Fragmento 47
Porque eu, depois que eu saí do sindicato, eu tinha vontade de estudar, tal, fui pra Palmas, daí me envolvi no MAB [...] me envolvi no movimento dos atingidos por barragem [...] Então não é que eu saí do sindicato, foi uma sequência, por exemplo, o sindicato era em Nova Olinda, e que queria estudar. Eu queria fazer faculdade, Nova Olinda era muito difícil e aqui em Araguaína também não era fácil naquele tempo, era naquele período da Unitins, aquelas greves. Aí eu falei: eu quero fazer faculdade, aí eu fui pra Palmas, isso, eu inclusive eu fiquei sendo militante da Federação que é da Agricultura Familiar e trabalhando na APATO, trabalhando mais como secretaria, e atuando como funcionária da federação, como o público é o mesmo, a gente fazia um trabalho de militância em todas as áreas. E depois conheci o MAB que veio com essa proposta de estudar, e aí foi uma coisa conversada entre a APATO, como eu tinha tido esse interesse, seria bom investir, inclusive a APATO foi quem pagou as primeiras passagens pra ir [...] (VALQUÍRIA, 2013).
As escolhas de Valquíria começaram cedo e, ao decidir que queria estudar, não seguiu o caminho da maioria, que seria ir para Araguaína e cursar nas Faculdades que haviam disponíveis à época, a saber: uma estadual e uma particular. Ela foi para Palmas, capital do Estado, trabalhar em uma ONG que incentiva a economia solidária, ser militante da Federação da Agricultura Familiar e, ainda, se envolveu com o Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB -, que, assim como os trabalhadores rurais, sofriam com a retirada indiscriminada de suas terras. Seu empenho lhe rendeu o investimento dessas organizações que, não somente financiaram suas idas ao Rio Grande do Sul, para estudar na Universidade Estadual, como também a auxiliaram no período da graduação.
Fragmento 48
[...] já conhecia a mesma, a gente já acompanhava, inclusive quando eu trabalhava no sindicato a gente sempre defendia muito que os assentamentos fossem, tivessem a assistência da COOPTER, porque tem uma prestação de serviço diferenciada. Diferenciada que leva mais em conta não só essa questão de querer fazer projetos, financiamentos, mais trabalhar a questão da família, a questão da produção ligada numa lógica mais agroecologia, e essa é a proposta da COOPTER, de ter uma assistência técnica diferenciada onde as pessoas também possa ser autônoma de suas terras, não essa coisa do pacote que a gente chama de pacote verde, da gente jogar lá para os agricultores, mas discutir a produção ligada às questões sociais, às questões da família (VALQUÍRIA, 2013).
Valquíria acompanhou e conhecia os membros da COOPTER, cooperativa da qual faz parte e, neste sentido, entende que sua entrada se deu por acreditar que a cooperativa atende seus anseios de trabalhar com movimentos sociais e de valorizar mais a família do que o pacote de técnicas imposto pelos governos. Assim, suas escolhas se pautam pelas suas vivências. Participar do Sindicato Rural, da ONG, do MAB e da COOPTER fazem parte de uma sequência de escolhas fiéis aos seus princípios. Atualmente Valquíria é funcionária da CPT e atua com o movimento dos trabalhadores rurais. Dorival, por sua vez, tem 48 anos, é formado em Letras e em Direito e trabalha em uma ONG que incentiva os trabalhos de economia solidária no Tocantins, atuando principalmente na região do Bico do Papagaio. Dorival tem um discurso articulado e, assim como Antonio e Valquíria, traz uma clara opção por trabalhar com pessoas de forma coletiva e cooperativa. Em seu caso, não aparece na entrevista uma referência à família ou á criação como precursora de seus interesses, contudo, em determinado momento - fragmento 49 -, fala da dificuldade de os outros entenderem suas opções de trabalho, porém reitera que compreende, pois, para ser o que é, levou a vida inteira, demonstrando que suas vivências solidárias vêm desde cedo.
