Retomando e de certa forma enfatizando o j‡ anteriormente exposto, o conceito de expans‹o da linguagem n‹o se restringiu ao cinema, pelo contr‡rio, disseminou-se contagiando v‡rias outras m’dias, e tornando necess‡rio se pensar a expans‹o da
linguagem numa perspectiva do ‰mbito da cultura e de sua consequente repercuss‹o sobre outros c—digos como, por exemplo, o fotogr‡fico.
A fotografia expandiu seus limites, passando de registro fiel da realidade para a percep•‹o de novos tempos e espa•os, estabelecendo o di‡logo com outras linguagens e incorporando, em seu fazer art’stico, recursos dos mais diversos campos da cultura, dos meios de comunica•‹o, de outras formas de manifesta•›es art’sticas e artes visuais, como a performance, a instala•‹o, a escultura, a pintura, o v’deo. como artes visuais, performance, instala•‹o, escultura, pintura etc.
Neste contexto, o artista fica livre para lan•ar m‹o dos mais diversos recursos tŽcnicos e tecnol—gicos, suportes e linguagens para criar uma obra capaz de expressar suas inten•›es estŽticas, politicas, Žticas, entre outras caracter’sticas. S‹o estas as diretrizes da fotografia expandida. No entanto, sobre a concep•‹o do conceito de fotografia expandida propriamente, devemos ainda lembrar a figura de Rubens Fernandes Jr. (2002), importante estudioso da fotografia brasileira e que aponta como sendo AndrŽas MŸller- Pohle, cr’tico, fot—grafo e editor da revista European Photography, quem primeiro definiu o conceito de fotografia expandida.
Para MŸller-Pohle (1985), a fotografia expandida Ž aquela que rompe com a tradi•‹o visual fotogr‡fica inaugural e amplia sua —rbita conceitual no que diz respeito ˆ produ•‹o da imagem fotogr‡fica. Ainda de acordo com MŸller-Pohle, fazer fotografia pressup›e uma sŽrie de interven•›es em diferentes momentos do fazer fotogr‡fico, como, por exemplo, no plano da produ•‹o da imagem, por interfer•ncia no objeto fotografado, no aparelho que fotografa ou na pr—pria fotografia, tanto no negativo quanto no positivo; e, ainda mais, por interven•‹o no plano de distribui•‹o ou do consumo social de imagens fotogr‡ficas.
Em suma, dentro do conceito de fotografia expandida, devem ser considerados todos os poss’veis tipos de manipula•‹o da imagem, que se estendem desde a interfer•ncia nos procedimentos fotogr‡ficos, propriamente ditos, atŽ a intera•‹o entre diferentes meios e que, ao final, conferem a esta linguagem um car‡ter inovador, que amplia seus limites e provoca uma reorienta•‹o de seus paradigmas, tornando a fotografia uma atividade estŽtica renovadora.
As palavras do cr’tico e curador Tadeu Chiarelli bem resumem o que mencionamos a respeito fotografia expandida: Ò... trata-se de uma fotografia contaminada pelo olhar, pela exist•ncia de seus autores e concebida como ponto de intersec•‹o entre as mais diversas modalidades art’sticas, como o teatro, a literatura, a poesia e a pr—pria fotografia tradicional.Ó (CHIARELLI, 1999, p. 115).
Incutido no conceito de expans‹o da linguagem, est‡ a ideia de um c—digo que vai alŽm de seus limites prŽ-estabelecidos, ampliando suas possibilidades atravŽs da experimenta•‹o, do uso de novas refer•ncias, novas materialidades, e novos procedimentos; enfim, da possibilidade de lan•ar m‹o de especificidades de diferentes meios para viabilizar uma ideia. Sobre isso, claramente se manifesta Machado : Òas fronteiras formais e materiais entre os suportes e as linguagens foram dissolvidas, as imagens agora s‹o mesti•as, ou seja, elas s‹o compostas de fontes as mais diversas Ð parte Ž fotografia, parte Ž desenho, parte Ž v’deo, parte Ž texto produzido em geradores de!caracteres e parte Ž modelo matem‡tico gerado em computador.Ó (MACHADO, 2007, p. 69).
Diante desta integra•‹o de formatos, meios, suportes e linguagens apropriados pela proposta da expans‹o da linguagem fotogr‡fica, verificamos as conex›es desta linguagem com a hibridiza•‹o e a converg•ncia dos meios, o que vai instituir um panorama ainda mais amplo de reflex‹o e produ•‹o art’stica no ‰mbito da linguagem fotogr‡fica.
