BÖLÜM 1: TÜKENMĐŞLĐK KAVRAMI
1.5. Tükenmişlik Modelleri
1.5.7. Maslach Tükenmişlik Modeli
Os dois momentos da urbanização brasileira descritos são representativos do que foi o projeto moderno de cidades no Brasil desde finais do século XIX até meados do século XX, culminando com a construção da nova capital federal na segunda metade da década de 1950. Diante dos exemplos estudados é possível perceber as referências a obras de reconstrução urbana e planos de cidades de outros países do Ocidente, denotando o fluxo de informações entre estes e o Brasil e,
mais do que isso, o intercâmbio de profissionais que, desde as primeiras décadas do século XX, reconheciam a possibilidade de realizar em solo brasileiro os projetos idealizados pelo urbanismo moderno, reconhecimento esse exacerbado na metade daquele século, conforme sugere Gorelik (In MIRANDA, 1999).
O período que vai desde aproximadamente meados do século XIX até 1930 é marcado, como bem denota Morse (1970:11), “pela consolidação de uma oligarquia baseada na posse da terra”, cujos poderes econômico e político se sobrepunham a governos centralizados enfraquecidos. Esta configuração, dada a importância da agricultura, especialmente da atividade cafeeira, que diferentemente de outras culturas predominantes em períodos anteriores, levou a elite agrária a estabelecer também residências urbanas e ampliou o poder desta classe sobre o espaço urbano, acarretaria na estruturação das cidades com base nos rumos dados pelos interesses da elite, principalmente nos casos de Rio de Janeiro e São Paulo. Conforme Villaça (2001) o principal fator determinante da estruturação urbana é a luta de classes por melhores localizações na cidade e a segregação que esta luta causa, como parte de um processo de dominação através do espaço urbano.
Nesse sentido prevalece o entendimento de Gorelik (In MIRANDA, 1999) de que naquele momento se configura nas cidades brasileiras uma “modernização conservadora”, que ao mesmo tempo procurava controlar o crescimento urbano espontâneo, entendido como modificador das condições pré-estabelecidas, e incutir nas cidades as características de uma metrópole europeia, mais de acordo às suas necessidades, acarretando inevitavelmente em um novo espaço urbano. Importavam a configuração de locais adequados para ver e ser visto, os melhoramentos como canalização de água potável e a iluminação, a princípio a gás e logo elétrica, a circulação com os novos meios de transporte disponíveis, melhorias que não atingiam a população como um todo.
Diante do aumento populacional urbano decorrente da imigração estrangeira e do fim da escravidão, crescia o número de moradias precárias nas cidades, ao mesmo tempo em que doenças proliferavam, exigindo um tratamento adequado ao espaço urbano, que se distinguiu na aplicação de medidas sanitaristas e no afastamento da população pobre do centro, em função da localização privilegiada da elite, sem a previsão de uma política destinada à habitação econômica, à mercê do mercado privado de locações.
O quadro de crescimento da população pobre e de agravamento das condições sanitárias em decorrência da ampliação da atividade cafeeira é, como já mencionamos, semelhante ao quadro inglês (europeu) no início do século XIX, resultante negativa da Revolução Industrial, guardadas as diferentes proporções e cenários políticos. Entretanto, o tema que levou aos projetos das primeiras cidades idealizadas, predecessoras da cidade moderna, foi, desde o princípio, a busca pelo fim da divisão social do trabalho entre cidade e campo, que alterou as condições urbanas, conformando a
cidade industrial, e de habitação, questão central das novas proposições. No Brasil, as cidades vinculadas ao sistema cafeeiro cresciam naquele momento justamente em função de uma atividade rural, de modo que a divisão social do trabalho entre campo e cidade ainda não se manifestava claramente.
