2. MATERIALS and METHODS
2.1 Materials
No processo histórico de formação do campesinato no Cariri cearense, a modernidade irá significar um tempo de aprofundamento das transformações culturais, econômicas e ambientais, ampliando os conflitos sociais, devido à crescente supremacia do mercado. Conforme Martín-Barbero (2003, p. 225, grifo do autor),
se é verdade que as diferentes formações nacionais tomam rumos e ritmos diversos, também se pode dizer que essa diversidade vai sofrer desde os anos 30 uma readequação fundamental e de conjunto. A possibilidade de “formar nações” no sentido moderno do termo passará pelo estabelecimento de mercados nacionais, e estes, por sua vez, serão possíveis em função de seu ajuste às necessidades e exigências do mercado internacional.
A América Latina acessará a modernidade de maneira dependente, tornando visível “não só o desenvolvimento desigual, a desigualdade em que se apóia o desenvolvimento do capitalismo, mas também a „descontinuidade simultânea‟ a partir da qual [...] vive e leva a cabo sua modernização” (MARTÍN-BARBERO, 2003 p. 225), donde se verifica a existência de “sociedades-encruzilhada, a meio caminho entre um subdesenvolvimento acelerado e uma modernização compulsiva” (MARTÍN-BARBERO, 2003, p.271).
Conforme Smith (1988, p.16), “o desenvolvimento desigual é a expressão geográfica sistemática das contradições inerentes à própria construção e estrutura do capital”, resultando na paisagem padrão que inclui desenvolvimento de um lado e subdesenvolvimento de outro. O autor defende que a teoria do desenvolvimento desigual deve integrar o processo espacial e social em vários níveis, na medida em que se dá a produção da natureza. É neste sentido que propomos alargar a discussão para o campo das mediações articuladas pela relação entre
comunicação, cultura e política, as quais contribuem para aprofundar os conflitos gerados pelo sistema capitalista.
No caso da problemática do campo, também caracterizada por relações de desigualdade entre famílias de camponeses/as que convivem com a pobreza e a submissão e latifundiários ou empresários agroindustriais que se guiam pela lógica de dominação da natureza e dos seres humanos, os graves conflitos socioambientais daí decorrentes ainda sofrem de invisibilidade. Em oposição a este modelo, os/as camponeses/as agroflorestais se inserem na luta pela construção e reconhecimento de outra alternativa de desenvolvimento a partir da qual o povo exerça sua autonomia, valorize seus saberes e suas expressões culturais genuínas e trabalhe com base numa racionalidade ambiental nova.
Segundo a assessora técnica da ACB, Maria Socorro da Silva, “tudo que é feito no sistema agroflorestal é contrário ao modelo capitalista. A assessoria trabalha também a valorização do ser humano, dos sentimentos e prima pelo princípio solidário”. Um exemplo evidente do tipo de solidariedade e racionalidade ambiental nova que move os/as camponeses/as agroflorestais pesquisados/as é dado por Jeová na forma como lida com sua produção: “quando quebro dez espigas de milho eu deixo uma pros passarinhos, em vez de eu dar à igreja eu dou pros passarinhos, é o dízimo”.
Jeová em sua agrofloresta no Alecrim, milho para os passarinhos. Fonte: arquivo da autora (2011).
A experiência destes/as camponeses/as demonstra que é crucial pensar as diferenças que a forma de desenvolvimento desigual incorpora sem considerá-las, simplesmente, sob a perspectiva do atraso, assim como pensar a modernidade sem reduzi-la à imitação, de forma a
compreender tanto o que o atraso representou em termos de diferença histórica, mas não num tempo detido, e sim relativamente a um atraso que foi historicamente produzido (crianças que morrem diariamente por desnutrição ou desidratação, milhões de analfabetos, déficit de calorias básicas na alimentação das maiorias, queda nas expectativas de vida da população, etc.), quanto o que apesar do atraso existe em termos de diferença, de heterogeneidade cultural, na multiplicidade de temporalidades do índio, do negro, do branco e do tempo decorrente de sua mestiçagem. (MARTÍN-BARBERO, 2003, p. 226, 227).
