2.1.3. Matematik
2.1.3.3. Matematik Korkusu
Nas páginas anteriores, propusemos a canção como uma rede de significações na qual se encontram elementos heterogêneos: linguagem verbal e linguagem musical, palavras, sons, visualidade; voz, gestos, figuras de conteúdo e figuras de expressão, percebidos pelos nossos sentidos e pelo nosso intelecto, e elaborados em operações conceituais. A canção se nos apresenta como multiplicidade de sentidos e como diversidade e heterogeneidade no que concerne a seus elementos constitutivos.
Existem muitas maneiras analíticas de perceber a canção, e vários instrumentais teóricos que permitem sua divisão em partes e sua reconstituição. É possível fragmentar a canção, dividi-la em seus muitos e distintos elementos: a letra, a melodia, a harmonia, o ritmo, averiguar o léxico, distinguir figuras de linguagem, adentrar seu conteúdo semântico a partir de suas substâncias de conteúdo. Considerando que a canção
se nos apresenta como diversidade, multiplicidade e heterogeneidade, nesta tese nos propomos a desenvolver instrumentais que nos possibilitem conectar seus diversos elementos, que façam o caminho inverso da análise. Para refletir sobre a união dos elementos heterogêneos de poesia e de música num todo que é a canção, para juntar quebra-cabeças de formas tão desiguais, sugerimos um modelo de síntese que tem, como elemento operador, a imagem, em suas múltiplas modalidades.
A imagem, assim, pode ser pensada como um operador conceitual, uma operação teórica, um modo transversal para explorar na canção as relações que ali se estabelecem entre literatura e música. A imagem, nesta tese, constitui-se como operação de leitura. Por meio da imagem lemos a canção.
A palavra imagem é semanticamente carregada, conduzindo a várias interpretações. Não propomos apenas a descrição de imagens na canção, mas sim um modo transversal de pensar poesia e música, um operador na paisagem de significância da canção. Através do operador imagem verificaremos como se traduzem na canção as ideias de espaço, tempo, volume, movimento, cores, luzes, sentimentos e afetos, elementos comuns às linguagens verbal e musical da canção, e ainda, o que haveria de brasilidade nessas composições.
A canção, por meio das imagens que cria, constrói um efeito de simultaneidade, complementaridade, como um mosaico de múltiplas imagens simultâneas. Como uma rede. A imagem final, justaposição de muitas imagens, fragmentada, dinâmica, em constante modificação, se busca, se cria, se perfaz como efeito de relações.
A ideia de interação se diferencia ligeiramente do diálogo. Vejamos um som agudo entoado numa vogal aberta. A nota musical e o fonema simplesmente dialogam? Creio que há mais do que diálogo. O som musical e o timbre da vogal se justapõem como duas pranchas de vidro coloridas e transparentes, cada qual com sua cor, resultando numa nova cor. Não é fusão, é justaposição. Cada prancha colorida preserva sua identidade. Trata-se de uma combinação, e não de uma mistura.
A ideia de justaposição pressupõe adensamento, saturação, construção espacial que toma forma a cada nova ideia, a cada novo dado.
A canção persegue, surpreende, abraça relações inerentes aos objetos e acontecimentos, que de outra forma não se dariam à percepção. Se a imagem, como ícone, simulacro, em todas as suas manifestações, visuais, sonoras, perceptivas ou mentais, impõe-se e arrebata, dá-se por vezes de imediato aos sentidos que a apreendem, a imagem
na canção, ao contrário, aos poucos dá-se a conhecer e exige, por parte de quem escuta, de quem lê, um meticuloso, incansável trabalho de descoberta, de atenção às suas partes mais íntimas, de incansável retorno às próprias partes.
Na poesia, a palavra e a imagem visual e sonora sempre foram levadas a altos níveis de engenhosidade. A canção, como forma poética, cria imagens lançando as palavras em outras substâncias sonoras. As palavras se materializam em fluxos sonoros no tempo e no espaço, se encarnam na voz do cantor, reverberam no corpo que emite e que ouve. A canção recria o poema numa outra dinâmica, numa outra maneira de expressão, num novo andamento, numa nova inflexão, com a harmonia, a melodia, a construção tímbrica, o uso de instrumentos, as construções rítmicas, a voz do intérprete. A canção nos permite experienciar as palavras e os fluxos das frases numa elaboração musical, na esfera de sentido do som.
Para pensarmos as imagens, partimos da ideia do mosaico, que consiste na reunião de pequenas e diferentes partes. Ora, cada elemento da canção, sendo passível de ser semiotizado, tem a potência de criar imagens. A canção é, por conseguinte, como um mosaico de imagens de características sensoriais diversas. Cada imagem, um fragmento. Uma síntese é uma reunião de fragmentos, de cacos. Como um mosaico ela representa uma ideia, e esta ideia é a canção. Um mosaico pressupõe uma visão arruinada, mas visão que sobrevive.