Fragmento 49
O emprego, se for olhar pelo ponto de vista econômico, não compensava pra mim, não compensa assim da ótica capitalista, eu tenho uma profissão que eu posso abrir um escritório aqui em Araguaína e ganhar dinheiro mais do que eu ganho. Mas assim, o que me fez continuar é porque eu acredito muito na formação das pessoas, é por isso que eu também nessa atuação na sala de aula, até meus alunos me questionam: ah, professor, quando eles descobrem que eu tenho um curso de direito, mais o que você está fazendo aqui? Aí eu falo assim: eu gosto de ficar com vocês, gosto de conversar com vocês, gosto de trocar ideias com vocês, e espero que vocês saiam daqui com uma outra mentalidade, uma mentalidade um pouco diferente do que vocês chegaram
aqui, e é com essa fé, com essa crença, que eu continuo até hoje, de poder atuar com pessoas, com grupos (DORIVAL, 2013).
Jorge, outro participante, é casado, não tem filhos, tem 42 anos, é formado em Administração de Empresas e trabalha com assessoria empresarial. Já foi funcionário público e compunha o quadro efetivo de um Instituto Federal do Tocantins, mas se decidiu pela exoneração por acreditar que o trabalho não se adequava a seus anseios e o limitava em termos de trabalho. É voluntário na COOPERAM, mas se sente como se fosse um cooperado, apesar de não ter acesso a nenhum benefício financeiro.
Fragmento 50
eu não conhecia o grupo da COOPERAM, passando aí em frente à rua eu achei aquilo interessante, eu não identificava como cooperativa, eu identificava como extensão do aterro sanitário de Palmas. E eu tive curiosidade de entrar e perguntar o que era e quando as pessoas falaram que era uma cooperativa de catadores que vinha já executando há um bom tempo o projeto, eu me interessei logo de cara, aí imaginei no outro dia: como que eu posso entrar e executar com eles o projeto? A única forma que eu vi foi voluntariado. Então eu me aproximei, comecei criar perspectivas de novas ideias. A principio, o grupo ele é um pouco fechado com relação às questões de aproximação da sociedade, é difícil você vir, estar dentro, se relacionar e entender, você tem que viver, então hoje eu vivo como se fosse um cooperado, tá. Eu me relaciono com eles da mesma forma como eles relacionava desde quando iniciou o projeto (JORGE, 2014).
Fragmento 51
Então, eu comecei a dar importância pra isso, eu me sacrifico, eu me dedico pra isso, eu crio projetos, eu tento buscar recursos fora pra melhorar essa condição interna, mas, ao mesmo tempo, eu me preocupo com essa questão da gestão (JORGE, 2014).
Jorge se aproximou do grupo por curiosidade, e considera que a cooperativa precisa dele, pois é ele quem resolve todos os problemas burocráticos e de busca de recursos para o empreendimento. Acredita, ainda, que deve ter uma vida simples, e diz que tenta manter um custo de vida baixo, para não adoecer e se entregar às mazelas do capitalismo. Considera que sua vida faz sentido porque realiza trabalhos como esse, como se pode comprovar no trecho a seguir:
Fragmento 52
O sonho às vezes é tão pequeno que a nossa parcela de culpa é muito maior do que isso, então, às vezes com 10 reais você realiza um sonho. Então, dentro desse grupo e dentro da minha filosofia de vida eu procuro realizar isso, eu tenho satisfação e prazer em realizar esse trabalho. Então, vinculado ao meu trabalho externo, que esse eu não vou abandonar, eu tenho essa preocupação, então pra mim se uma pessoa chegar, poxa, por favor, me leva ali que eu não [estou] me sentindo bem. Eu vou fazer com o máximo prazer. Olha, por favor, eu preciso que faça isso aqui. Eu vou fazer. Então assim, sabe, a carência é tão grande que o sonho fica tão pequeno que você coloca na palma da tua mão e fala: poxa, é só isso que você quer? Tá aqui o seu sonho realizado. Então, dentro desse contexto e às vezes eu volto algumas vezes pra reafirmar isso, eu me sinto bem, a minha filosofia é essa, eu gosto de me sentir bem aqui. Tenho os meus relacionamentos fora, é claro, o meu grupo, o meu ciclo de amizade, enfim, mas aqui parece que a coisa ela requer um pouco mais de atenção, na hora de falar, na hora de você conduzir a situação, às vezes você tem que fazer algumas provocações pra tirar de dentro um sentimento que às vezes aquela pessoa nunca teria coragem de falar nem pro psicólogo. Continuo por sonho (JORGE, 2014).
Esta última fala Jorge mostra a sua satisfação em estar na cooperativa e ressalta o quanto é fácil realizar os sonhos e anseios dos participantes do empreendimento, pois seus sonhos são pequenos e de fácil acesso. Jorge demonstra um interesse pelo outro e coloca isso como objetivo de vida.