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Mencionado anteriormente, o manifesto da arte transgênica, desenvolvido por Kac em 1998, na revista Leonardo79, deu origem as obras da “Trilogia da Criação”. Muito interessante por elucidar muitos dos propósitos (Patafísicos80?) de Kac em relação a sua nova forma de arte, o texto traz grande quantidade de assuntos interligados. O autor não se detém às informações necessárias para a compreensão daquilo que propõe como “a nova forma de arte baseada no uso de técnicas da engenharia genética para criar seres vivos únicos” (Kac, 2005).

Através de uma atitude parecida com a dos escritores de manifestos modernos, o manifestador Kac, levanta um apanhado de questões que vai além dos domínios da genética. Ele inicia sua exposição a partir da idéia da alteração da percepção humana do corpo promovida pelos desenvolvimentos tecnológicos, para deste ponto tratar da plasticidade da nova identidade do corpo físico. Quando elege o corpo como o lugar das transmutações contínuas, lembra da necessidade de se pensar, através da arte, as transformações ocorridas fora do nosso alcance visual. Citando aí a questão da engenharia genética e profetizando sua importância em todas as esferas da vida.

Do tom panfletário, Kac passa rapidamente a uma explicação do que seria os experimentos por ele propostos e o benefício social imenso – inclusive ecológico – que suas criaturas fariam, num mundo onde muitas espécies são diariamente ameaçadas de extinção. Fala também da contribuição que os artistas darão ao criar novas formas de vida e da responsabilidade ética que é necessária a todas as obras de arte, em especial aos projetos de bioarte. Também postula a questão da comunicação interespécies e afirma que a arte

79 O artista foi editor da revista durante bastante tempo. Especializada em artes, ciências e tecnologia é uma das

mais importantes na área, conhecida por promover artistas como pesquisadores, como é o caso de Kac.

80 Criada pelo dramaturgo francês Alfred Jarry, é definida como “a ciência das soluções imaginárias e das leis

que regulam as exceções”. Frequentemente se expressa através de uma linguagem aparentemente nonsense, resultando de um modo pessoal e anárquico de explicar o absurdo da existência. O Colégio de ‘Patafísica, fundado em 1948, publicou a revista Viridis Candela, que trouxe textos de Ionesco, do grupo Oulipo, inclusive de Marcel Duchamp. In: WIKIPEDIA. A enciclopédia livre. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/'Pataf%C3%ADsica. Acesso em 25/05/2009.

transgênica “clama por uma relação dialógica entre artista, criatura e aqueles que entrarem em contato com ela” (KAC, 2005).

Só a partir de então é que o artista expõe os métodos que serão utilizados. Primeiro defende a escolha de um animal, no caso o cachorro81, depois fala do isolamento da proteína verde fluorescente (GFP), famosa nos seus experimentos, comenta a questão de que animais albinos, muitas vezes considerados “defeituosos” pelos criadores serão considerados padrão e subverterão a lógica da raça pura. Na sequência, apresenta um histórico sobre os organismos vivos híbridos, exemplificando que há muito tempo o homem realiza cruzamentos entre organismos selecionados, como plantas e animais. Avançando com a idéia dos híbridos, Kac mistura a esta argumentação o fato de seres imaginários, como a Quimera grega, há muito terem saído da imaginação e povoarem a realidade. O artista exemplifica com o “geep” (ovabra ou cabrelha) animal criado a partir de células e de cabra e ovelha.

