2.4.10 NÖROVASKÜLER KOMPLİKASYONLAR
3. MATERYAL VE METOD
3.1 SEBASTIÃO SALGADO E CRISTOVAM BUARQUE: PENSAMENTOS E AÇÕES
ratamos, neste início do segundo capítulo, da vida e obra dos autores de O
berço da desigualdade. Apresentamos algumas concepções defendidas pelo
fotógrafo e pelo escritor que são refletidas por toda a publicação em questão. As informações foram obtidas por meio da pesquisa bibliográfica, que também nos permitiu localizar entrevistas, reportagens e sites oficiais. Em um primeiro momento, abordaremos a respeito de Sebastião Salgado e em seguida sobre Cristovam Buarque.
3.1.1 Sebastião Salgado
O percurso profissional de Sebastião Salgado abrange o fotojornalismo e o fotodocumentarismo, mas foi nesta última prática que ele se especializou. O brasileiro iniciou-se no fotodocumentarismo sem nenhuma pretensão, em 1973, quando sua esposa Lélia Wanick Salgado, na época estudante de arquitetura, emprestou-lhe sua câmera fotográfica para que ele fizesse fotografias na África, lugar onde Salgado trabalhou coordenando um projeto sobre o cultivo do café. Com o passar do tempo as imagens o conquistaram mais do que o seu próprio trabalho com os números. O fotógrafo, em entrevista, declarou ao jornal The Guardian20: “A câmera me dava prazer, dez vezes mais. Finalmente, eu abandonei tudo e comecei uma nova vida como fotógrafo. Isso ainda hoje é minha vida” (tradução nossa) 21. Então, demitiu-se de seu emprego na Organização Internacional do Café, em Londres, onde trabalhou durante dois anos, decidindo seguir a carreira de fotógrafo por volta dos 27 anos de idade.
O fotojornalismo começou a fazer parte da vida de Salgado em 1974, iniciando a carreira na agência fotográfica Sygma. Em 1975 ingressou na Gamma, onde fotografou até 1979 e entre 1979 e 1994 trabalhou na Magnum, agência renomada criada por Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, destacando-se como o fotógrafo brasileiro que fez as fotos do
20 Entrevista cedida em 28 de fevereiro de 2012. Cf. Salgado (2012).
21 The camera gave me 10 times more pleasure. Eventually, I abandoned everything and started a new life as a
photographer. That is still my life today.
atentado22 contra o presidente, estadunidense, Ronald Reagan, em 30 de março de 1981; a venda das fotos contribuiu para Salgado financiar seu primeiro projeto autoral, viajou então à África e registrou a relação do povo com a terra. Paralelamente ao trabalho como repórter fotográfico na Magnum, Salgado dedicou-se aos seus planos pessoais, sempre com fotos em preto e branco. Em 1994, em parceria com sua esposa, criou sua agência, a Amazonas
Imagens, em Paris.
Fotodocumentando problemáticas sociais, recebeu entre 1982 e 2010 mais de 25 prêmios23 internacionais. Na atualidade, Sebastião Salgado é destaque como um dos melhores fotodocumentaristas do mundo. Por meio de seus projetos, contribuiu com organizações humanitárias, incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONG Médicos sem Fronteiras e a Anistia Internacional. Sousa (2002, p. 36) diz que “o brasileiro Sebastião Salgado recuperou para o fotodocumentarismo a tradição dos grandes fotógrafos humanistas e o preto e branco”. τutra forte característica estética das suas fotos é a contraluz. Seus projetos costumam demandar entre quatro e oito anos de empenho e são transformados depois em livros24.
Salgado emprega a fotografia como uma importante ferramenta documental e de denúncia social e suas representações visuais, de apurada produção estética, medeiam os sujeitos com problemáticas sociais desconhecidas ou superficialmente abordadas pelos meios de comunicação. Os trabalhos do fotodocumentarista são publicados periodicamente por Paris
Match, na França, The Guardian, na Inglaterra, La Vanguardia, na Espanha, Visão, em
Portugal, La Repubblica, na Itália e Rolling Stone, nos Estados Unidos.
