A palavra fotografia, em um contexto mais técnico, vem do grego: foto que significa “luz”, e grafia, que significa “escrever”, “gravar”, ou seja, o registro de imagens produzidas pela ação da luz sobre papel sensível. Outro significado para a palavra fotografia, atribuída pelos japoneses, é “sha-shin”: reflexo da realidade (LIMA, 2001), ou seja, uma representação social, uma forma do homem se expressar visualmente. Essa dualidade remete à fotografia a dupla condição de linguagem e forma de expressão visual.
Por meio dela, cria-se um “arquivo de vida”, com o registro de todos os momentos considerados importantes, sejam de caráter estritamente pessoal ou de caráter coletivo, com enfoque particular ou profissional. Dessa maneira, passou a
fazer parte da rotina das pessoas, principalmente nos dias atuais, constituindo-se em testemunha, de acontecimentos e fatos diversos.
Exatamente por produzir o olhar de quem a produziu, a fotografia tem certo grau de ilusão (KOSSOY, 2001), pois, ao ser construída, capta aquilo que o fotógrafo deseja mostrar com base em enquadramentos, ângulos de tomada, iluminação etc. Ou seja, a imagem retratada, ao mesmo tempo em que apreende o real, reflete o ponto de vista de seu autor.
Ao ler uma imagem, é necessário observar que, além do aspecto objetivo, do domínio da técnica e do equipamento, existe um comportamento subjetivo que depende da vivência, da percepção e da sensibilidade do autor. Quando as pessoas se empenham em entender e dar sentido ao mundo, elas o fazem com emoção, sentimento e com paixão. (LIMA e SILVA, 2007, p. 6)
A fotografia traz em si uma mensagem que é produzida por alguém, transmitida por algum tipo de mídia absorvida por um receptor que dela fará uso, mesmo que apenas no nível de uma visualização despretensiosa. Todavia, qualquer que seja o uso que se fará dela, o receptor, ao interpretá-la, será influenciado por suas próprias imagens mentais e por todo o aparato cognitivo, cultural, ideológico, religioso, político, etc., que adquiriu durante os anos e que é parte da sua vida.
A maneira de analisar uma imagem é concebida de formas distintas por vários autores. Há, todavia, um consenso que nomeia alguns aspectos que podem interferir diretamente no significado de uma imagem e que, por isso, precisam ser identificados.
O conhecimento dos elementos da linguagem fotográfica, que é adquirido a partir de uma base técnica da realização da fotografia, possibilita uma maior compreensão da capacidade narrativa e do conteúdo dramático contido em cada foto. O que irá reforçar o conteúdo da imagem fotográfica é a disposição dos elementos para a composição do campo visual. No entanto, para a efetiva compreensão desta mensagem, o espectador irá buscar, em sua bagagem (memória visual) e na sua concepção de mundo, elementos de equivalência para chegar a uma dada interpretação. (LIMA e SILVA, 2007, p. 6).
Autores como Manini (2007) baseiam-se nas ideias de Panofsky27 (1976) para analisar imagens e propõem respostas para algumas perguntas extraídas da fotografia no momento da análise:
27 Erwin Panofsky foi um arte historiador que defendia a ideia de que até mesmo em uma análise menos elaborada feita a uma obra, existira sempre uma relação entre conteúdos e aspectos formais, enquanto a disciplina de história da arte, da época, era dominada pela preocupação com a forma e a análise estilística.
[...] quem ou o que aparece na imagem (descrição ou nome das pessoas e/ou lugares); que lugar aparece na imagem (localização espacial e geográfica); quando foi realizada a tomada (indicação de data, tempo cronológico ou ocasião); como são ou estão os principais elementos da imagem (complementação da descrição inicial); o que indica esta imagem (traço, a marca, o sinal). As respostas a estas perguntas devem ser dadas com base em informações concretas provenientes da imagem ou de seu referente. (MANINI, 2007, p. 57).
