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A artista Analice Uchôa expressa o lúdico de outra forma. Sua obra apresenta características diversificadas, transita por temáticas variadas, e o tema aparece trabalhado em dois universos distintos, que são: o mundo da criança, por meio das brincadeiras ou dos ambientes encantados (o circo e o parque), e as festas populares.

Analice descreve com carinho as lembranças que o circo deixou quando da sua infância em João Pessoa: “o circo eu ia muito aqui... sempre gostei de circo, eu acho que o circo foi mais uma vivência...” (UCHÔA, 2006). Segundo a artista, o circo foi um dos seus primeiros temas, ainda presente na sua obra atual. A magia ligada ao circo está profundamente registrada no imaginário infantil. Personagens como o palhaço, os animais, a bailarina, os malabaristas, o equilibrista, o trapezista e o mágico, entre outros, desfilam em um palco encantado e permeiam os sonhos das crianças durante séculos. Essas imagens continuam fomentando sonhos em todos os lugares do mundo. O circo é uma caixinha mágica de surpresas, encanta pelas alegres cores e pelo mundo do espetáculo. No Nordeste brasileiro, existem circos itinerantes que, durante muitas décadas, têm sido fonte de diversão para as famílias, de alegria, para as crianças, e fonte de renda para os artistas. Sua cenografia encantadora é rica em adereços coloridos, que vão desde a lona que cobre o palco até o brilho excessivo das roupas das bailarinas, possibilitando ao povo o contato com o espetáculo cênico, com os atores e os cenários, algo incomum para a população mais carente, devido à dificuldade de acesso ao teatro.

É por meio do circo que as classes sociais menos abastadas têm contato com a magia da arte. Os artistas circenses são pessoas comuns, que viajam com o seu sonho, encantando multidões por onde passam. As crianças são chamadas para essa fantasia pelas caravanas que,

volta e meia, rondam as ruas das pequenas cidades do interior ,convidando todos para o show: “hoje tem espetáculo? Tem sim senhor!” Analice eterniza esse sonho, o eterno sonho da criança, ela cria seu próprio circo, com tintas e pincéis.

Figura 49 – Analice Uchôa, “O Circo”, acrílica s/tela, 2003, coleção particular.

Pode-se observar, na figura 49, que os personagens circences são expressos por Analice por meio de pequenas figuras coloridas, cada grupo com uma função específica no espetáculo, trazendo brilho e alegria para o observador. Um circo é expresso por meio de grandes áreas de cores justapostas. Podemos perceber que a questão figura e fundo é trabalhada por meio do forte contraste de cores, em que uma área destaca-se da outra. A imagem, desse quadro, não apresenta contornos ou detalhes, Analice desenha com as tintas, criando figuras coloridas que descrevem a cena.

Outro cenário encantado que faz parte do imaginário infantil de Analice Uchoa é o parque de diversões, local criado para permitir o lazer, o encantamento, emoções fortes, convívio com os pares. Na figura 51, o parque pintado pela artista mantém o tellus43 de um mundo encantado direcionado para a criança. Enquanto temática, percemos o carrossel, a roda gigante e a montanha russa, brinquedos presentes nos parques de diversão que são montados

43 Tellus: tierra. (Tellus. In: Latin Spanisch On Line Dictionary. Disponível em:

http://dictionaries.travlang.com/LatinSpanish/dict.cgi?query=tellus&max=50. Acesso em: 20 de abril de 2007). Relativo também a Telúrico: relativo a terra; relativo ao solo, relativo ao telúrio. (BUENO, 2000, p. 748).

no interior do Nordeste brasileiro, durante as festas religiosas dos santos padroeiros das cidades e vilas, como parte profana das comemorações sacras. Percebe-se que o tratamento técnico aplicado à composição mescla uma grande área de cor plana, com minúsculas figuras que se amontoam nas bordas da imagem, formando uma estrutura assimétrica. O brincar no parque de diversão foi uma das experiências vividas pela artista em sua infância. O parque, ainda hoje, está presente durante a festa de Nossa Senhora da Neves, padroeira da cidade de João Pessoa. Essas experiências ficaram gravadas em sua memória e afloram como imagens para compor as suas telas.