Assim como em qualquer trabalho existe algum tipo de desgaste e os mais severos são os psicológicos. Ver e viver por tantos anos seguidos momentos de tristeza, dor, fome, doenças e misérias transforma o ser humano. No ano de 1999, quando finalizava o projeto
Êxodos, o fotógrafo estava desgastado pela violência que fotografava e cogitou parar por um
tempo sua carreira. Aquele momento coincidiu com o seu retorno ao Brasil por motivos familiares e resolveu, juntamente com sua esposa Lélia Deluiz Wanick Salgado, dar início ao
22 Outro repórter que também fotografou o atentando foi o americano Ron Edmonds, vencedor do Prêmio
Pulitzer no mesmo ano.
23 Informação coletada em fevereiro de 2013 no sítio eletrônico da agência Amazonas Images.
24 Outras Américas (1986), Um Incerto Estado de Graça (1990), Trabalhadores (1993), Terra (1997), Serra
Pelada (1999), Retratos de Crianças do Êxodo (2000), Êxodos (2000), O Fim da Pólio (2003), O berço da desigualdade (2005), África (2007), Gênesis (2013).
reflorestamento em sua fazenda Bulcão, no município de Aimorés, em Minas Gerais, por meio do Instituto Terra25 e que contou com a colaboração da Reserva Natural da Vale.
Salgado então não conseguiu mais parar. Embora decidido a se afastar das imagens de grande impacto, foram os assuntos ambientais que o revitalizaram. O trecho da reportagem de Luís Bulcão sobre o fotógrafo brasileiro, em 27 de maio de 2013, revela:
A vontade e a inspiração acabaram retornando quando o fotógrafo se envolveu em um projeto de reflorestamento no território de uma fazenda que herdara junto com a esposa, Lélia Wanick, que é curadora de suas exposições. ‘A Terra estava morta. Tão doente como eu’, compara. Devolver a vida à fazenda, localizada na bacia do Rio Doce, em Minas Gerais, trouxe a ideia de Gênesis, uma tentativa de focar naquilo em que ainda se pode salvar. ‘A partir daí, nasceu a minha vontade de fotografar novamente’.26
Em 2001 o brasileiro elaborou um trabalho com o apoio do Unicef e da Organização Mundial de Saúde (OMS): O Fim da Pólio (2003), que retrata a tentativa de encontrar e vacinar crianças em cinco dos dez países nos quais a poliomielite ainda era endêmica em 2001: a República Democrática do Congo, a Índia, o Paquistão, a Somália e o Sudão. E em 2002 também viajou a muitas regiões de produção de café; a empresa Illycaffé o contratou para registrar imagens de produtores de café e o habitat deles: no Brasil, em 2002, na Índia, em 2003, na Etiópia, em 2004, na Guatemala, em 2006 e na Colômbia, em 2007. O material fotográfico ainda não foi publicado em livro.
Em 2013, completando exatamente 40 anos de carreira fotográfica, Salgado finaliza a construção de longos e caros projetos com a obra: Gênesis. Entre 2004 e 2012, o fotógrafo viajou por todo o planeta produzindo imagens em lugares inóspitos ou ainda intocáveis pelo ser humano. As exposições27 desse trabalho iniciaram-se em 11 de abril de 2013 e finalizar- se-ão em 25 de agosto de 2014, percorrendo 11 locais pelo mundo. Tal fato não é relevante apenas para a obra em questão, mas resgata todo o trabalho de Salgado, constituído durante décadas, no qual despendeu energia física e mental na produção de fotografias com temáticas relacionadas ao trabalho escravo, à exploração da mão de obra infantil, às desigualdades sociais, à saúde pública, aos massacres e, por último, ao que ainda é puro e sadio na fauna e flora do planeta terra.
