Publicada originalmente em 1854, a Epitome da Historia do Brasil, de José Pedro Xavier Pinheiro, compartilhou uma sinopse de fatos do país datados entre o 1500 e 1857, no formato de uma espécie de catálogo histórico baseado em uma adaptação da History of Brazil de Robert Southey para uso em aulas públicas do ensino primário. Os fatos catalogados na obra compõem um mostruário da ocupação e do estabelecimento colonial portuguesa contra a natureza, os índios e os invasores, até o seculo XVIII, e, a partir do século XIX, da trajetória rumo à autonomia e à formação do Estado.
Em "Ao Leitor", acréscimo presente na terceira edição de 1864, Xavier Pinheiro justifica sua obra por meio da seguinte linha de raciocínio: compreende que a curiosidade da juventude, se "bem encaminhada e regulada", formaria "os sabios que assignalam os seculos e as nações" e também teria o poder conduzir os descobrimentos "que sublimam a esphera da humanidade e ampliam os dominios da civilisação". Além disso, para Xavier Pinheiro, o desenvolvimento da "educação intellectual" promovia a "dilatação das luzes pelas varias classes dos povos civilisados" e, também, a "irradiação, cada vez mais intensa, da sciencia para os pontos mais distantes"; por isso, dizia, "é licito esperar que, ao cabo de poucos seculos", seria possível alcançar a "incommensuravel conquista" que é "o progresso da humanidade". Não por acaso, argumentava, a instrução pública seria uma "regra admiravel praticada pelas nações civilisadas". Nesse contexto, observava, o lugar do ensino da história deveria buscar satisfazer "um dos primeiros desejos do homem ao encetar o exercicio de sua razão" que seria "conhecer a sociedade em que vive, o paiz onde nasceu, a historia d'essa sociedade e d'esse paiz". Em sua compreensão, a história surgia resposta a tal necessidade: "então chega á descripção da terra que é seu berço, alcança a narrativa dos factos e tradições de que se compõe a sua historia, apprende quaes são os alicerces em que se estriba o poder social". Assim, afirmava Xavier Pinheiro, seria obrigação da sociedade, por meio da historia ensinada, "facilitar a acquisição d'essas ideas, conjunctamente com as outras que são indispensaveis ao homem desde os
seus primeiros passos", explicava, "para que se realisem as promessas da civilisação e sejam providas as necessidades inseparaveis de sua existencia". À importância da instrução do conhecimento da história para a civilização, para o progresso e para o desenvolvimento do Brasil, Xavier Pinheiro inclui também que é de "interesse do Estado que a mocidade conheça" os acontecimentos e as mudanças "que soffreu a sua organização social" nos séculos passados, e que, desse modo, possa compreender "como a civilisação começou a ser n'elle um facto visivel, como cresceu e se acrescentou, que lugar occupa no mappa das nações, que forças possue para considerar-se membro activo e proveitoso do genero humano".34
Na Introdução da obra, Xavier Pinheiro dá a entender que o núcleo ao redor do qual gravitam os fatos da epítome, em seus próprios termos, é o "Imperio do Brasil, cujos principaes acontecimentos vamos em summa historiar".35 Tal Introdução compôe um retrato analítico do Brasil atento ao seu pontencial de desenvolvimento e, também aos seus limites. Isto está evidente quando Xavier Pinheiro enaltece a natureza rica e exuberante do Brasil, descrevendo-o como país detendor de uma fertilidade "assombrosa" e no qual "abundam n'elle as producções mais apreciadas dos paizes intertropicaes", dotes que em sua concepção assegurariam ao Brasil um "esplendido futuro entre as nações mais poderosas".36
Entretanto, ao enumerar potencialidades para o futuro, Xavier Pinheiro também reflete sobre os problemas responsáveis por causar atrasos ao Brasil, a começar pela dificuldade de mensurar sua população com números confiáveis. A esse respeito, explicava Xavier Pinheiro que "não se tem conseguido até o presente formar a estadistica do Imperio, por isso a sua população so aproximadamente se pode calcular", fazendo com que o governo não saiba qual deve ser a medida de suas ações administrativas para surtir efeito: "orçam-a alguns em dez milhões de habitantes, o que parece de mais, outros em seis, o que se julga pouco, outros em oito, o que é mais razoavel".37 Adicionalmente, ao
34 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Epitome da Historia do Brasil. [1a. ed. 1854]. 3a. ed. Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert, 1864, p. 5-11.
