A CPE/Osesp foi criada em 200121 para ampliar e formar público para a música de concerto e subsidiar os professores para trabalharem com música nas escolas, inclusive com repertório orquestral. Desta forma, pretendia incentivar a implantação de uma educação musical de maior qualidade nas escolas do ensino fundamental, aumentar o senso crítico dos indivíduos sobre a música e lhes oferecer oportunidades diferentes de formação profissional. Além disso, um dos resultados esperados era a contribuição para estudos curriculares sobre música nas escolas e outras instituições culturais brasileiras. Em seus
folders de divulgação e apostilas, a CPE/Osesp anunciava seus fundamentos educacionais:
Nós acreditamos que todas as pessoas podem conhecer música – não somente na teoria, aprendendo sobre os compositores, instrumentistas, as obras musicais e seus dados históricos e outras informações, mas principalmente, todos podem fazer música – tocando algum instrumento, cantando, compondo, improvisando, arranjando e apreciando diferentes estilos musicais.
Obviamente, existem diversos níveis de dificuldade, envolvimento e dedicação à música, e as pessoas não escolhem o mesmo tipo de música. Por isso, o contato direto com a música e com os profissionais da área pode levar a experiências musicais muito mais satisfatórias a nível emocional, intelectual e social. (documentação CPE/Osesp 2001/2002)
21 Na época da criação deste departamento, a direção executiva da Fundação Osesp estava ao encargo da Sra. Claudia
Toni, e a direção artística do Maestro John Neschling. Desde o final de 2004 até o presente, a direção executiva está ao encargo do Sr. Marcelo Lopes, e a direção artística continuou com o Mastro Neschling até 2008. Em 2006 o Descubra a Orquestra integrou o Programa Caminho das Artes, da Secretaria de Estado da Educação, e teve o acompanhamento da Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo - COGSP, da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas - CENP e da Fundação para o Desenvolvimento da Educação - FDE. A CPE/Osesp contou com a consultoria da Prof.ª Dr.ª Liane Hentschke (UFRGS, 2001-2003), equipe técnica e pessoal de apoio, bem como os demais setores administrativos (informação e projetos, financeiro, comunicação social, produção), Serviço de Voluntários, Centro de Documentação Musical (CDM), e próprios músicos instrumentistas e coralistas da Osesp. Como pesquisadores associados, estavam a Dr.ª Roseli de Deus Lopes (LSI – Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da USP) e Irene Karaguilla Ficheman, e como colaboradores atuaram Dr.ª Luciana Marta Del Ben (Instituto de Artes/UFRGS), Luciano Vargas Flores e Dr. Marcelo Soares Pimenta (Instituto de Informática/UFRGS) e Dra. Viviane Beineke (2001-2003).
Antes da efetiva implantação dos programas, a CPE/Osesp passou por um período de pesquisa e planejamento para estabelecer os referenciais teóricos educativo-musicais e metodológicos apropriados para sua elaboração e avaliação. Estes foram encontrados principalmente em Swanwick (1979, 1988, 1994 e 2003), Colwell (1992), Hentschke (1993, 1996a, 1996b), Schön (2000), Plummeridge (1991), Ross (1995), entre outros.
Em termos metodológicos, todos os programas eram calcados na pesquisa-ação: “uma intervenção em pequena escala no funcionamento do mundo real e um exame cuidadoso dos efeitos desta intervenção” (COHEN & MANION, 1985, p.208). Buscávamos realizar trabalhos conjuntos, numa colaboração mútua entre professores e pesquisadores e, perifericamente, entre departamentos e entidades de apoio. Isto porque “pouco pode ser feito se uma única pessoa está envolvida em mudar suas ideias e práticas” (ibid. p.212). Cabe ressaltar que estes conceitos permearam, mas não dirigiram as atividades, visto que o contexto não requeria pesquisa acadêmica.
Inicialmente foi realizado um levantamento sobre a formação dos professores e das atividades musicais empreendidas por eles nas escolas para obtenção de informações sobre a realidade em que pretendia atuar: se, quando, quem e como eram ministradas aulas de música. Os dados apontariam necessidades e interesses dos profissionais atuantes. O estudo ocorreu de abril a junho de 2001, em 149 Escolas das Diretorias de Ensino Norte 1 (DN1) e Diretoria (DC)23, com diretores, professores de arte e de 1ª a 4ª série.