25 O Instituto Terra, idealizado por Lélia Wanick e Sebastião Salgado, tem a meta principal de reflorestar mais
de 7.000 hectares de áreas degradadas. O casal mobilizou parceiros, captou recursos e fundou, em abril de 1998, a organização ambiental dedicada ao desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce.
26 Matéria jornalista produzida para o portal G1, do Rio de Janeiro. Cf. Bulcão (2013).
27 O cronograma da exposição foi divulgado na página eletrônica da editora Taschen (do livro ‘Gênesis’). Cf.
Desse modo, as fotografias fazem parte de um contexto e as concepções do fotógrafo Sebastião Salgado estão impregnadas em suas imagens. Como o próprio fotógrafo afirma: “[...] Tenho minha maneira de pensar, tenho uma formação ideológica. Portanto, meu trabalho é uma simples correlação com minha forma de vida.”. E, como Albornoz (2005) observa sobre a obra do fotógrafo: “τ trabalho de Salgado tem uma intencionalidade, a de criar uma consciência sobre determinados aspectos de nossa contemporaneidade” (ALBτRστZ, 2005, p. 101).
O trabalho do fotógrafo brasileiro é permeado por uma ideologia – uma construção de significados – edificada historicamente. Citamos alguns desses fatores, como exemplo: a infância e adolescência em contato com a natureza; a participação durante a juventude em movimentos estudantis; a preocupação com a distribuição de terra e com as agressões ao meio ambiente e sua formação de economista, na graduação, no mestrado e no doutorado. Devido a essa trajetória acadêmica, Salgado desenvolveu a capacidade de compreender a sociedade, de analisar sinteticamente determinado contexto histórico, além de ter uma ótima noção geopolítica, antropológica e sociológica daquilo que se propõe a fotografar.
O modo como utiliza o preto e branco, a técnica da contraluz e compõe suas imagens fizeram de Salgado alvo de críticas severas, sendo muitas vezes mal interpretado e acusado de estetizar a miséria alheia. No entanto, o refinamento estético das fotografias do brasileiro é uma maneira de fazer emergir no plano social algumas problemáticas que merecem ser discutidas e solucionadas. Em entrevista à jornalista Kênya Zanatta, da Revista Bravo, edição do mês de abril de 2013, Salgado compara: “σinguém criticou Goya por ele ter produzido gravuras belas e perfeitas sobre os desastres da guerra”.
Salgado também considera fundamental a interação com o ambiente que fotografa. Suas viagens duram entre uma semana até, muitas vezes, meses de convívio. Ao portal G1 ele expõe:
Jamais cheguei a uma comunidade e ataquei a fotografia. Eu tive que me explicar. Tive que viver, que passar o tempo com as pessoas para poder compreender o que estava se passando e para as pessoas me compreenderem também e me darem de retorno a fotografia. Na verdade, eu fiz muito pouco na fotografia, eu as recebi de presente.28
Em entrevista ao programa Roda Viva, em 16 de setembro de 2013, o fotógrafo explica que, enquanto fotografa, tem o hábito de cantar. Segundo ele, a música o ajuda a se concentrar durante os clicks. Esse hábito começou quando ele produzia fotografia analógica e
era preciso trocar de filme. A troca do filme tomava o pouco do seu tempo e quebrava a sequência das imagens, como também o envolvimento do fotógrafo com o fato. A música atua, portanto, como um fio condutor, permitindo o fluxo quando se fotografa pelo método analógico.
O berço da desigualdade tem, como foto de capa, uma cena no Brasil e a última foto
do livro também é do nosso país. Percebe-se uma ênfase sobre o Brasil no livro, também pela quantidade de imagens fotográficas contidas na obra. Diferentemente das obras:
Trabalhadores (1996), Terra (1997), Serra Pelada (1999), Êxodos (2000), O fim da Pólio
(2003), África (2007) e Gênesis (2013), não foram feitas exposições itinerantes pelo mundo com as fotografias de O berço da desigualdade (2005), que fora construído a partir de fotografias produzidas durante a realização de outros projetos.