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Há escassez dos cursos na área ambiental voltados para estudantes de comunicação ou jornalistas profissionais (Trigueiro, 2005). O investimento é muito mais pessoal, do que institucionalizado. O cenário estressante das redações pouco deixa tempo para o aperfeiçoamento dos profissionais. A exigência da cobertura sobre mudanças climáticas por si só já representa uma imenso desafio. O profissional além de apurar precisa se atualizar constantemente sobre o que tem sido publicado e discutido sobre o assunto. Muito embora esta seja uma premissa do exercício da atividade do jornalista em seus mais variados campos.

Trigueiro observa que um exemplo da carência de profissionais com capacitação na área ambiental pôde ser notado na Rio-92. O novo filão meio ambiente demandava material. Para atender essa demanda, técnicos de diversas áreas tornaram-se colunistas e articulistas. Trigueiro também enfatiza nomes que fizeram história no jornalismo ambiental, como Washington Novaes, atualmente colunista de publicações - entre elas O Estado de S. Paulo, analisado neste estudo - e profundo conhecedor da temática ambiental,.

Em uma revisão para a revista Science que analisou livros publicados sobre mudanças climáticas e o debate travado sobre o assunto, Kitcher diferencia três questões nos discursos: primeiramente, se as mudanças climáticas - especialmente as ações que aumentam as emissões de GEE - estão contribuindo para um aquecimento da Terra. Em segundo lugar, sobre as probabilidades de que vários fenômenos vão ocorrer e quais serão as consequências para os seres humanos e outras espécies. Em terceiro lugar estão as considerações sobre o que deveria ser feito para combater o aquecimento e limitar os danos. Kitcher também mostra na literatura a respeito do tema alguns pontos que contribuem para a confusão do público estimulada pela mídia. “Aparentemente a ideia de expor a ciência ambiental como um duelo entre perspectivas de experts rivais é seduzente demais para se resistir” (Kitcher, 2010).

Em um trabalho que analisou de forma detalhada mais de 150 artigos sobre mudanças climáticas nos jornais The Guardian, The Independent, The Times e The Daily Telegraph entre 1997 e 2007, Doulton e Brown identificaram oito discursos característicos:

• Racionalismo – outras questões relacionadas ao desenvolvimento são mais importantes; deveríamos lidar com a mudança climática como ela ocorre;

• Mitigação ética – o ocidente deveria liderar;

• Mitigação certeira – posição de ameaça da Índia e China;

• Desastre – mostra o que já está acontecendo; algo precisa ser feito;

• Catástrofe potencial – ricos devem agir logo, mas não há necessidade de revolução;

• Crise – a única saída é uma revolução;

• Oportunidade – superar as mudanças climáticas pode ajudar os pobres.

Ao abordar as diferenças nas coberturas, Doulton e Brown (2009) afirmam que diferentes tipos de atores influenciam diferentes discursos. Um ator apenas, observam, pode ser particularmente importante em influenciar o surgimento de um discurso, como por exemplo Bjorn Lomborg e o racionalismo. Também observam que papers científicos são raramente utilizados como base para textos jornalísticos e que embora haja cobertura de imprensa para os relatórios do IPCC, particularmente dentro do discurso de catástrofe potencial, os relatórios são um processo político.

Doulton e Brown continuam explicitando que os cientistas são algumas vezes usados para legitimar histórias, podendo o trabalho dos mesmos formar a espinha dorsal de relatórios de ONG´s. O estudo aponta que há ocasionalmente artigos jornalísticos escritos por um cientista. Quando os achados científicos são utilizados como base para textos jornalísticos, a tendência é que se concentrem em pesquisas que mostram menores ou maiores impactos das mudanças climáticas.

Observam os autores que fatores sociais, políticos e econômicos podem explicar a cobertura. Um aumento na cobertura pode ser reflexo de maior importância política do tema ou da preocupação do público com o assunto. Conclui a pesquisa que a imprensa acentua e perpetua as visões de países em desenvolvimento e os pobres como vítimas em face de desastres e de que eles podem ser ajudados pelos países ricos do ocidente (Doulton e Brown, 2009).

No Brasil, a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) promoveu o monitoramento de notícias publicadas em 50 jornais de 26 Estados brasileiros e do Distrito Federal entre julho de 2005 e junho de 2007 e julho de 2007 a dezembro de 2008. Este monitoramento detectou que referências ao contexto brasileiro aumentaram de 42,7% dos textos para 72,3%, no segundo período analisado. Também a diminuição dos ganchos jornalísticos foi percebida em 2008. O mesmo trabalho identificou que a cobertura no primeiro período de investigação apontava os líderes mundiais como responsáveis por apresentar respostas para as mudanças climáticas; no segundo período de cobertura, a responsabilidade voltou-se para o Executivo brasileiro. O estudo também detectou uma tendência de diminuição da abordagem do tema por parte dos jornais a partir de 2007.

O estudo da Andi aponta também que a menção na mídia brasileira sobre causas e soluções relativas aos fenômenos climáticos se manteve estável entre os dois períodos. Causas das mudanças climáticas registrou 36% e soluções, 41%. Por outro lado, a referência às consequências sofreu uma redução expressiva de 58,5% (2005/2007) para 34,4% (2007/2008).

Para estratégias de mitigação foi registrado aumento de 45,5% para 51,1%. Em 2005/2007 o foco foi o setor energético (45,1%) e no período 2007/2008, o uso do solo e das florestas (25,4%). Adaptação passou a ser tema abordado de forma mais frequente, saltando de 3,6% para 11,9%. As temáticas mais fortemente vinculadas a mudanças climáticas foram GEE e questões energéticas. Na mesma pesquisa da Andi, entre julho de 2005 e junho de 2007, 46% dos textos selecionados fizeram alguma referência à energia; no segundo período analisado, o índice foi de 42,7%.

É necessário observar que a discussão sobre energia ainda está concentrada na utilização dos combustíveis fósseis (31,6% e 25,9%, respectivamente). No debate em torno das energias limpas o uso do etanol ocupa 10% do universo pesquisado, com maior incidência de notícias sobre esse tema entre maio e junho de 2008, período em que a cobertura referente à 9ª Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica (CDB) e a Climate Change Talks (evento promovido pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) ressaltou o empenho do governo do presidente Luís Inácio Lula da

Silva em defender a cultura da cana-de-açúcar das acusações de que a produção de biocombustíveis poderia potencializar a crise mundial de alimentos.

Em geral, a cobertura do segundo período de monitoramento (2007- 2008) se tornou mais voltada ao cenário nacional (Andi, 2008).

Um estudo realizado pelo jornalista britânico Mike Shanahan com 111 jornalistas de 35 nações em desenvolvimento concluiu que apenas 31% dos profissionais recebeu algum treinamento formal sobre o assunto. Os profissionais citaram a falta de cursos ou oficinas de capacitação como o grande gargalo na cobertura. Além dessa dificuldade, os principais pontos relatados foram:

• A falta de pesquisas sobre a realidade local e de especialistas locais

preparados para falar com jornalistas;

• Dificuldades de acesso à informação e falta de compreensão do

assunto;

• Dificuldade em convencer os editores sobre a importância de pautas

sobre alterações climáticas;

• Insuficiência de recursos para viajar para áreas remotas ou para

conferências relevantes sobre clima (Shanahan, 2009).

Benzer Belgeler