Figura 50- Analice Uchôa. O carrossel, acrílica s/tela, 2003, coleção particular.

Em seus trabalhos de pequenas dimensões, Analice revela-se uma criadora de mundos. As imagens de casinhas coloridas, que lembram o artesanato na casca do cajá, comum no Estado de Pernambuco e que representa popularmente os casarios de Olinda, serviram de inspiração para os seus primeiros trabalhos, como ela expressa em sua fala:

[...] Um dia eu ganhei um conjunto feito naquelas cascas de cajá e fiquei encantada (... ) acho que eu posso fazer isso (... ) eu morava nessa época lá no Poço e tinha uma casa lá (...) com um pé de cajá, tirei uma casca daquelas e comecei a fazer as minhas esculturazinhas, casinhas, igrejinhas, arvorezinhas (...) eu queria pintar, porque, a que eu ganhei era pintadinha, então comprei umas tintas para madeira e comecei a pintar [...]. (UCHÔA, 2006)

O apego de Analice às imagens pequenas, às figuras liliputianas, tem provavelmente relação com sua formação inicial como artesã, confeccionando caixas revestidas com cortiça e, depois produzindo bijuterias. Esse trabalho minucioso, aprendido durante anos em São

Paulo, garantiu o cuidado com que Analice trata suas imagens pintadas. As cores planas garantem campos de cor suficientes para destacar as pequeninas figuras humanas, que são concebidas sem detalhes, sem traços fisionômicos, da forma mais econômica possível. Suas figuras lembram o desenho infantil ou o bordado figurativo de algumas regiões nordestinas.

Na figura 52, percebemos a representação do mundo da criança elaborado pela artista pela pintura dos jogos coletivos e brincadeiras de rua comuns nas pequenas cidades ou nos grupos de crianças através das brincadeiras tradicionais, como a amarelinha, o garrafão, o dono da rua, as brincadeiras de roda, a pelada, o pula-corda, o peão, a bola de gude, a pip,. Jogos coletivos ainda comuns em vários bairros de João Pessoa, vivenciados pela artista em sua infância, e hoje referências para a criação de sua obra. Para reforçar o movimento das figuras, a artista pinta-as de forma inclinada, todas as cenas se desenrolam em um cenário único, definido pelo lilás, cor de fundo da composição.

A pintura naїf presta-se bem ao registro dessas memórias da artista, que revive suas experiências por meio da criação de imagens, representando figuras humanas, em situações lúdicas associadas às brincadeiras infantis. Reviver o passado idealizado é uma das características da obra de Analice Uchôa, que recria, com seus pincéis, um universo de cores e formas que alude ao respeito à infância, à cultura local e à necessidade humana universal da brincadeira.

As festas populares também estão presentes na obra de Analice Uchôa: são um retrato de sua vivência lúdica. O carnaval, os folguedos e o bumba-meu-boi são temas recorrentes no conjunto do seu trabalho (Ver figuras 52-53). Percebemos a mesma técnica limpa e econômica de representação utilizada em outras composições. Os cenários e figuras festivas são apresentados em ambientes de cores planas, destacando as alegorias principais que identificam aquele espetáculo, como o Galo da Madrugada do carnaval de Recife, em Pernambuco, ou o boi e o cavalo-marinho, personagens que são representados em conjunto com os brincantes, que dançam, pulam e se amontoam nos cantos do quadro. Suas composições sobre os eventos populares podem ser consideradas registros; suas imagens são anotações de viajante que, alheio à multidão, grava em sua memória seletiva as cenas que serão recriadas na tela.

Figura 52 – Analice Uchôa, Galo da Madrugada, acrílica s/tela, 2002, coleção particular.

Benzer Belgeler