Definir com o contratante quanto o cooperado irá receber pela execução do trabalho;
Estabelecer em comum acordo com a empresa o tempo de duração do contrato; A formação de um fundo de reserva é recomendada;
Promover assembléias para prestar contas a todos os cooperados, pois eles são donos da cooperativa;
Dividir a sobra de dinheiro do ano entre os cooperados ou votar onde investi- lo;
Convocar eleições para os cargos da entidade.
Fonte: Revista Você S/A (Ago./2003) Todos estes problemas provocam a discussão sobre a viabilidade das cooperativas de trabalho. Há até mesmo que defenda o fim imediato deste tipo de empreendimento porque coíbe a contratação pela CLT. No momento de crise de emprego em que se encontra o país é realmente preocupante a situação atual da legislação que trata das cooperativas, pois ela não abrange as novas relações de trabalho estabelecidas. Acreditamos que as cooperativas apresentam no atual momento as maiores e melhores oportunidades de reprodução do trabalho, portanto, a
15 Advogado e consultor trabalhista e sindical, também em entrevista à Revista Você S/A de agosto de 2003, p. 25.
sua extinção agravaria ainda mais o quadro de desocupação da população economicamente ativa. A criação de uma cultura cooperativista juntamente com uma fiscalização do poder público e demais entidades evitaria a formação de tais “coopergatos” e asseguraria os meios de reprodução de milhares de trabalhadores. Medidas radicais que visam o “cortar o mal pela raiz” não solucionam o problema da ilegalidade de empresas que visam apenas a flexibilização das relações trabalhistas e aumento de seus lucros.
Vistas as principais características da Economia Solidária e dos empreendimentos autogestionários, passaremos agora a tratar especificamente das cooperativas de catadores de materiais recicláveis, que, além de representarem uma prática da Economia Solidária, agregam outro fator importante: utilizam como matéria de trabalho aquele que é um dos maiores problemas urbanos – o lixo.
• Cooperativas de catadores de materiais recicláveis
O crescimento no número de cooperativas de trabalho tem se concretizado também em um aumento efetivo de empreendimentos geridos por trabalhadores que têm como matéria-prima os materiais recicláveis. Como veremos no próximo capítulo, o lixo nosso de cada dia tornou-se objeto de compra e venda de um mercado regulado, que possui cadeia produtiva, cotação de preço e traz muitos benefícios para a economia das grandes indústrias.
Em meio a este mercado, composto por diferentes níveis – catadores de materiais recicláveis das ruas, depósitos de ferro-velho, pequenos, médios e grandes sucateiros e indústria recicladora – encontram-se as cooperativas de catadores que objetivam unir forças para poder negociar por melhores preços os materiais que comercializam.
A informalidade de parte de seus agentes também é uma característica do mercado de reciclagem no Brasil, que tem em sua base um exército de trabalhadores estimados em 500 mil catadores de materiais recicláveis, segundo dados do CEMPRE (2002). A cooperativa de catadores é, portanto, uma iniciativa de formalização e inclusão social de uma parcela da população caracterizada pela baixa qualificação profissional e extrema pobreza.
O estimulo à organização dos catadores vem sendo praticado em diversos municípios visando o desenvolvimento econômico e social com geração de trabalho e renda e, em contrapartida desviar de lixões e aterros todo material que possa ser reciclado.
Desta forma é que cada vez mais as cooperativas de coleta seletiva vêm recebendo a atenção do poder público e sendo alvo de políticas públicas. Assim como nos demais empreendimentos da Economia Solidária, são muitas as organizações de apoio técnico e administrativo que auxiliam na formação e viabilidade de novas cooperativas. Dentre estas organizações tem destaque especial o CEMPRE – Compromisso Empresarial para a Reciclagem, que disponibilizam kits didáticos que auxiliam na formação de associações e cooperativas constituídas por 20 a 50 catadores.
Dados sobre o número de cooperativas de catadores de materiais recicláveis ainda não são precisos, mas um cadastro do CEMPRE (abril/2004) revela e existência de 238 empreendimentos associativos desta natureza distribuídos por todo o país. Salientamos que estes 238 empreendimentos não são só representados por cooperativas, mas também por associações de catadores que tem suas administrações distintas do sistema cooperativista, o que, no entanto, não exclui a condição fundamental de união destes trabalhadores em busca de melhores condições no mercado.
