Após a decisão do casal ou da pessoa individualmente pela adoção de uma criança ou adolescente, há uma série de providências a serem tomadas. A primeira é inscrever-se no cadastro de adotantes. O artigo 50 do ECA48 dispõe sobre as normas atinentes ao cadastro de adotantes e adotandos.
Após os candidatos a adotantes manifestarem sua vontade de serem inscritos no cadastro de adotantes, inicia-se o procedimento de habilitação, o qual é de jurisdição voluntária (DIAS, 2013, p. 521).
Durante o procedimento de habilitação, os postulantes passam por um período de preparação psicossocial e jurídica nos termos do art. 50, §3º49, do ECA (CARVALHO, 2010, p. 19), mediante frequência mandatória a programas de “preparação psicológica, orientação e estímulo à adoção interracial, de crianças maiores ou de adolescentes, com necessidades específicas de saúde ou com deficiências e de grupos de irmãos (ECA 197-C § 1º)” (DIAS, 2013, p. 521).
48 ECA “Art. 50. A autoridade judiciária manterá, em cada comarca ou foro regional, um registro de
crianças e adolescentes em condições de serem adotados e outro de pessoas interessadas na adoção. § 1º O deferimento da inscrição dar-se-á após prévia consulta aos órgãos técnicos do juizado, ouvido o Ministério Público.
§ 2º Não será deferida a inscrição se o interessado não satisfazer os requisitos legais, ou verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 29.
§ 3o A inscrição de postulantes à adoção será precedida de um período de preparação psicossocial e jurídica, orientado pela equipe técnica da Justiça da Infância e da Juventude, preferencialmente com apoio dos técnicos responsáveis pela execução da política municipal de garantia do direito à convivência familiar.
§ 4o Sempre que possível e recomendável, a preparação referida no § 3o deste artigo incluirá o contato com crianças e adolescentes em acolhimento familiar ou institucional em condições de serem adotados, a ser realizado sob a orientação, supervisão e avaliação da equipe técnica da Justiça da Infância e da Juventude, com apoio dos técnicos responsáveis pelo programa de acolhimento e pela execução da política municipal de garantia do direito à convivência familiar” (BRASIL, 1990a).
49 ECA “Art. 50. A autoridade judiciária manterá, em cada comarca ou foro regional, um registro de
crianças e adolescentes em condições de serem adotados e outro de pessoas interessadas na adoção. [...].
§ 3o A inscrição de postulantes à adoção será precedida de um período de preparação psicossocial e jurídica, orientado pela equipe técnica da Justiça da Infância e da Juventude, preferencialmente com apoio dos técnicos responsáveis pela execução da política municipal de garantia do direito à convivência familiar (BRASIL, 1990a).
49 Nesse período de preparação dos postulantes, é importante desmistificar a adoção e não incentivá-la sem a plena convicção de que os pretendentes estão aptos e bem orientados a respeito de todos os seus desafios (SILVA FILHO, 2009, p. 153). A inscrição dos postulantes não é deferida caso estes não preencham os requisitos legais ou caso revelem, por qualquer modo, incompatibilidade com a natureza da medida ou não ofereçam ambiente familiar adequado.50
O que as equipes interprofissionais devem investigar é se os postulantes têm as condições “necessárias a dar ao adotando um lar estável onde possa ser acolhido e amado” (BORDALLO in MACIEL, 2013, p. 308).
Sobre o procedimento de habilitação, CARVALHO explica:
A equipe interprofissional deverá elaborar estudo psicossocial para ser juntado ao pedido de habilitação e, certificada a conclusão da participação no programa preparatório, a autoridade judiciária, após ouvir o Ministério Público, decidirá, podendo, antes, se for necessário, deferir diligências e audiência de instrução e julgamento (CARVALHO, 2010, p. 21).
Há, ainda, no tocante à habilitação uma exigência “particularmente perversa” (DIAS, 2013, p. 521), disposta no §4º do art. 50 do ECA, que inclui como parte do processo de habilitação sempre que possível e recomendável, contato com crianças e adolescentes em acolhimento familiar ou institucional em condições de serem adotados.
Há quem diga que esse contato com as crianças em condições de serem adotadas estimularia a reciprocidade e o afeto e prepararia os interessados para o exercício da paternidade ou maternidade responsável (CARVALHO, 2010, p. 20-21).