Com base em Beineke (2000), Araújo (2001) e Bogdan & Biklen (1994), foi elaborado um questionário semiestruturado que investigou: faixa etária do professor; formação escolar; tempo de atuação em sala de aula (experiência pedagógica em geral); experiência musical, se houver (se sim, especificação de instrumento, tempo de estudo e participação em algum grupo musical); espetáculos musicais (concertos e shows) assistidos; conhecimento sobre o trabalho da Osesp; e expectativas sobre o Curso. O questionário foi enviado via e-mail pelo Assistente Técnico-pedagógico (ATP) da Diretoria de Ensino Norte 1 para os Diretores das Escolas, solicitando a resposta destes e de todos os professores que exerciam alguma atividade musical em sala de aula.
Em algumas escolas responderam somente os diretores, afirmando que sua escola
23 No ano de 2001, as pessoas envolvidas foram: prof. Michel Abou Asalli, Dirigente da Diretoria Norte 1; prof.ª Neusa
R. da Fonseca Abreu, Dirigente da Diretoria Centro: e Prof. Adilson Lopes, Assistente técnico-pedagógico da Diretoria Norte 1.
não realiza atividades musicais; em outras somente os professores de arte ou os professores de 1ª a 4ª série; em outras professores (de uma ou outra função, ou ambas) e os respectivos diretores. As poucas respostas dos três profissionais nas diferentes escolas devem-se ao escasso oferecimento de todos os cursos da Educação Básica em uma mesma escola. Dentre os respondentes, 114 eram mulheres, entre 31-40 anos e 41-50 anos, e somente 12 eram do sexo masculino. Sua formação é apresentada no gráfico adiante:
Gráfico 1: Níveis de formação dos professores
Dentre os docentes que possuíam ensino superior completo, incompleto ou pós- graduação, a grande maioria (30%) dos respondentes possuía formação em pedagogia (sendo possível mais de uma formação por respondente), seguida pela formação em artes plásticas (17%), educação artística (11%), desenho (8%), e música (7%). Mas dos 126 professores que participaram da pesquisa, apenas 69 realizam atividades musicais com maior regularidade. Dos 60 professores de Arte, apenas 19 as efetuavam permanentemente, ao contrário dos 66 professores de 1ª a 4ª séries: 50 professores incluem a música como parte de sua proposta pedagógica. Ao perguntarmos a Frequência das atividades, as respostas foram muito mais positivas entre os professores de 1ª a 4ª séries que, apesar de não terem formação para o trabalho musical, as realizavam com mais frequência do que os professores de artes (os quais, pela própria formação, muitas vezes focavam mais as artes plásticas). Os gráficos adiante ilustram o número de professores segundo a frequência de suas atividades musicais por nível de ensino e as porcentagens totais:
Gráfico 2: Frequência das atividades musicais
Níveis de Formação Educacional 13% 6% 15% 66% Superior completo Sup. incompleto E. Médio completo Pós-graduação
Frequência das Atividades Musicais
43,5%
33,3% 23,2%
1 vez por semana
2 vezes po r semana Outra 0 5 10 15 20 25 Nº. Prof .
1 por semana 2 por semana Esporádicas
Freqüência das Atividades Musicais por nível de ensino
Prof. de Arte
A maioria utilizava a música em conjunto com as outras linguagens (teatro, dança, artes plásticas) ou como apoio ao aprendizado de outros conteúdos ou disciplinas. Entre as “outras atividades” encontramos o uso da música em atividades corporais rítmicas. A maioria que empreendia atividades específicas concentrava-se na apreciação musical, na execução e, na sequência, no aprendizado de fatos históricos (literatura). Nos gráficos abaixo, observamos que 31% dos professores realizavam atividades musicais específicas em sala de aula (gráfico esquerdo); a especificação das atividades realizadas refere-se a estes e é apresentada no gráfico direito. Vemos que 31% concentravam-se na apreciação musical, 26% na execução vocal (canto), e 15% enfatizavam o conhecimento sobre música, como técnica e literatura musicais.
Gráfico 3: Atividades musicais nas escolas (2001)
As atividades eram realizadas na própria sala de aula ou no pátio da escola. O aparelho de som era o recurso material mais utilizado, seguido de vídeo, televisão e o material dos próprios alunos. Entretanto, apenas 31 respostas denotaram o uso de instrumentos musicais da escola. Tais resultados confirmam o tipo de atividades mais realizadas – apreciação musical e canto, que não prescindem de instrumentos.
Em resumo, encontramos a quase total ausência de professores qualificados e com formação atualizada em educação musical. Por exemplo, dos 60 professores de arte, 42 eram especializados em artes plásticas, 3 em música, 5 em teatro, 10 em desenho geométrico e nenhum em dança. Estes dados demonstravam uma lacuna na formação dos profissionais de arte, que até recentemente frequentavam cursos de licenciatura em Educa- ção Artística com habilitações em teatro, artes visuais (incluindo desenho geométrico) e música, conforme requerido pela LDB 5.692 de 1971. Contudo, esta formação polivalente geralmente era insuficiente – principalmente em música – e não oferecia aprofundamento no conhecimento pedagógico específico de cada área; e, como a grande maioria dos cursos focava as artes visuais, esta ainda era a principal área de atuação dos egressos.
