Ao final de todo o percurso feito nesta pesquisa, reservo poucas páginas para registrar o que considerei como ganhos no caminho feito. Em primeiro lugar, a oportunidade que tive de tomar contato com um extenso acervo documental do Cefet por onde foi possível perceber os rumos nem sempre previsíveis de uma instituição de importância indiscutível no campo da educação no Brasil. Foi particularmente significativo o aprendizado com as fontes documentais, com a observação sistemática e com as conversas desenvolvidas de forma mais ou menos sistemática com a equipe de profissionais envolvidos com o Cefet. E, de forma singular, a riqueza da experiência de entrevistas feitas com egressos das décadas de 1960 e 1980. Aprendi muito sobre esta instituição, e pude perceber como a aproximação ao objeto de pesquisa traz faces não previstas no início matizando nossa percepção sobre algo que nos interessa.
No que tange a esta pesquisa em história da educação é importante frisar que já há, desde 1997, iniciativas legais que estimulam estudos com egressos de instituições de educação. Com o Decreto 2.208 de 1997, emitido pelo Ministério da Educação vemos que tem sido considerado emergente a necessidade de ajustar a educação profissional às necessidades do mundo. Ainda nos parâmetros legais existentes, encontramos na portaria n.º 646/97 complemento ao referido Decreto que ressalta, no artigo 9, parágrafo único que “Os mecanismos permanentes deverão incluir sistema de acompanhamento de egressos e de estudos de demanda de profissionais” (Brasil, 1997a).
Duas décadas se desdobraram nesta pesquisa, a saber, os anos de 1960 e 1980. Nossas entrevistas nos permitiram tratar dois grupos de alunos de tempos diferentes, mas que estudaram no mesmo espaço, um espaço que passou por modificações significativas ao longo das três décadas (digo três décadas, pois encontra-se no meio de ambos os grupos um outro não estudado, o da década de 1970).
A escolha das duas décadas foi resultado de uma avaliação criteriosa e não feita de forma aleatória. A opção por depoimentos de 1960, por exemplo, se deu porque, dentre outras coisas, seria possível captar falas daqueles que participaram do momento em que a escola era essencialmente uma Escola Técnica Federal, onde crescia estruturalmente e alcançava progressivamente o patamar de escola de boa qualidade, causando com isso interesse de um grupo específico que almejava, com formação especializada, conquistar ascensão profissional.
- 149 - Já a década de 1980 foi escolhida por percebemos que com a mudança desta mesma escola para Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), se desvenda uma nova realidade que é solidificada justamente neste período. Esses são fatos que serviram de pano de fundo para o estudo e auxiliam agora no confronto destes dois períodos de tempo distintos.
A década de 1960 foi marcada por período político-econômico que exigia do jovem uma formação profissional adequada ao trabalho das multinacionais com suas linhas de montagem e seu padrão produtivo taylorista-fordista. No que concerne ao profissional técnico, a urgência era formar um profissional que mediasse a relação planejamento (efetuado pelos engenheiros) e execução (realizada pelos operários).
Na década de 1980 o perfil do alunado da escola técnica que agora é chamada de Cefet-RJ era de um jovem que encontrava uma instituição com status sedimentado, formadora de bons profissionais e, importante frisar, não abalado pela Lei 5.692/71 que tornou compulsória a formação técnica e que resultou na formação de profissionais de baixa qualidade.
A formação estudada por esta pesquisa nas duas décadas ainda é técnica, em nível médio, mas os anseios dos dois grupos são diferentes. A Escola Técnica Federal CSF da década de 1960 formava técnicos que esperavam de sua formação a possibilidade de se estabilizarem nas atividades a que se refere sua especialização técnica e através dela alcançar sucesso profissional.
A mesma instituição formou na década de 1980 jovens que, por “obediência” às necessidades deste período histórico, poderiam ou não usufruir do curso específico do qual originou seu diploma de nível médio. Para este aluno de 1980 o que realmente interessava era obter uma formação de boa qualidade que pudesse levá-lo ao mercado de trabalho, mas também (e arrisco a dizer, principalmente) que o permitisse galgar “voos mais altos” como, por exemplo, o diploma universitário.
Nas falas dos depoentes, percebemos que há dificuldades de ingresso no ensino superior para egressos da década de 1960, mas esta dificuldade se dá graças à entrada imediata no mercado de trabalho, visto que o período demandava técnicos e absorvia rapidamente os grupos que se formavam nesta instituição.
Todos os nossos depoentes de 1960 abordaram o tema “oportunidade de melhoria com a formação profissional”, concordando com o fato de a escolaridade ser um determinante para o acesso, a inserção e a permanência do indivíduo no mercado de trabalho. Essa realidade não
- 150 - é diferente na década de 1980, entretanto para estes últimos havia outro condicionante que era a formação em nível superior.
Com isso, vemos na década de 1980 a Escola Técnica Federal SCF, ansiando por ampliar seu atendimento para acompanhar a maior necessidade de formação universitária. Daí por diante, a escola atende a dois tipos de formação: a de nível médio- técnico e a de nível superior tecnológico.
Entre as duas décadas uma distinção se mostrou decisiva. Os egressos da década de 1960 deixaram transparecer em seus depoimentos da dimensão política tributária do contexto brasileiro do pós-64. As associações, os grêmios, as reuniões indicavam espaço de interlocução valorizada em seus relatos. A década de 1980 já anuncia outro contexto. A Redemocratização se cruzou com um período crítico da economia brasileira. O empenho dos egressos se dá menos pela mobilização política de grupo do que pela busca de trabalho, de especialização e certificação curricular.
O ensino superior era a porta por onde o mercado de trabalho se tornava possível e visivelmente mais vantajoso. Na disputa por seu lugar no mercado os indicava individualização dos trajetos dos egressos de 1980 pela escola. Os depoimentos nos deram acesso a esses dois distintos momentos da conjuntura brasileira.
Ao final desta caminhada, mantive a convicção de que a educação técnica e tecnológica pode concorrer para a transformação social, na medida em que seja capaz de formar no indivíduo a consciência crítica e promover o reconhecimento como ser social mergulhado e comprometido com seu tempo e espaço na sociedade. A aposta é que os gestores educacionais tenham como urgência a promoção e a valorização da Educação Profissional e Tecnológica, contribuindo assim, para minimizar as drásticas diferenças socioeconômicas brasileiras e caminhar na direção de um desenvolvimento mais humano e igualitário.
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