As cooperativas de catadores são organizações autogestionárias que funcionam como centrais de beneficiamento primário de materiais recicláveis recolhidos na fonte, ou seja, nas residências, estabelecimentos comerciais, condomínios e empresas. O recolhimento na fonte evita a garimpagem de lixões e abertura de sacos de lixo dispostos na rua à espera do caminhão de coleta tradicional. Evita assim, gastos com transporte destes materiais até o lixão ou aterro para posterior separação e, fundamental, evita a situação de degradação humana vivenciada por muitas famílias que até mesmo residem nestes locais à espera do que possa ser reaproveitado para o próprio consumo ou para trocar no mercado.
O beneficiamento primário é o início do processo de reciclagem e consiste na classificação ou separação dos materiais por tipo ou demais especificações, que podem variar regionalmente, e no enfardamento. O material beneficiado é estocado até que atinja uma quantidade mínima para que possa ser comercializado por valores que paguem os custos do beneficiamento e do transporte, geralmente realizado pelo
comprador. De acordo com Gonçalves (2003, p. 33) a meta de produção de um empreendimento autogestionário deste tipo, que tem entre 20 e 30 cooperados visando a auto-sustentabilidade, é de, pelo menos, 60 a 80 toneladas/mês.
A estrutura física de uma cooperativa de coleta seletiva comporta geralmente um galpão de 400 m2, onde o material é triado e separado por cor e tipo. Quanto maior a área de armazenagem de materiais, maiores são as possibilidades de obter melhores condições de venda. Para agregar valor a este material também há necessidade de alguns maquinários como prensas, balanças e esteiras ou mesas de separação que também possibilitam melhores condições de trabalho aos cooperados.
As cooperativas que realizam a coleta de materiais porta a porta também necessitam de um meio de transporte que conduza o material da fonte até a sede da cooperativa. Isto pode se dar através de caminhões do tipo baú (essencial para regiões com maiores períodos de chuva) ou de carrinhos manuais com capacidade média de 200 kg.
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CARRINHO MANUAL USADO POR CATADORES
Fonte: GODOY, T. M. P. de (2002). A cadeia produtiva da reciclagem no Brasil tem participação efetiva de uma parcela de trabalhadores anônimos sem o devido reconhecimento da sociedade. Organizados em cooperativas e associações os catadores ou coletores tem conseguido
melhores condições de trabalho e inserção social. Veremos no próximo capítulo a situação degradante dos catadores que trabalham isoladamente. Cabe aqui ressaltar as características de uma parcela cada vez maior de trabalhadores que se unem para superar as dificuldades do mercado e tornar-se protagonistas de empreendimentos promissores.
Os catadores cooperados ou associados têm (e precisam) se articulado com geradores, desde empresas que disponibilizam grandes quantidades de materiais até donas-de-casa que separam as sobras do consumo diário, e intermediários ou indústrias recicladoras a quem se destina tudo o que foi coletado e beneficiado.
Como o perfil dos catadores indica poucos anos de escolaridade, uma das grandes barreiras para viabilidade de cooperativas é a gestão. A necessidade de apoio externo até que se crie uma cultura cooperativista e que os associados possam gerir sozinhos seus empreendimentos é demonstrada em todas as discussões e análises acerca do tema.
Os frutos da tomada de consciência dos catadores pela importância do papel que representam fica evidente na realização do 1o Encontro Nacional de Catadores em Brasília no ano de 2001. Segundo levantamento da ONG Lixo.com (apud GONÇALVES, 2003, p.144) 33% dos catadores entrevistados revelam que mesmo que outras oportunidades surgissem não abandonariam a atividade de coleta seletiva.
Organizados em empreendimentos autogestionários eles compreendem a importância social, ambiental e econômica de sua atividade. Esta categoria se organiza cada vez mais e vem se tornando mais articulada na reivindicação de que a coleta seletiva não se torne monopólio e que seja realizada prioritariamente por empreendimentos autogestionários, por catadores organizados16.
16 GONÇALVES, Pólita. A reciclagem integradora dos aspectos ambientais, sociais e
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