Chegamos finalmente ao elemento final de nosso estudo. Devido a sua importância, consideramos oportuno darmos uma atenção maior nos esclarecimentos sobre as questões apresentadas e como elas se articulam para fornecer os elementos que buscamos elucidar em nossa pesquisa. O primeiro aspecto que consideramos necessário aprofundar refere-se às perguntas que formulamos para este tema.
Diferentemente das perguntas anteriores que, em quase sua totalidade (houve algumas vezes que tivemos que nos alongar no assunto dadas as afirmações apresentadas pelos professores) foram pontuais e unitárias, neste item inicialmente acabamos por formular duas perguntas que, em tese, buscariam verificar o discurso e a prática do professor em relação à autonomia do aluno.
A primeira pergunta buscou verificar como o professor considera a autonomia do aluno, se ela seria importante, enfim, buscou iniciar um diálogo com o professor a respeito do nosso tema, intentando captar a opinião do docente de forma geral. Sabemos que ao fazer tal pergunta, correríamos o risco de que o professor falasse a respeito dele de forma
ideal, ou seja, que ele manifestasse uma opinião que refletisse mais o que é dito em publicações, discursos oficiais, etc e deixasse de lado a sua real opinião a respeito.
Logo a seguir, acabamos por fazer uma pergunta que, a princípio, poderia parecer contraditória em relação ao que afirmamos até agora em relação a autonomia, esta se caracterizou por solicitar ao professor um exemplo positivo e outro negativo do exercício da autonomia. Se a autonomia é positiva segundo os referenciais que apresentamos, porque então acabaríamos por pressionar o professor para que ele pensasse a possibilidade de que a autonomia viesse a ser algo negativo?.
Os motivos que nos levaram a formular esta pergunta se deram em razão de que, no contato diário que realizamos no ambiente profissional docente, acabamos por perceber em certos discursos e práticas, a possível associação da autonomia com um desgoverno, ou seja, a possível compreensão da autonomia como sendo um total descontrole do aluno em relação a regras, atitudes e exigências que são exercitadas na escola e, em razão disso intentamos verificar de fato se esta possibilidade se apresentaria.
Outra razão que encontramos para esta pergunta foi a necessidade de se atestar se o discurso que o professor possui em relação a autonomia do aluno, caso fosse positivo, se manteria em uma pergunta onde se aventa a possibilidade de que a autonomia pudesse ser exercitada negativamente, ou seja, discordaria da afirmativa presente nessa questão. Todos estes elementos em síntese teriam a função de verificar possíveis contradições no discurso e proporcionar mais elementos para nossa análise.
Após a realização destas entrevistas, ao apresentarmos nossas conclusões preliminares e considerações junto à banca examinadora, acabamos por perceber, a partir de uma série de considerações críticas apresentadas pela banca, que o teor da segunda pergunta (exemplos positivos e negativos) acabaria por induzir o entrevistado a realizar considerações que não necessariamente representariam suas concepções em relação ao tema proposto.
Diante dessas ponderações, que consideramos justas e necessárias, pusemo-nos a pensar a possibilidade de reformular a pergunta apresentada e reapresentá-la novamente aos entrevistados. Optamos por tal decisão em razão de que o acesso facilitado que possuíamos junto a estes professores nos permitiria realizar uma segunda rodada de entrevistas e, por outro lado, dirimir os equívocos advindos da pergunta tal como havia sido feita.
A pergunta reformulada se caracterizou por questionar se os professores consideravam que existisse algum inconveniente para o exercício da autonomia do aluno dentro do espaço escolar. Consideramos que esta nova redação poderia vir a impedir qualquer indução da resposta do pesquisado posto que não apresentasse a priori a existência de uma faceta positiva ou negativa do exercício da autonomia do aluno. Segue abaixo a tabela com as respectivas opções dos professores:
Posição dos professores em relação a autonomia do aluno
Favorável Um professor
Desfavorável ou com Inconvenientes Nove professores
Como se pode perceber a partir da tabela acima constatamos que nove entrevistados apresentaram inconvenientes para o exercício da autonomia do aluno e somente um destes defendeu o seu exercício incondicional e que se manifestou na seguinte argumentação:
Não. De jeito nenhum é o espaço da liberdade, dele poder se expressar também de uma maneira que ele possa... se expor, sem atrapalhar, ou seja, colaborando com o próprio ensinamento, com a aprendizagem e o ensino e a aprendizagem que ele tem dentro da... da sala de aula, da instituição que ele estuda né (...) a gente não pode barrar o despertar de interesses do aluno, isso você estaria podando a... a atividade de desenvolver a criticidade, a maneira dele se expor diante dos problemas, diante das situações apresentadas pelo próprio professor também e os colegas que trabalham com ele. (Participante 9).