Essa situação se associa à própria condição da elite, originária das relações de escravidão e dos latifúndios agrícolas. A herança das relações expressas pelo sistema escravocrata se manifestaria na sustentação da estratificação social, que, mesmo com o início do trabalho livre, impedia ou dificultava a mobilidade social dos indivíduos e se apoiava na manutenção das condições inerentes a cada classe, como garantia do predomínio do poder da elite. Conforme sugerido por Le Corbusier (1981:201)30 para quem as “velhas modalidades de propriedade que se opõem à transformação da
cidade e da casa,” a herança do latifúndio implicaria no reconhecimento do valor da terra urbana e da propriedade particular e, consequentemente, no seu valor como mercadoria, limites determinantes ao estabelecimento pleno do projeto moderno para toda a coletividade,
Uma constatação importante está em que, devido à inexistência de uma clara divisão social do trabalho entre cidade e campo, e aos interesses da elite expressos na questão da terra urbana e na manutenção da estratificação social, o projeto de urbanização brasileiro, na virada do século XIX para o século XX, não carregou consigo, como nos processos europeus de planejamento urbanístico no século XIX, a preocupação em buscar novos modos de habitar e conviver que garantissem melhores condições de vida à população pobre/trabalhadora, caracterizando, portanto, conforme supõe Campos (2002), uma apropriação meramente parcial do ideário moderno e, ao mesmo tempo, excludente, não garantindo a toda a população os melhoramentos urbanos.
No segundo momento da urbanização brasileira, expresso desde 1930 até aproximadamente a década de 1950, se delineia claramente o papel da vanguarda associada ao Estado benfeitor, conforme aponta Gorelik (In MIRANDA, 1999). Não significa que obras baseadas nos princípios do embelezamento e do sanitarismo deixassem de ocorrer; elas se mantêm, porém, com menor importância relativa dentro do cenário político, não mais descentralizado e controlado pela oligarquia agrária e, sim, centralizado em um governo que se fez forte e presente no campo do projeto urbano.
O Estado assume a condição de liderança na reorganização socioeconômica e política do Brasil, determinando como princípio a construção de uma identidade brasileira, expressa no desenvolvimento nacional e no atendimento a questões sociais antes desprezadas. Desse princípio decorre o incentivo estatal à industrialização e a valorização do trabalhador como o novo homem brasileiro. Martins (1987) analisa a relação que se estabelece entre o Estado pós-Golpe de 1930 e a
vanguarda moderna e revela um esforço de superação da divisão tradicional entre arte e técnica, que leva a arte a afastar-se de sua conotação metafísica e integrar-se ao processo de transformação social, caracterizando o aspecto construtivista da vanguarda nacional, já descrito em Gorelik (In MIRANDA, 1999). Assim, ao mesmo tempo em que a arte se politiza e demonstra a preocupação em denunciar as condições de vida da população, a cidade se torna o objeto de trabalho, como lócus da produção capitalista a ser reorganizado em favor da coletividade. Compreendemos que o entendimento da vanguarda como “arquitetura de Estado” é insuficiente ou mascara o que de fato ocorria no sentido de que, mais que a sugestão de um “estilo estatal”, parece ter havido a abertura política para a arquitetura moderna e o urbanismo moderno como representativos da questão social que o governo procurava valorizar.
Nestes novos projetos urbanos, fossem cidades novas rumo a Oeste ou cidades implantadas a partir de núcleos operários, é possível reconhecer a vontade estatal em estender a moradia citadina à população trabalhadora e a preocupação por parte dos profissionais em cumprir a função social da arquitetura, expressa no desenho diferenciado de bairros residenciais e edifícios multifamiliares de apartamentos e na apropriação de conceitos da unidade de vizinhança e da cidade-jardim, onde diferentes classes sociais seriam adequadamente alojadas. Entretanto, apesar do interesse estatal em valorizar o trabalhador, ainda prevaleciam os interesses das elites, de modo que na construção e posterior ocupação, ficava em segundo plano a dimensão social da arquitetura, caracterizada pela extensão do alojamento a toda a população e, ainda, a modernização brasileira se faria parcial e excludente.