Muitos aspectos importantes, portanto, devem ser observados no momento da análise, entretanto, particularmente, para esta pesquisa, algumas questões interessam mais do que outras. Entre elas, o fato de a fotografia ser um fragmento de uma “realidade”, um modo particular de olhá-la, e que só pelo fato do enquadramento, em um papel, já se retira a imagem de seu contexto original e, dependendo do lugar onde circule, neste caso em um portfólio, deve ser considerada em novo contexto (COUTINHO, 2006).
Outra questão a ser considerada é a relacionada ao plano da imagem. Para Duarte (1998), os planos determinam o distanciamento da câmera em relação ao objeto fotografado, levando-se em conta a organização dos elementos dentro do enquadramento realizado, verificasse que a distinção entre os planos não é somente uma diferença formal, cada um possui uma capacidade narrativa, um conteúdo dramático próprio. É justamente isso que permite que eles formem uma unidade de linguagem, pois a significação decorre do uso adequado dos elementos descritivos e/ou dramáticos contidos como possibilidades em cada plano.
Usando a nomenclatura cinematográfica, cada será explicitado para, didaticamente, facilitar as definições dos enquadramentos ajudando seu estudo. Os planos dividem-se em três grupos principais: plano geral, plano médio, primeiro plano. Uma mesma fotografia pode conter vários planos, sendo classificada por aquele que é responsável por suas características principais:
� Plano geral: o ambiente é o elemento primordial. O sujeito é um elemento dominado pela situação geográfica.
� Plano médio: sujeito ou assunto fotografado ocupa boa parte do quadro, deixando espaço para outros elementos que deverão completar a informação. Esse plano é bastante descritivo, narrando a ação e o sujeito.
� Primeiro plano: enquadra o sujeito dando destaque ao gesto, à emoção, à fisionomia, podendo também ser um plano de detalhe, onde a textura ganha força e pode ser utilizada na criação de fotografias abstratas.
Também é comum utilizar a expressão “segundo plano” para se referir a assuntos, pessoas ou objetos, que mesmo não estando em destaque ou determinando o sentido da foto, têm sua importância.
A questão da relação figura e fundo na fotografia também é uma questão que interessa para a análise das imagens do corpus da pesquisa. Essa relação pode ser atrelada ao ângulo em que a fotografia foi realizada, pois o posicionamento da câmera pode ocorrer tanto na mesma altura do sujeito, como também abaixo ou acima dele. Ao fotografar com a máquina de "cima para baixo" (mergulho) ou de "baixo para cima" (contra mergulho), a preocupação reside na impressão subjetiva causada por essa visão (COUTINHO, 2006).
A máquina, na posição de mergulho, tende a diminuir o sujeito em relação ao espectador e pode significar derrota, opressão, submissão, fraqueza do sujeito; enquanto que o contra mergulho pode ressaltar a sua grandeza, sua força, seu domínio. Evidentemente, essas colocações vão depender do contexto em que forem usadas.
A questão da cor na fotografia também será considerada, pois remete a mais imediata evidência da visão. Ela pode propiciar uma maior proximidade da realidade, limitando a imaginação do espectador, o que já não acontece nas fotos preto e branco que fornece, nos meios tons, a sensação de diferença das cores. A escolha do colorido vai determinar diferentes respostas do espectador, já que as cores também são uma forma de sugerir a realidade.
Entende-se, portanto, a partir do exposto, a importância da fotografia na constituição dos portfólios, já que a análise do corpus deste estudo, tomado como enunciado concreto, considera o contexto (mais imediato e mais amplo) de produção, circulação e recepção dos portfólios, o sujeito-enunciador e seu(s) interlocutor(es) e a materialidade verbo-visual, que constituem as marcas de um sujeito que tem um lugar histórico e social determinado, com o objetivo de compreender os discursos instaurados nas esferas que os concebem, no caso deste estudo, a escola, a família e a sala de aula.
As questões discutidas acima serão retomadas no próximo capítulo, por meio da descrição das categorias de análise utilizadas, bem como pela apresentação do contexto de produção desta investigação.