Inspiramo-nos na bela imagem criada por Walter Benjamin, exposta em sua tese A origem do drama barroco alemão. Em um dos momentos de sua tese, Benjamin se propõe a diferenciar a representação de ideias em um tratado em oposição a um sistema. Para o autor, o tratado que se propõe a representar as ideias adere obstinadamente à ordem das coisas, recusando as falsas totalizações. O tratado procede pela imersão, sempre renovada, em cada objeto singular, nos vários estratos de sua significação, obtendo assim “um estímulo para o recomeço perpétuo, e uma justificação para a intermitência de seu ritmo” (1984, p.50). A lei do tratado é, pois, a descontinuidade, o que o diferencia do sistema, contínuo, com coerência ininterrupta entre seus elos. Benjamin compara o tratado ao mosaico, pois ele justapõe fragmentos de pensamento, do mesmo modo que o mosaico justapõe fragmentos de imagens, e para o autor, “nada manifesta com mais força o impacto transcendente, quer da imagem sagrada, quer da verdade” (1984, p.51). O mosaico justapõe elementos isolados e heterogêneos que resultam numa imagem global, e esta imagem resultante é uma reconstituição da imagem primeira, do todo inapreensível da
realidade intangível, do “ser indefinível da verdade”. O tratado procede pela representação: descrição do mundo das ideias e construção de conceitos, não para dominar as coisas, mas para “redimi-las” (1984, p.22). Benjamin traz para a ordem da realidade da representação as ideias metafísicas de salvação e redenção e desenvolve belamente o paradoxo da ideia arruinada, da morte da ideia, para proceder a sua sobrevivência.
Podemos dizer que procuramos entender e representar uma ideia: a canção. E assim mergulhamos em suas partes mais íntimas, retornando sempre às próprias coisas, isolando elementos de forma minuciosa. E emitindo conceitos, os quais “salvam” a ideia de sua extinção, de sua não representação. Após isolar esses elementos, eles serão reunidos de novo, como num mosaico. A imagem final é resultante de uma série de opções de leitura: procede-se das partes para o mosaico e depois retorna-se de novo às partes, continuamente, infatigavelmente. Os pequenos pedaços não precisam ter uma relação direta com o todo. Como nos diz Benjamin, o valor da representação é comparado ao brilho do esmalte sobre o mosaico. Independe de um fragmento individual. É uma tentativa de reunião de fragmentos.
Na canção, a imagem global, como um mosaico, é resultado da reunião, da justaposição dos vários tipos de imagens criadas por seus elementos literários e musicais. A ideia é de simultaneidade, não de fusão. É necessário perceber cada parte, cada tipo de imagem, num processo de construção, de exploração de seus elementos. Posteriormente, essas imagens são acionadas para a construção de sentido, em processos relacionais. Múltiplas sensações, múltiplos processos de simbolização, múltiplas imagens dadas e construídas, percebidas ou evocadas. Mais que tentar representar o todo, buscamos uma forma de vivenciar o todo.
Diversos modelos interpretativos da atualidade utilizam o modo de organizar e dispor o conhecimento baseado em redes, como as redes neurais ou as redes dos sistemas eletrônicos. Um mosaico que justapõe elementos heterogêneos se assemelha aos modelos de rede, que também conectam elementos heterogêneos. Numa rede temos nós e conexões. As conexões, de uma certa forma análogas ao esmalte do mosaico, surgem de um processo criativo, de relações dinâmicas. É necessário um potencial imaginativo para fazer ligações, organizar as conexões e criar mecanismos que permitam conectar mais facilmente elementos diversos. Esse processo é semelhante ao que nossa mente executa para reconstituir, por exemplo, a imagem de uma pessoa.
O que o nosso cérebro armazena não é uma imagem per se de alguma pessoa ou objeto, mas um meio para reconstruir um esboço dessa imagem. Não existe apenas uma fórmula para essa reconstrução. Uma pessoa, por exemplo, enquanto pessoa completa, não existe num único local do cérebro. Ela encontra-se distribuída por todo ele sob a forma de muitas representações para os diversos componentes. Existem representações, por exemplo, para a voz dessa pessoa, nos córtices de associação auditivos. Quando lembranças de coisas relacionadas com essa pessoa são evocadas, e ela emerge em vários córtices iniciais (visuais, auditivos), ela continua a estar presente apenas em vistas separadas, durante a janela temporal na qual se constrói algum significado para sua pessoa. Em suma, uma mente integrada resulta de uma atividade fragmentada. As múltiplas linhas de processamento sensorial experienciadas na mente – imagens visuais e sons, sabor e aroma, textura superficial e forma – “ocorrem” em estruturas cerebrais distintas (Cf. Damásio, 2002, p.130).
Retomando a canção, as imagens de diferentes modalidades se constituem como os nós de uma rede. O todo é resultante das diferentes possibilidades de conexões entre esses nós. A imagem final é como um esboço desse todo, que pode ser reconstruído de várias maneiras, conectando-se ou não esses diferentes nós.