Deste modo, se retomarmos a ideia de que cada meio de comunica•‹o disp›e de caracter’sticas pr—prias, e de que o universo da cultura permite a conviv•ncia e a troca rec’proca entre diferentes meios de comunica•‹o e artes, teremos o j‡ mencionado hibridismo. Nada mais do que um interc‰mbio das especificidades de cada meio que, ao final, provoca novas perspectivas de express‹o art’stica origin‡rias de mistura ou de compartilhamento das linguagens. Isso nos permite constatar o quanto estas experimenta•›es transculturais engendram renova•›es na linguagem fotogr‡fica. ƒ capaz de ampliar as perspectivas de express‹o das linguagens ....
A fotografia expandida apresenta-se, ent‹o, como uma rica vastid‹o de possibilidades e de inova•›es para compor o panorama da fotografia contempor‰nea, mas os aspectos conceituais entrela•ados ao longo de nossa investiga•‹o te—rico conceitual nos oferecem
uma gama ainda mais vasta de possibilidades de reflex‹o e investiga•‹o sobre este campo de linguagem que implicam as ideias propostas pelo conceito de expans‹o da linguagem.
Cap’tulo V
S
ITUANDO O CONCEITO DE INSTALA‚ÌO NO CAMPO DAS ARTESË luz das considera•›es j‡ desenvolvidas neste trabalho, consideramos que a fotografia, objeto de nosso estudo, claramente se insere no contexto da fotografia expandida e, portanto, recorre a diferentes linguagens para dar conta de sua concep•‹o art’stica. Mas h‡ um outro aspecto que Ž comum a esses trabalhos fotogr‡ficos: o fato deles serem concebidos numa escala e com caracter’sticas que os desloca do suporte fotogr‡fico tradicional, que limita a imagem a um enquadramento bidimensional. Com base em nossa observa•‹o, esses trabalhos fotogr‡ficos prop›em um di‡logo entre a linguagem fotogr‡fica e a estŽtica da instala•‹o, ultrapassando, assim, os par‰metros estabelecidos pela tradi•‹o da linguagem fotogr‡fica.
Instala•‹o Ž conceito proveniente do campo da historia da arte cujo conhecimento Ž bastante relevante para avan•armos em nossas reflex›es, uma vez que estas envolvem a concep•‹o de instala•‹o fotogr‡fica. Para situar, faremos de in’cio o resgate hist—rico, tomando como ponto de partida o significado do termo Òinstala•‹oÓ do dicion‡rio Oxford de Artes: Òinstala•‹o - termo que entrou em voga na dŽcada de 70, designando assemblages* ou ambientes* constru’dos numa galeria ou museu para uma exposi•‹o em particular.Ó (CHILVERS, 1996, p. 271).
Assemblage Ž palavra de origem francesa, que tem seu sentido associado ˆ ideia de
montagem. Baseia-se no princ’pio de que todo e qualquer material pode ser incorporado a uma obra de arte, criando um novo conjunto com sentido ainda mais amplo, mas mantendo seu sentido original. Refere-se tambŽm a trabalhos feitos a partir de colagens produzidas mediante o emprego de diversos materiais, como papŽis, tecidos, madeira, objetos e materiais tridimensionais. ƒ uma forma de trabalho que permite, inclusive, que o artista ultrapasse os limites da superf’cie pict—rica, estabelecendo rela•‹o entre a pintura e a escultura, por exemplo.
J‡ o termo ambiente foi empregado pela primeira vez por Allan Kaprow, em 1958, para descrever seus ambientes, que eram espa•os transformados. Sobre isto, Julie Reiss afirma que Òantes do termo instala•‹o art’stica tornar-se parte do vern‡culo da arte
contempor‰nea, havia o termo ambiente (Environment), que foi usado por Allan Kaprov em 1958 para descrever seu trabalho multim’dia que ocupava todo um ambiente.Ó (REISS, 1999, xi). Posteriormente, a ideia de ambiente foi adquirindo novo significado, como na Land art, que passou a se referir a uma forma de manifesta•‹o art’stica que se volta para o espa•o, que o incorpora ˆ obra e/ou a transforma.
A Land art teve sua import‰ncia por ter mudado a forma como as pessoas pensavam a arte, pois, ao se deslocar para fora da galeria ou do museu, direcionando-se para a paisagem, para o ambiente natural, ela tambŽm deixou de ter o aspecto de mercadoria, j‡ que as interven•›es no ambiente natural n‹o podem ser comercializados no mercado da arte. Consequ•ncia bastante importante Ž que essa expans‹o da obra de arte convoca o espectador a se relacionar com o espa•o, n‹o como observador distanciado, mas como parte integrante do trabalho.
Associemos agora a ideia de ambiente ˆ trajet—ria do artista alem‹o Kurt Schwitters, para resgate hist—rico e melhor compreens‹o do conceito de instala•‹o art’stica.