Outra questão mais crítica refere-se às atividades vocais (sem objetivo educacional
Atividades Musicais na Escola
31% 15% 11% 7% 2% 4% 6% 24%
Música e outras artes
Música em outras disciplinas Educação musical
Grupos instrumentais Coro/grupos vocais extra-classe
Grupos instrumentais extra-classe
Outras atividades
Sem resposta
Atividades em sala de aula (Respostas m últiplas)
31% 16% 7% 7% 5% 7% 1% 26% Aprecição musical Execução vocal Técnica e Literatura musicais
Execução instrumental
Confecção de instrumentos Composição
Outras atividades
propriamente dito), ao uso da música para o ensino de conteúdos de outras disciplinas ou ao ensino de conceitos teóricos – o que é desvinculado do envolvimento ativo com música pela composição, execução e apreciação musicais conforme proposto por Swanwick (1979, 1988). Ainda assim, alguns resultados apontaram para a busca de aulas específicas de música embora o caráter e o foco residam na literatura e apreciação musicais. Neste sentido, a CPE/Osesp considerou importante ampliar a visão dos professores nas suas concepções sobre currículo, ensino, aprendizagem, planejamento e avaliação, para que pudessem rever, adaptar ou aperfeiçoar suas práticas; assim fomentando o desenvolvimento musical dos alunos com maior eficácia e de modo mais abrangente.
Portanto, desde sua criação, as atividades da CPE/Osesp tiveram um papel socio- cultural na medida em que tentavam atender parcialmente uma certa lacuna deixada pelas instituições de ensino superior, que não promoviam, de forma constante e em número suficiente, cursos de formação continuada em educação musical para professores, a fim de supri-los em relação à estruturação do currículo musical. As atividades, portanto, não consistiram em mera adaptação dos projetos das orquestras estrangeiras, uma vez que estes fazem parte de uma conjuntura socioeconômica e cultural em que a educação musical é integrada ao currículo escolar e as atividades apoiadas pela tecnologia estão presentes em todos os níveis de ensino. Por isso, a responsabilidade e as diversas formas de contribuição seriam diferenciadas. Foram priorizados um programa de educação musical para escolas públicas e um programa tecnológico (elaboração de um software e um portal educativo- musical) (vide, adiante, a descrição das atividades).
Além dos objetivos comuns, cada conjunto de atividades (denominado Programa) possuía características específicas em termos de público-alvo, metodologias de implantação e estruturas de avaliação. A utilização de elementos comuns na sua fundamentação pedagógica e metodológica visava à transferência de dados teóricos e práticos, bem como sua aplicação em diferentes contextos educacionais. As propostas eram precedidas por coletas de dados para verificar as reais necessidades e interesses do público- alvo, bem como avaliações formativas que conferiram flexibilidade ao projeto e abertura a reestruturações e adaptações para atender às demandas dos participantes.
Nesse contexto, o objetivo geral proposto inicialmente era propiciar, anualmente, para alunos e professores, um conhecimento musical atualizado e abrangente, que culminasse em um envolvimento direto com música por meio de recursos instrumentais, tecnológicos e bibliográficos. Os objetivos específicos consistiam em:
(1) Instrumentalizar, anualmente, em torno de 300 Assistentes Técnico- pedagógicos de Arte e Professores das redes públicas de ensino, para atuarem como mediadores e facilitadores do processo de ensino e aprendizagem musical de seus alunos, por meio da ampliação de sua consciência sobre a própria prática, a partir de processos de reflexão na ação e reflexão sobre a ação.
(2) Ampliar e aprimorar o universo musical de mais de 15.000 alunos por ano, das redes públicas de ensino, por meio de um envolvimento direto com música enquanto composição, improvisação, arranjo, execução e apreciação, apoiando as atividades com instrumentos de excelência sono- ra e eficácia pedagógica reconhecida e tecnologias de última geração. (3) Propiciar, a diferentes públicos, o acesso às principais perspectivas teórico-práticas em educação, educação musical e música em geral por meio do contato com a mais recente produção brasileira e estrangeira (periódicos, livros e outros recursos audiovisuais). (documentação CPE/Osesp, 2001)
A Figura 224 apresenta a estrutura inicial com cinco vertentes, em que, no Programa educação musical nas escolas, destaco o item (2) Cursos de formação continuada para professores, por ser o foco do presente estudo:
Figura 2: Projeto inicial da CPE/Osesp (2001)
24 Todas as figuras explicativas dos Programas da CPE/Osesp inseridas na presente tese foram criadas por mim enquanto
atuava como coordenadora do departamento. Consistem, porém, na divulgação oficial das estruturas e fazem parte da documentação da CPE/Osesp.
