1. MASA ÖRTÜLERİ
1.8. Masa Örtülerinin Toplanması
“(...) A maioria dos valores objetivos – e também a própria razão – são, desde tempos imemoriais, complexos sólidos de representações em cuja organização trabalharam incontáveis milênios com a mesma necessidade com que a natureza do organismo vivo reage às condições médias e sempre retomadas do meio ambiente, opondo-lhes complexos correspondentes de funções como, por exemplo, o olho, perfeitamente adaptado à natureza da luz. Poderíamos falar, assim, de uma razão universal, preexistente e metafísica se a reação do organismo vivo correspondente à média dos efeitos externos não fosse condição indispensável de sua existência – idéia já expressa por SCHOPENHAUER. A razão humana nada mais é, pois, do que a expressão da adaptabilidade à média das ocorrências que se sedimentou aos poucos em complexos firmemente organizados de representações que constituem os valores objetivos. As leis da razão são as que designam e regulam a atitude média, ‘correta’, e adaptada. Racional é tudo que concorda com essas leis e irracional, ao contrário, é tudo que não concorda. (grifamos). 49
A cultura patriarcal, geradora da consciência solar, nem sempre esteve plantada em solo firme. Uma outra cultura, a matriarcal, portadora de outros princípios, e portanto de uma outra consciência, também, que Stein denominou por “lunar”, a antecedeu. O aspecto lunar da consciência representa, para o autor, uma outra polaridade da consciência, regida pelo arquétipo materno.
Para Stein, a consciência lunar também apresenta a sua moral. Esta, entretanto, não condiz com os valores rígidos e hierárquicos contidos no arquétipo paterno formador da cultura patriarcal. Está em sintonia, ao contrário, com o
conteúdo irracional do inconsciente, portanto com os conteúdos arquetípicos do inconsciente coletivo.
“(...) Quando abordamos a consciência do ponto de vista lunar, nossa
atenção desloca-se dos determinantes pessoais, e até culturais e sociais do conteúdo moral, para os aspectos arquetípicos inconscientes da natureza humana, e para o corpo e o instinto como fontes de orientação e valorização morais (...)” 50
Podemos buscar a manifestação desse aspecto da consciência numa imagem atual, captada e transmitida, em 2003, pelos veículos de comunicação, de um tratorista que se recusou a executar uma decisão da Justiça de reintegração de posse que passava pela necessidade de demolição de uma casa ocupada por moradores humildes e vivendo em condições sociais desumanizadoras. Aquele indivíduo que descumpriu a ordem da Justiça prestou declarações, na ocasião, afirmando não ter se arrependido de seu ato, por ter a convicção de ter agido conforme a sua consciência.
Segundo Stein, a consciência lunar também contém a sua moral, distinta, contudo, daquela apresentada pela consciência solar. A consciência lunar não é restrita aos padrões morais coletivos, age de acordo com uma “percepção da justiça”51, não fundada, necessariamente, pelas regras da sociedade. Pode, a consciência, assim, transcender ao espírito legislador e governador de uma sociedade, para, de acordo com o inconsciente, apenas, julgar e agir segundo esse
50 STEIN, Murray. Consciência solar, consciência lunar, p. 68. 51 Ibid., p. 67.
moto, tendo sido isso o que, precisamente, parece ter ocorrido com aquele indivíduo do episódio da Justiça.
“(...) Apresento aqui minha argumentação em defesa da alegação de
que essa camada do inconsciente contém suas próprias leis de comportamento, e que a violação das mesmas implica penalidades instituídas por essa totalidade psicossomática que é a pessoa humana.” 52
Se a consciência solar é identificada, por Stein, como responsável pela organização e, por isso, pela própria existência da sociedade civil, ao mesmo tempo, para o autor, esse pólo solar da consciência apresenta uma tendência, ao ego, de idealização. A conseqüência pode ser a propensão para, cada vez mais, “(...)
aperfeiçoar e estreitar os padrões de possíveis atitudes de comportamento (...)” 53, perdendo-se, assim, a totalidade, em favor do unilateralismo e do sectarismo. Ao contrário, a consciência lunar age em favor do todo psíquico e por isso acaba determinando a inclusão dos aspectos rejeitados pela polaridade oposta:
“Por sua vez, a consciência lunar pressiona por justiça e equilíbrio mais
além dos mandamentos da lei comum e do consenso coletivo. Busca a conservação de todas as possibilidades de vida, sejam estas quais forem. Seu valor axial é a totalidade e o completamento, não a exclusão. A consciência lunar impõe ao ego o dever de alcançar a complementaridade em lugar da perfeição; de salvar aquilo que é escuro e inferior, do ponto de vista social, em prol do todo. Em lugar de extirpar e incinerar aquelas partes tenebrosas em nome de um ideal
52 Ibid., p. 69. 53 Ibid., p. 113.
elevado, a consciência lunar dispõe-se a salvar todos os fenômenos (...)”. 54
Importante destacar que se a consciência solar predominar de forma a sufocar a manifestação da consciência lunar, criar-se-á uma sombra55 de grandes proporções. E ao indivíduo ou ao coletivo que criou esta sombra restará o confronto com as partes rejeitadas pela busca de um ideal. Como afirma Stein (1998):
“(...) a consciência solar e o ideal de ego podem brilhar com tanta
intensidade e parecer tão atraentes, que o ego apaixona-se positivamente por essas instâncias psíquicas e esse romance, talvez a mais elevada consecução da consciência solar, produz na pessoa o amor pela lei. A consciência solar produz uma tradição legalista, que é também uma tradição de paixão.” 56
O apego exagerado ao dinamismo solar da consciência pode conduzir, conforme já assinalado, entre outras conseqüências, às características dominantes e autoritárias presentes, hoje, na nossa cultura, e no nosso Direito.
Tornou-se incompreensível a alguém que viva em conformidade com as regras jurídicas entender que o outro não seja capaz de viver a favor dessa mesma expectativa normativa. Isso se dá porque o homem passou a ser explicado apenas segundo a sua vontade. A visão de quem assim julga está centrada na compreensão da personalidade a partir apenas da atitude da consciência, superestimando-a,
54 Ibid., p. “101- 102”.
55 Utilizamos esse termo de acordo com a concepção da psicologia analítica, isto é, para designar o
arquétipo que contém os traços inferiores ou os traços obscuros de uma personalidade, ou do coletivo.
56 Consciência solar, consciência lunar: ensaio sobre os fundamentos psicológicos da moralidade, da
desconsiderando os fatores ocultos a esta e também a circunstância. A nosso ver, há que se encontrar elementos de conexão entre a ação individual e fatores do inconsciente, que por sua vez interagem com valores do coletivo e com seus contextos, e estabelecer o entendimento da socialização do indivíduo enquanto um impulso arquetípico, que, portanto, para se realizar, depende de conteúdos muito mais sutis do que a repressão.
Resta identificar, agora, à luz do dia, os aspectos da unilateralidade da consciência – dentre eles a dominação e a exclusão, no campo da aplicação do Direito à criança e ao adolescente, no Brasil - e conhecer, de forma breve, os efeitos desse desequilíbrio, sob a óptica da teoria da psicologia analítica. É o que tentaremos fazer nos próximos capítulos.