1. Bölüm
2.2 Matematiksel Düşünme Alışkanlıkları
2.2.1 Matematiksel düşünme alışkanlıkları ile ilgili yapılan çalışmalar
Ao opor o dispositivo disciplinar ao dispositivo de soberania, Foucault elabora um quadro geral contendo as principais diferenças entre os dois modelos disposicionais. De partida, o filósofo esclarece que o dispositivo de soberania é sustentado por uma relação assimétrica. De outra forma, a vinculação entre soberanos e súditos acontece por meio de uma espécie de apropriação unilateral. Ao súdito, cabem as despesas e as obrigações; ao soberano, cabem as
coletas relativas aos bens produzidos pelo sujeito hierarquicamente inferior. “O soberano arrecada os produtos, as colheitas, as armas, a força de trabalho, a coragem”, como também arrecada “o tempo, os serviços”108, não tendo o dever de devolver o que ele recolhe. Em contrapartida, o soberano oferece um serviço de natureza diversa: um serviço de proteção, um serviço religioso ou mesmo um serviço de organização de guerras e festejos. De qualquer maneira, a assimetria da soberania é patente. A coleta sempre prevalece sobre a despesa. No poder disciplinar, ao contrário, não existe essa lógica dual na constituição de relações. Não há
que se falar em coleta parcial, mas em uma apropriação total, “uma apropriação exaustiva dos corpos, dos gestos, do tempo, do comportamento do indivíduo”109. Enquanto o poder de soberania se volta para a arrecadação de produtos e serviços, o poder disciplinar se concentra na regulação dos corpos e do tempo em sua totalidade.
Além disso, os dispositivos de soberania sempre pressupõem a existência de uma anterioridade fundadora. Há sempre um marco primordial, algo como um direito divino ou um ato de submissão, que fundamenta a relação que se estabelece entre súdito e soberano. Por conseguinte, a relação de soberania volta-se para o passado, para um momento de fundação essencial. Isso não impede, porém, que o dispositivo de soberania seja atualizado de maneira
108 FOUCAULT, Michel. Le pouvoir psychiatrique. Paris: Gallimard, 2003, p. 44. 109 Ibidem, p. 48.
constante, uma atualização reiterada que se procede em cerimônias, relatos e em um conjunto de gestos simbólicos arraigados na cultura. Tal reiteração não é mera banalidade. Na verdade, ela revela uma importante característica dos dispositivos de soberania: eles são frágeis, estão sempre sujeitos à caducidade. E é por conta dessa incessante sensação de ruptura que o dispositivo de soberania precisa recorrer a certo imperativo de violência, um suplemento que reforça a relação assimétrica entre súdito e soberano. O poder da disciplina, por sua vez, não depende de uma reiteração cíclica de ritos habituais. O dispositivo disciplinar emprega efeitos contínuos de controle que não exigem uma reiteração que o anima. O corpo do indivíduo encontra-se submetido sem cessar sob o olhar dos mecanismos de poder. O sujeito está inserido em um contexto perpétuo de visibilidade, uma dominação que se opera fora das exigências cerimoniais. Até por isso o dispositivo disciplinar não remete à formalidade uma autoridade fundadora. Na relação que se configura na disciplina, não há remissões a atos, acontecimentos ou direitos fundacionais. Em sentido oposto, a disciplina é sempre voltada a fins: ao fim ótimo, ao resultado útil, ao estado terminal. Em suma, o dispositivo disciplinar está sempre voltado para o futuro, para um efeito conjuntural produzido por meio de seu exercício calculado.
Em terceiro lugar, o dispositivo de soberania não comporta relações isotópicas. Ainda que as relações de soberania tendam a estipular diferenciações, elas não se pautam em sistemas
integrados de classificação, “não constituem um quadro hierárquico unitário com elementos subordinados e superordenados”110. Nessa medida, as relações de soberania são heterogêneas umas em relação às outras, não se inscrevem em um conjunto no qual existe certa simetria: a relação que se estabelece ente servo e senhor é diferente daquela que se forma entre vassalo e suserano. Mesmo os elementos que constituem uma relação de soberania podem ser completamente diferentes dos que configuram o conteúdo de outras relações: relações de soberania podem dizer respeito a multiplicidades humanas (família, coletividade, etc.) ou a
objetos variados (terra, instrumentos de produção, entre outras coisas). Os dispositivos disciplinares, por seu turno, são isotópicos, ou seja, são constituídos por um sistema classificatório calculado e exaustivo em suas relações. A isotopia disciplinar pressupõe vários aspectos: 1) cada elemento, cada indivíduo tem seu lugar bem determinado, um posto, uma classe, uma parte seccional que o vincula, uma divisão que o insere num conjunto previamente repartido em instâncias hierárquicas e funcionais; 2) os deslocamentos se operam por meio de movimentos controlados por instrumentos disciplinares, e.g. o exame ou o concurso; 3) os diversos dispositivos disciplinares se articulam entre eles, isto é, não são incompatíveis ou conflituosos; 4) os dispositivos disciplinares são anomizantes, ou melhor, ressaltam as anomias, os espíritos irredutíveis à estrutura das disciplinas: os dispositivos disciplinares evidenciam aqueles que se desviam dos seus sistemas normalizadores, para que, no fundo, eles possam ser adestrados, conhecidos e adaptados aos interesses disposicionais.
Por fim, o elemento-sujeito que existe no dispositivo de soberania não se confunde com um corpo individual. A relação de soberania não se constitui a partir de indivíduos, a partir de uma singularidade somática dissociada da coletividade. Em uma direção contrária, o poder de soberania volta-se para as multiplicidades, para uma coletividade. Quando se dirige a um sujeito, sua identificação sempre recai sobre aspectos, fragmentos que não compreendem a
singularidade somática: fulano é sempre o “fulano que é filho de x”, ou seja, não há na soberania
qualquer referência a um indivíduo singularizado. Nesse sentido, a função-sujeito sempre se desloca acima ou abaixo da singularidade somática. Não existe uma identidade individual no que tange aos súditos, um processo de individuação que se opera na base. Contudo, pode-se dizer que o dispositivo de soberania comporta um procedimento específico de individuação: trata-se do soberano, indivíduo que necessita de visibilidade e inequívoca identificação. O topo das relações heterotópicas deve ser, destarte, bem determinado. Depreende-se que a individualidade do soberano decorre justamente da falta de individuação em relação aos outros
elementos. O soberano é o único que não se confunde em uma multiplicidade, haja vista a sua posição superior. Já os dispositivos disciplinares, enfim, articulam-se em um complexo aparato de individuação. A disciplina vincula a função-sujeito à singularidade somática, a um indivíduo que, como um conjunto de características múltiplas (o corpo, seus gestos, seu lugar, seu tempo de vida, etc.), deve ser conhecido e conduzido conforme seus defeitos e habilidades:
“Pode-se dizer, numa palavra, que o poder disciplinar, e essa é sem dúvida sua
propriedade fundamental, fabrica corpos sujeitados, abrocha exatamente a função-sujeito ao corpo. Ele fabrica, distribui corpos sujeitados; ele é individualizante [tão-somente no sentido de que] o indivíduo [não é] senão o corpo sujeitado. E podemos resumir toda essa mecânica da disciplina dizendo o seguinte: o poder disciplinar é individualizante porque ajusta a função-sujeito à singularidade somática..”.111
4.5 A FAMÍLIA COMO AMÁLGAMA DO SISTEMA DISCIPLINAR E O