Kac faz questão de diferenciar a criação de raças dos métodos provenientes da engenharia genética e, por conseguinte, da arte transgênica. Nesse ponto do manifesto argumenta:

Nesse sentido, uma qualidade única da arte transgênica é que o material genético é manipulado diretamente: o DNA externo é integrado precisamente no genoma do hospedeiro. Além da transferência genética de genes existentes de uma espécie para outra, podemos falar também de “genes de artistas”, ou seja, genes quiméricos ou informação genética nova criada completamente por artistas através das bases complementares A (adenina) e T (timina) ou C (citosina) e G (guanina). Isto significa que os artistas podem não somente combinar genes de diferentes espécies, como escrever uma seqüência de DNA em seus processadores de texto, enviá-la por e-mail para um centro de síntese comercial, e em menos de uma semana receber um tubo de ensaio com milhões de moléculas de DNA com a seqüência esperada. Todo organismo vivo tem genes que podem ser manipulados, e o DNA recombinante pode ser passado adiante para as próximas gerações. O artista se torna literalmente um programador genético que pode criar formas de vida escrevendo ou alterando uma dada seqüência. Com a criação e procriação de mamíferos bioluminescentes e outras criaturas no futuro, a comunicação dialógica interespécies mudará profundamente o que entendemos por arte interativa. Esses animais devem ser amados e criados exatamente como qualquer outro animal (KAC, 2005).

81 O projeto GFP- K9 não foi concretizado devido a questões envolvendo o mapeamento do genoma dos cães. O

projeto GFP- Bunny pode ser visto como um substituto desse projeto que pôde se concretizar. Assim como a pesquisa feita em relação aos cães, explicitando pontos positivos para que a interação interespécies ocorresse, o artista fez o mesmo com os coelhos.

Através desta passagem fica fácil visualizar os processos combinatórios que encantam o artista e que, inclusive, aparecem associados a formas de escrita que podem ser traduzidas para o código criador. Assumindo a postura de um “programador genético”82, Kac, além de articular as idéias de combinação e tradução, ainda coloca a questão em termos de tradição, procriação, criação e comunicação dialógica interespécies.

Dito isto, o manifesto termina no mesmo tom inicial, já que novamente o autor vai abordar manchetes como a comercialização de material genético, ou o uso de transgênicos pela indústria alimentícia, com a intenção de reafirmar a postura contrária a reducionismos e a eugenia, e enunciar que a arte a partir da genética possibilitará um ponto de vista ético e social sobre estas questões. Não finaliza, no entanto, sem antes deixar de mencionar que se a genética questiona a noção de ser humano, o genoma humano não poderá ser entendido como uma limitação, mas como nosso ponto de partida (KAC, 2005).

Partindo da apresentação do manifesto e de algumas observações sobre seu formato e idéias, podemos entrever que a maioria das preocupações do artista são similares àquelas enumeradas por Nelkin (1996, p.56) comuns a artistas que trabalham com as metáforas moleculares. O que é peculiar nas colocações do artista é justamente o impulso lúdico que o faz querer ser um “programador genético”, capaz de recombinar sequências e criar seres que poderão transmitir seus genes manipulados para outras gerações. Eu diria que há algo de cabalístico nesta atitude. Ainda mais se juntarmos a essa empolgação o fato de genes e seres quiméricos, todos produtores de grande luminosidade, serem realmente “fabricados”83 em seus experimentos.

82 Não poderia deixar de me lembrar desta profecia flusserina: “Por isso, é como se a sociedade do futuro,

imaterial, se dividisse em duas classes: a dos programadores e a dos programados. A primeira seria daqueles que produzem programas, e a segunda, daqueles que se comportam conforme o programa. A classe dos jogadores e a classe das marionetes. Mas essa visão parece ser muito otimista. Pois o que os programadores fazem quando pressionam as teclas para jogar com símbolos e produzir informações é o mesmo movimento de dedos feito pelos programados” (FLUSSER, 2007, p.64).

83 Aqui vale lembrar novamente Flusser em seu texto “A Fábrica” (2007, p. 34-44), tanto pela posterior relação

que fará entre Homo faber e Homo ludens, como pela idéia de que “a fábrica do futuro deverá ser o lugar em que o Homo faber se converterá em Homo sapiens sapiens, porque reconhecerá que fabricar significa o mesmo que aprender, isto é, adquirir informações, produzi-las e divulgá-las”(Ibidem, p.43).