Israel e da rainha de Sabá58.

Durante o ano de 2010, Carlinhos chegou a participar das reuniões do MNPR, onde procurava pautar a necessidade dos artistas. Fazia a diferenciação entre artistas de rua e artistas que estão em situação de rua. Havia aqueles artistas que compreendiam o espaço público como local privilegiado para divulgação de sua arte e aqueles que, por uma série de rupturas, chegaram à situação de rua. Era nesta segunda descrição que se enquadrava. Esta participação culminou na sua presença na programação cultural do VII Natal Solidário: o Povo da Rua tem Direito de Verdade, em 2010.

Carlinhos saiu da cidade de São Paulo, no início de 2011, e mudou-se para Praia Grande (SP), após ter sido beneficiado por um programa habitacional que lhe permitiu financiamento para a compra de um apartamento no Litoral Sul paulista, como vimos. Desde então, mantive contato por correio eletrônico com Calinhos e soube que, após cerca de oito meses, vendeu o imóvel e retornou a Itaboraí. Voltou a frequentar a Igreja Batista, onde conheceu sua atual companheira, e constituiu família novamente. Esforça-se para manter sua missão, como explicou anteriormente, de tocar reggae, sempre em busca de alternativas de trabalho como músico. Mais recentemente, formou uma banda chamada Guerreiros da Luz, que tem em seu repertório canções de sua autoria e de outros compositores, de forma a transmitir mensagens e ensinamentos considerados por ele positivos. Desta forma, continua a agenciar uma rede invisível, que a todo o momento coloca em tensão suas projeções para o futuro.

Ao longo de sua trajetória, Carlinhos elaborou uma síntese de suas experiências, seja na adesão à Igreja Batista, marcada pelo intenso estudo da Bíblia, seja na Iurd, onde pode presenciar a atuação de maus espíritos e aprender a lidar com eles, seja em seus encontros com Deus nas situações narradas por ele e descritas anteriormente, seja ainda em aproximações com a religião Rastafári. Carlinhos reivindica uma relação direta com Deus, ou Jah, como prefere, e considera que seu corpo é um templo, apesar de frequentar cultos em igrejas evangélicas, de acordo com o contexto em que vive.

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Eu tenho Jesus Cristo como filosofia de vida, o Espírito Santo de Deus é meu amigo e meu guia consolador. Eu posso até ir às igrejas, mas eu entendo que eu já sou um templo, então tenho que adorar a quem? A mim mesmo. Olha, como pode você se adorar a si mesmo, se a Bíblia fala: Não terás outro deuses diante de ti? Mas aí é que tá o segredo, significa você cuidar de você: não envenenar seu corpo com nicotina, com excesso de álcool, não se encharcar de Cannabis sativa, respeitar a ética-moral-humana, isso é Jesus filosofia de vida. [...] Existem várias portas pra se chegar a Deus, várias, várias portas, mas só tem uma que vai chegar que é o amor. E o amor é Jesus. Aí quando fala ‘Jesus’ as pessoas imaginam indo pra Igreja e levantar a mão, ‘aceitei Jesus’, não. Jesus já está dentro da gente. Isso que eu estou falando das minhas experiências próprias do conhecimento que eu tenho, tanto de um lado quanto de outro, do lado físico como do lado espiritual.

A possibilidade de retornar à cidade natal e à Igreja Batista confere a Carlinhos novamente pertencimento comunitário. Voltar não é simples. Há muitas pessoas que relatam suas experiências em situação de rua e a impossibilidade de voltar à sua cidade natal, à sua família, pela vergonha de retornar como perdedor. Há outros que não têm para onde voltar! Como diz o subtítulo do monólogo O Homem sem País, do escritor Sebastião Nicomedes de Oliveira59:“O que é cidade de origem para quem não tem mais para onde ir?”

Nesse sentido, Carlinhos conseguiu construir um caminho possível de retorno, depois de muitos anos afastado e sem contato. Parece que os produtos de seu trabalho como músico, a inserção nas redes religiosas e as possibilidades financeiras que conseguiu a partir da venda de seu imóvel puderam alicerçar o caminho de volta.

Benzer Belgeler