São imensas as contradições do modelo de sociedade que se quer global e que se constrói sob a perspectiva de que as diferenças devem ser suprimidas em favor de uma só temporalidade e racionalidade, ao mesmo tempo em que cria mais e novas diferenciações para assegurar seu desenvolvimento. Cria-se uma espécie de esquizofrenia social, que ao mesmo tempo em que gera as condições de diferenciação entre os povos, prega sua unificação pelo viés da globalização que se manifesta tanto no campo econômico, quanto simbólico cultural.
A acentuação deste modelo de desenvolvimento vai acontecer a partir do pós-guerra, quando o eixo da economia e da reflexão se desloca da Europa para os Estados Unidos, lugar onde os ideais da cultura de massa e da sociedade da democracia completa permitirão a fusão da força econômica e do controle da informação (MARTÍN-BARBERO, 2003). Dá-se assim o nascimento daquilo que se convencionou chamar sociedade de consumo, que relega ao passado o modelo produtivo da Revolução Industrial e promove mudanças no âmbito da cultura, para além do da política. “É todo o processo de socialização o que está se transformando pela raiz ao trocar o lugar de onde se mudam os estilos de vida. [...] Nem a família, nem a escola – velhos redutos da ideologia – são já o espaço chave da socialização” (MARTÍN-BARBERO, 2003, p. 69, 70). Neste espaço os meios de comunicação de massa passam a exercer sua hegemonia, dado que a técnica e a informação serão alçadas nessa sociedade a um lugar especial.
E. P. Thompson (1998, p. 23) acredita que a remodelagem da necessidade, a elevação do limiar das expectativas materiais e a desvalorização das satisfações culturais tradicionais, iniciadas no século XVIII, prosseguem “hoje com pressão irresistível, acelerada em toda parte pelos meios de comunicação universalmente disponíveis”. Mas entender a lógica interna que operou essa transformação exige bem mais que uma leitura polarizadora da realidade e, mais uma vez, se faz necessário contemplar a multiplicidade de sujeitos, povos e etnias que
compõem as classes populares para não lhes renegar nesse processo de transformação socioespacial o lugar do vazio, sob o discurso da homogeneização cultural.
Disso decorre a necessidade de diferenciar cultura de massa de meios de comunicação massivos, para compreendê-la a partir de “sua articulação com as readaptações da hegemonia, que desde o século XIX, fazem da cultura um espaço estratégico para a reconciliação das classes e a reabsorção das diferenças sociais” (MARTÍN-BARBERO, 2003, p.203). O espaço aberto onde se desenrola a miscelânea da cultura de massa é o lugar que vem se estabelecendo a comunicação entre os universos simbólicos popular e erudito, permitindo o cruzamento das sensibilidades que lhes caracterizam. É no terreno da cultura de massa que as artes e o pensamento ditos eruditos vão passar por um processo de ressignificação, muitas vezes visto como desqualificação pelo pensamento etnocêntrico. Na verdade, passam por releituras, semelhantes as que se deram no processo de miscigenação que veio constituir o povo brasileiro, tão igual e diferente ao mesmo tempo. Por sua capacidade de ampliar enormemente esta experiência de troca cultural, é que os meios de comunicação vão se confundir com as próprias trocas, muito embora não passem de meios para promovê-las em grande escala.
No caso específico dos meios de comunicação de massa, há um fato agravante no que se refere às possibilidades de trocas culturais: a falta de poder popular na definição de quais trocas serão privilegiadas pelos mesmos, que em geral são pautados pelos paradigmas das classes hegemônicas. É por essa razão que o discurso que se sobressai nos veículos de comunicação de massa sobre o meio rural supervaloriza o modelo agroindustrial como o caminho mais viável. Só recentemente e graças à emergência do problema ambiental em escala planetária, é que outras vozes como as dos camponeses/as agroflorestais passam a ser ouvidas e respaldadas nestes espaços, mas ainda em pequena proporção44.