Esse dispositivo legal é absolutamente cruel, pois coloca as crianças e os adolescentes disponíveis para visitação como se fossem parte de uma espécie de exposição. “Além de expô-los à visitação, pode gerar neles e em quem quer adotar falsas expectativas. Afinal, a visita é tão só para candidatar-se à adoção” (DIAS, 2013, p. 521).
Habilitada, a pessoa é inscrita no cadastro, que tem uma ordem sequencial, e aguarda o surgimento de uma criança ou adolescente que se enquadre nas suas opções de idade e sexo. É entregue à pessoa habilitada um certificado que constata estar ela habilitada a adotar (MACIEL in MACIEL, 2013, p. 292). A convocação dos postulantes obedece a
50 ECA “Art. 29. Não se deferirá colocação em família substituta a pessoa que revele, por qualquer modo,
incompatibilidade com a natureza da medida ou não ofereça ambiente familiar adequado” (BRASIL, 1990a).
50 uma ordem cronológica de habilitação e à disponibilidade de crianças ou adolescentes adotáveis. 5152
Essa disponibilidade de crianças e adolescentes a serem adotados depende de outro cadastro: o Cadastro dos Adotandos.
Não é necessário, para a inclusão da criança ou do adolescente no cadastro que eles já não estejam sujeitos ao poder familiar por parte de seus pais ou responsáveis, mas apenas que haja um estudo do caso com parecer de algum programa de acolhimento ou, até mesmo, da equipe interprofissional do juízo que indique a adoção como a melhor medida para os interesses da criança e do adolescente (MACIEL in MACIEL, 2013, p. 291).
Por tratar de uma medida excepcional, a adoção é precedida de preparação gradativa, podendo ocorrer apenas após serem esgotadas as possibilidades de reintegração da criança e do adolescente na família natural ou extensa (CARVALHO, 2010, p. 18). Eventualmente, isso acaba por obstaculizar o procedimento da adoção, que se torna demorado, levando essas crianças e adolescentes a uma idade na qual a adoção é menos provável.
Mesmo havendo todo esse cuidado com a preparação e o acompanhamento de adotantes e adotandos53, há casos de insucesso, em que os adotantes resolvem interromper o processo e devolver o adotando, os quais serão abordados no tópico 3.7.
A lei condiciona a adoção ao prévio cadastro dos candidatos, mas admite exceções54 nos casos de adoção unilateral, formulada por parente com o qual a criança ou adolescente
51
ECA “Art. 197-E. Deferida a habilitação, o postulante será inscrito nos cadastros referidos no art. 50 desta Lei, sendo a sua convocação para a adoção feita de acordo com ordem cronológica de habilitação e conforme a disponibilidade de crianças ou adolescentes adotáveis” (BRASIL, 1990a).
52 Há quem discorde do modo como os cadastros funcionam. Estabelecido o vínculo afetivo com a
criança, seria perverso negar o pedido e entregá-la ao primeiro inscrito. Tal postura desatenderia aos interesses prioritários de quem goza da especial proteção constitucional (DIAS, 2013, p. 519).
53 ECA “Art. 28. A colocação em família substituta far-se-á mediante guarda, tutela ou adoção,
independentemente da situação jurídica da criança ou adolescente, nos termos desta Lei.
§ 5o A colocação da criança ou adolescente em família substituta será precedida de sua preparação gradativa e acompanhamento posterior, realizados pela equipe interprofissional a serviço da Justiça da Infância e da Juventude, preferencialmente com o apoio dos técnicos responsáveis pela execução da política municipal de garantia do direito à convivência familiar” (BRASIL, 1990a).
54 ECA “Art. 50. A autoridade judiciária manterá, em cada comarca ou foro regional, um registro de
crianças e adolescentes em condições de serem adotados e outro de pessoas interessadas na adoção. [...]
51 mantenha vínculos afetivos ou se o pedido é formulado por quem detém a tutela ou guarda legal de criança maior de 3 (três) anos ou adolescente, desde que o lapso de tempo de convivência comprove a fixação de laços de afinidade e afetividade e não seja constatada a ocorrência de má-fé. É importante, também, como em qualquer outra adoção, que se comprove que a adoção é a solução que melhor atenda ao interesse do adotando. Em quaisquer dessas hipóteses, o adotante deverá comprovar, no curso do procedimento, que preenche os requisitos necessários à adoção (SILVA FILHO, 2009, p. 187).