Como se verifica, há nesta argumentação a defesa inconteste da autonomia do aluno e a visão de que, se exercida, favoreceria o desenvolvimento do educando.
Já as demais, embora manifestem condições para o exercício da autonomia, a forma como justificam estas condições são distintas, isto porque, para sete professores esta presente a percepção de que a autonomia levada inteiramente a cabo acabaria por implantar o reino da liberdade irrestrita e sem responsabilidade e outros dois professores fizeram uma distinção muito próxima das bases que norteiam nossa concepção de autonomia. Quanto ao primeiro tipo de argumentação consideramos emblemática a resposta à seguir:
Na minha opinião o aluno deve ter autonomia mais é... sempre coordenado pela gestão da escola, porque muitas vezes você encontra dois tipos de alunos na escola, o aluno que tem mais idéia mais cabeça mais responsabilidade e mais tem
também alunos que não tem tanta responsabilidade que, que leva a coisa mais pro lado da brincadeira então, eu acredito que pra muitos não, não teria problema nenhum, o aluno ter autonomia, mas para alguns é, a autonomia serviria pra, pra é...pra levar pro lado da brincadeira, pra bagunça então, poderia, deve-se dar autonomia mais sempre com a gestão dos professores um pouco por trás vendo o que é que...vendo pra onde esta se levando essa autonomia. (Participante 04)
Consideramos emblemática esta resposta, pois nela esta manifesta a idéia de que a autonomia, se não for devidamente “coordenada pela gestão” acabaria por fazer com que o aluno deixasse os seus afazeres de lado e se pusesse a adotar atitudes indisciplinares e pouco voltadas para o estudo. Nesta argumentação esta presente a idéia de uma autonomia que levaria ao descontrole e excesso de liberdade.
Por outro lado, a outra faceta de inconvenientes para o exercício da autonomia pode ser constatada na seguinte afirmação:
Ah...olha é...a autonomia do aluno é fundamental, ter dentro de uma certa regra, porque toda autonomia tem que ter regra, a autonomia não pode ser caracterizada por uma liberdade total eu faço o que eu quero eu sou o bom eu...eu acho que não eu acho que em uma sala de aula o aluno tem que ter autonomia pra ele discutir qualquer assunto com o professor, não só na sua matéria eu acho importantíssimo a autonomia do aluno como é a do professor e...o que ta faltando hoje nas escolas na maioria das vezes, com algumas exceções que nós temos por aí, o aluno hoje ele não tem autonomia, ele ta trocando a autonomia pela liberdade exagerada das coisas então ele acha que a autonomia é ele não fazer as tarefas propostas pelo professor e ta gerando assim, falta de conhecimento pro próprio aluno então é um dos problemas hoje principalmente da escola pública. (Participante 06)
Nesta argumentação, embora o entrevistado apresente inconvenientes ao exercício da autonomia, estes inconvenientes se caracterizariam mais pelo exercício de uma conduta que não se vincula a autonomia e que se manifestaria em uma ausência de regras do próprio indivíduo, ou seja, percebe-se que o entrevistado não realiza uma relação dicotômica entre a autonomia e a presença de regras.
A partir destes elementos consideramos que uma grande parte dos entrevistados considera que existam aspectos negativos no exercício da autonomia e o seu pleno exercício poderia trazer inconvenientes para o exercício educativo. Por outro lado, verificamos também que, ainda que seja em menor número, alguns professores conseguiram distinguir a autonomia da total ausência de regras.