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Após apresentar a concepção de paradigma tecno-econômico como um conceito muito mais amplo que cluster de inovações ou sistemas tecnológicos, Freeman e Perez (1988, p. 48)

destacam que seu conceito de paradigma tecno-econômico refere-se a combinações de produtos e processos inter-relacionados, técnicas, inovações organizacionais e administrativas que determinam o aumento do potencial da produtividade de toda a economia.

A principal característica dos padrões de difusão de um novo paradigma tecno-econômico é sua disseminação, das indústrias ou áreas iniciais de aplicação, para uma variedade de indústrias e serviços em direção à economia como um todo. Portanto, por mudança de paradigma entende-se: transformação radical da prevalecente engenharia e administração pela maior produtividade e práticas mais lucrativas, aplicável na maioria das indústrias (FREEMAN; PEREZ, 1988, p. 48).

Os princípios organizacionais de cada sucessivo paradigma, que justificam a expressão “paradigma tecno-econômico” (ou tecnológico), são encontrados não apenas na nova variedade de produtos e sistemas, mas acima de tudo, pela dinâmica da estrutura relativa de custos de todas as possibilidades de produção. Portanto, em cada novo paradigma tecno-econômico um insumo particular ou grupo de insumos (inputs) podem ser descritos como fator-chave do paradigma. Tais fatores-chave devem apresentar as seguintes características, de acordo com Freeman e Perez (1988, p. 48): tendência de queda dos custos relativos; disponibilidade ilimitada de oferta ao longo do tempo e; ampla aplicação em produtos e processos do sistema econômico.

Cada insumo identificado com fator-chave existiu (e esteve em uso) muito tempo antes do novo paradigma se desenvolver. No entanto, seu potencial apenas é reconhecido quando o fator- chave do “velho paradigma” e sua constelação de tecnologias dão sinais de retornos decrescentes, com expectativas de saturação para aumentar seu potencial de produtividade ou novos investimentos lucrativos. Assim, o explosivo surgimento das inovações inter-relacionadas envolvidas na revolução tecnológica poderia ocorrer antes da própria revolução, de maneira gradual. Porém, existem fortes fatores sociais e econômicos que restringem sua adoção. Só quando a produtividade, ao longo da antiga trajetória, persistentemente limitar o crescimento e os lucros futuros é que os riscos de tentar as novas tecnologias serão justificados (FREEMAN; PEREZ, 1988, p. 49).

Assim, o novo paradigma tecno-econômico pode não ser facilmente aceito de maneira universal, apesar de sua evidente superioridade e maior lucratividade em muitas aplicações, porque existe um forte vínculo cultural e de interesses com o paradigma anterior. Segundo Freeman e Louçã (2001, p. 148):

[...] o que é, freqüentemente, descrito como depressão da onda longa, pode ser um período de grandes turbulências, caracterizado pelo rápido crescimento e elevada lucratividade de algumas firmas e indústrias novas, lado a lado com o crescimento lento, tendência decrescente, ou estagnação em outras, e por conflitos políticos sobre o regime regulatório apropriado. Desordem monetária, elevados níveis de desemprego e disputa de tarifas podem ser fenômenos típicos da transição de períodos de ajuste estrutural. Nesse sentido, o “desajuste” entre a velha estrutura institucional e a nova constelação de tecnologias pode ser resolvido de várias maneiras em diferentes países e diferentes indústrias (tradução nossa).

Estes mesmos autores afirmam, ainda, que existiu no passado e continua a existir uma ampla variedade de mudança institucional em resposta aos efeitos “influentes” (pervasive) das novas tecnologias. Processos autônomos da mudança social e institucional em vários países irão influenciar o processo de difusão. Assim, a difusão do novo paradigma é um processo muito irregular entre firmas, indústrias e países. Alguns serão profundamente afetados de imediato, enquanto outros, afetados ao longo do tempo.

Para Perez (1985, p. 9), a transição para um novo regime tecno-econômico (novo paradigma) não pode proceder de maneira “suave”. Não apenas porque implica em massiva transformação e destruição das indústrias existentes, mas, principalmente, porque o prevalecente padrão de comportamento social e a estrutura institucional foram moldados ao redor das necessidades e possibilidades criadas pelo paradigma dominante. Por isso, segundo esta autora: “quando o potencial do paradigma se esgota, políticas de estímulo não funcionam mais”. Neste sentido, a estrutura institucional se torna um obstáculo ao sucesso do novo paradigma. Sob tais condições, a recessão e a depressão das ondas longas são vistas como uma “síndrome” de um sério desajuste entre a estrutura sócio institucional e a nova dinâmica na esfera tecno-econômica.

Segundo Freeman e Louçã (2001, p. 148):

[...] o conceito de mudança de paradigma de Perez não significa que todas as firmas em todos os países poderão adotar o mesmo modelo de organização, apenas que tais processos como eletrificação ou informatização poderiam ter uma ampla influência mundial na evolução do comportamento das firmas, porém, mediante grande variedade local de adaptação, experimento e experiências históricas prévias. Seguindo o turbulento período de mudança estrutural e a aceitação geral do novo paradigma, um período de grande estabilidade pode resultar, correspondendo, grosso modo, ao ‘boom’ ou expansão da onda longa (tradução nossa).

Conforme Perez (1983), em cada crise estrutural de ajustamento (que caracteriza a depressão da onda longa) há uma periódica re-configuração do “regime de regulação”. Nesse

sentido, a autora destaca a janela de oportunidade gerada pela emergência de um novo paradigma tecno-econômico, em que firmas e economias podem adquirir novas posições, “surfando” a nova onda de inovações técnicas, organizacionais e sociais, ao adaptar seu regime de regulação conforme a necessidade do novo. Sob esta perspectiva, Freeman e Louçã (2001, p. 339) destacam que as mudanças no regime de regulação, tanto em nível nacional como internacional, têm efeito considerável no processo internacional de catching-up e convergência/divergência em cada onda longa, como será visto no próximo capítulo.

Seguindo a interpretação neo-schumpeteriana da história da tecnologia e do crescimento econômico dos últimos dois séculos, cinco ondas longas distintas são identificadas, as quais serão examinadas na próxima seção.

Benzer Belgeler