Coordenadoria de Programas Educacionais
Programa Formação de Público Adulto
1) Concertos Didáticos 2) Cursos e Palestras sobre
Música Material de Apoio “c” - impresso e audiovisual Programa Tecnológico 2) Sala Mus&Media e MIDIATECA 1) Portal/Software
Programa Educação Musical nas Escolas 3) Músicos nas Escolas 4) Concertos Didáticos 5) Programas Escolares Material de Apoio “a” -
impresso e audiovisual 1) Mapeamento da Educação Musical nas Escolas Programa de Infraestrutura Espaço da Coordenadoria de Programas Educacionais da OSESP (coordenação, pessoal de
apoio, e atividades educativo- musicais para o público na Sala Mus&Media, armazenamento de
material na MIDIATECA infantil)
Programa Educação Musical na OSESP
1) Atividades musicais duranteos concertos 2) Aulas de música durante a
semana (público externo) 3) Aulas de música durante a
semana (público interno) 4) Outras atividades Material de Apoio “b” -
Algumas destas atividades, materiais e adaptações em espaço físico, inicialmente planejadas, foram substituídas por outras devido às orientações das diversas direções da Fundação no decorrer dos anos. Algumas atividades foram iniciadas em 2001 e descontinuadas em 2003/2004, como as palestras dos músicos da Osesp em escolas públicas e particulares e o Programa Tecnológico (Editor Musical e Portal EduMusical). Algumas estavam já previstas para implementação futura (Educação musical na Osesp e
Formação de Público Adulto), assim como o Programa de Infraestrutura, que dependia da viabilização financeira. Os diretores da Fundação Osesp sempre buscaram estabelecer focos de atividades conforme possibilidades e orientações organizacionais, estruturais, financeiros e políticos (inclusive em respeito ao cumprimento de metas firmadas com a Secretaria da Cultura e instituições parceiras).
Desde o início, foi dada ênfase aos cursos para formação de professores e eventos didáticos, assim como à preparação de material de apoio. A expansão das atividades e materiais se deu a partir de 2004, quando foram iniciadas parcerias com várias orquestras para a realização dos eventos didáticos, que permitiram o atendimento a um público muito maior de alunos e de professores. Os eventos didáticos eram organizados diferentemente:
Ensaios Gerais Abertos da Osesp: os alunos assistiam ao último dia de ensaio de uma orquestra antes de sua apresentação no concerto daquela semana e apreciavam o repertório da temporada (programação) anual de concertos. Os alunos podiam verificar a dinâmica de um ensaio: orientações do maestro para os músicos para o aprimoramento final das obras, as repetições para que cada trecho fosse executado segundo a intenção musical do compositor, etc. Além disso, geralmente os maestros apresentavam os instrumentos utilizados nas obras do ensaio e dedicavam um pequeno período para uma conversa informal com o público, em forma de perguntas e respostas, após a execução das obras.
Concertos Didáticos de orquestras parceiras: os instrumentos eram apresentados de forma mais elaborada, com pequenas demonstrações de seu som ou especificações de suas características, normalmente por um narrador ou apresentador. Além disso, algumas orquestras interagiam com o público (palmas, canto, etc.) e, neste sentido, o repertório e a estrutura do evento eram mais adequados à faixa etária de cada público. Uma das orquestras parceiras também denominava seus eventos de “ensaios gerais abertos”. Como os eventos eram dedicados ao público infantil e o ensaio transcorria sem interrupções e já com iluminação, cenário e figurino, os eventos consistiam praticamente as próprias apresentações. (apostilas dos workshops da CPE/Osesp, 2005)
Entre 2001 a 2006, a CPE/Osesp atendeu a aproximadamente 913 professores nos 40 cursos de formação continuada em educação musical, e mais de 90.000 alunos em seus eventos didáticos, nas atividades nas suas escolas e na Sala São Paulo. No Anexo 1 pode ser visto um resumo das atividades efetivamente realizadas em cada ano, bem como os
totais de público atendido. Cabe ressaltar que alguns professores frequentaram vários cursos no decorrer dos anos. Nestes casos, a participação é considerada sucessivamente (contagem de atendimentos e não de pessoas).
A seguir, serão apresentadas as atividades e materiais desenvolvidos pela CPE/Osesp de 2001 até o ano de 2006, período focalizado na presente pesquisa.