35 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 25. 36 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 27. 37 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 33-34.
analisar o Brasil de meados do século XIX, Xavier Pinheiro admitia que ainda eram muito recentes "o desenvolvimento de diversas industrias" e "os melhoramentos materiaes", como "estradas, a canalisação de rios, as pontes", e que, como agravante geral, "muitas causas tem influido para o atrazo em que até então jazia o Brasil", como seria o caso do "estado de agitação a que conduziram largos annos de discordia civil".38 Porém, apesar de atento a barreiras e entraves, Xavier Pinheiro olhava com otimismo para o presente e projetava no futuro a realização do desenvolvimento do Brasil:
De 1848 a esta data as cousas apresentam differente aspecto e esperançam progressos rapidos, á vista das grandes vantagens alcançadas em curto espaço. Não está remoto o dia em que varias estradas de ferro sulquem o interior do nosso territorio, e se generalise nos principaes rios do Imperio a navegação a vapor, que em todas as provincias, particularmente na da Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco, já dilata seus beneficios.39
A perspectiva de progresso sustentada por Xavier Pinheiro se valia da possibilidade do fim do trabalho escravo, que então lhe parecia iminente graças à Lei Eusébio de Queirós. Seu argumento é que devido à "cessação do deshumano trafego de Africanos", a agricultura do Brasil inicialmente "se antoalhava moribunda aos que so de braços escravos confiam o trabalho", mas que a lavoura finalmente via "raiar o dia de sua prosperidade".40 Xavier Pinheiro via na formalização da extinção do comércio transatlântico de escravos a chance de a agricultura se despedir da "usança de seculos" e do "lidar sem intelligencia dos escravos", entraves que deveriam dar lugar a "novos methodos, novos instrumentos, novas machinas, novos operarios" os quais trariam ao Brasil "o accrescentamento esperado".41 A expectativa de Xavier Pinheiro com o progressivo fim da mão-de-obra escrava era que houvesse um deslanche técnico da agricultura sustentado pela mão-de-obra de imigrantes, que viessem ao Brasil voluntariamente como mão-de-obra assalariada:
A colonisação, que deparava no commercio de carne humana um dos maiores obstaculos, e outro no descredito em que havia na Europa
38 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 34. 39 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 34. 40 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 34-35. 41 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 35.
cahido a nossa administração interna, promette encaminhar para este formoso paiz numerosas legiões de immigrantes.42
A preocupação com o progresso e a civilização do Brasil observados até aqui consta claramente também entre os fatos que cronologicamente compõem a epítome de Xavier Pinheiro. Isto é evidente ao tratar dos primeiros "Governadores Geraes" entre 1500 e 1578, quando avalia que houve um "augmento da colonia" graças a expedições que trouxeram "socorros á colonia" e órfãos de Portugal para o Brasil: "assim foi rapidamente prosperando a colonia".43 Isto é evidente também quando Xavier Pinheiro se pergunta sobre os "incalculaveis resultados para o futuro do Brasil" caso tivesse sido aceita uma proposta do rei espanhol Filipe II, entre 1578 e 1580 - em tentativa para suceder ao trono de Portugal, quando "offereceu ao cardeal-rei D. Henrique, como compensação á casa de Bragança, em absoluta soberania, todas as colonias que possuia aquelle reino"; como a proposta não fora aceita, a questão era a seguinte: "o assenso do cardeal-rei quantas consequencias relevantes á civilisação não teria produzido?".44 Isto está evidente ainda ao observar que, entre 1578 e 1624, "apresentava ja a Bahia muitos elementos de prosperidades".45 Ou, pelo contrário, ao observar que entre 1654 e 1699 houve atraso no desenvolvimento no Maranhão e no Pará, que "apresentavam face menos avantajada que nas mais capitanias" e cujo "estado até certo ponto inspirava serios cuidados", porque, conforme diagnosticava Xavier Pinheiro, "nascia o mal em parte da indole da população, em parte das pessoas a quem era commettida a governança".46 Além disso, a menção à civilização é patente na preocupação com a reputação do Brasil na crítica de Xavier Pinheiro ao "espirito demagogico" dos revoltados de Pernambuco na Confederação do Equador, de 1824, em que dizia: "ja as paixões politicas eivavam os espiritos e apparelhavam essa tremenda serie de males que por espaço de tantos annos lastimaram o Brasil e o abateram no conceito das nações civilisadas".47
42 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 35. 43 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 64. 44 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p.87-88. 45 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 89. 46 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 195-196. 47 PINHEIRO, José Pedro Xavier. Op. cit., 1864, p. 326.
Igualmente, é patente também na menção da "data digna de especial" de 30 de Abril de 1854, dia em que no Brasil se inaugurou a primeira estrada de ferro: "a iniciativa e execução dessa importante empreza", explicava Xavier Pinheiro, era uma realização do "distincto Rio-Grandense Irenêo Evangelista de Souza, a quem por essa occasião se fez mercê do titulo de barão de Mauá, nome que recorda muitos e relevantes serviços á civilisação e accrescentamento industrial do Brasil".48
Observa-se, assim, que o Epítome de Xavier Pinheiro fundamentou-se em uma concepção predominantemente narrativa da história do Brasil cuja seleção de fatos largamente utilizou como critério a ideia de civilização. Observa-se, também, que a obra pintou um retrato analítico do Brasil, considerando os potenciais e entraves para a civilização do país, mensurando quais fatos e acontecimentos teriam representado um avanço civilizatório e quais, por outro lado, teriam sido um retrocesso - nestes casos, a responsabilidade frequentemente foi atribuída à indolência da população brasileira.
3.5 O trânsito entre a narrativa e a análise do Brasil, em Perdigão