Na formação do romance, o romance de formação. Lukacs identifica que Dom Quixote surge quando o cristianismo começa a declinar, quando se anuncia a apostasia divina e ao homem, solitário e sem pátria, cabe apenas amparar sua alma num mundo sem âncora, a escrever seu próprio destino individualmente sem esquecer que houve um tempo em que os deuses conversavam com o espírito; nostalgicamente, Quixote tenta transpor o Paraíso na terra embora seja ciente de que os heróis não pertencem à terra, senão àquela a ser descrita nos papéis do poeta. “O que não passava de um simples perigo no universo de conto de fadas”, diz Lukacs, “tornou-se aqui um ato positivo, uma luta pelo Paraíso na realidade feérica”359: a busca da palavra libertadora é a chave para abrir o Éden.
Adorno, por sua vez, destaca que Cervantes, ao elaborar Dom Quixote, evidenciou a forma individualista de narração, de modo que é exaltada a “capacidade de dominar artisticamente a mera existência360”. Ian Watt caracteriza o romance moderno como uma forma literária que representa cabalmente uma nova reorientação, cujo critério fundamental torna-se a fidelidade à experiência individual361. Duplo vetor que corresponde o autor e o leitor construindo-se mutuamente, sem nunca serem idênticos. O autor escreve para poder ler a si mesmo; o leitor lê para poder (re)escrever a si mesmo.
359 LUKÁCS.Teoria do Romance.Tradução Alfredo Margarido. Lisboa: Editorial Presença, s/d. p. 106 360 ADORNO, Theodor W. Notas de Literatura I. Tradução de Jorge de Almeida. Rio de Janeiro: Editora 34, 2009. P. 55
361 WATT, Ian. A Ascensão do Romance. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. P. 14-15
129
É nesse sentido que, modernamente, a individualidade realiza-se quando se torna ciente de si mesma ao querer realizar-se: o romance, enquanto finalidade e meio de formação, quer se formar e, nesse querer cujo objeto é o próprio querer, se estabelece. Como efeito principal, a escrita se dirige a si mesma: sem público, pois o público não existe, já escreve Schlegel, “não é uma coisa, mas um pensamento, um postulado, como uma Igreja362”. No romance, realiza-se o indivíduo: mas só se realiza enquanto cria provisoriamente seu mundo ex-crypto.
Deformação de uma realidade dada e indicação de uma possibilidade a ser criada, a poesia infinita enquanto contínua escrita, enquanto romance de formação, trata-se de um projeto, não de um projeto preocupado com a compreensão alheia, com a leitura aprazível de um espectador inerte, mas configura um projeto de exercício, uma prática de um novo cuidado-de-si inerente ao pensar racional. “Aliás”, diz Schlegel, “pode muito bem ser uma exigência da razão que todo homem deva ser poeta e filósofo”363. Exercitar-se ao se formar ao infinito, escreve Novalis:
Poética transcendental trata do espírito antes que se torne espírito. Em psicologia química e mecânica reina uma constante destruição das individualidades aparentes. Na poética transcendental é apenas um indivíduo grosseiro e ordinário. Na prática poética, trata-se de formas individuais - ou de um indivíduo formado ao infinito364.
Transcendentalmente, como condição de possibilidade, há sempre a folha em branco de um romance porvir. Livrar-se é tornar-se livro. Reunir e combinar novas formas: reescrita infinita.
Nesse sentido, a conjunção entre teoria e prática, entre poesia e poética, leitura e escrita, projeta-se para a reconciliação dos opostos: da arte e da vida, da palavra e da ação. Reconciliação essa que inevitavelmente aponta para um tempo originário, conciliado, tempo em que o dizer e o fazer eram intricados. Ao querer dizer, o artista quer fazer a si mesmo: a poesia deixa de ser apenas uma produção de conhecimento, é também autocriação. Autocriação que indica o tempo em que, pela palavra, mundo era criado, magicamente pela operação do verbo que transmutava a voz em realidade. Assim, ao deixar de ser mera contemplação e representação, a poesia infinita apresenta- se enquanto magia ativa, como um espelho mágico que reconstrói a visão do mundo. Aqui é preciso notar que escrever não é substituir o real ou criar um mundo fora do
362 SCHLEGEL, F. O dialeto dos fragmentos. Op cit., p. 25 363 SCHLEGEL, F. O dialeto dos fragmentos. Op cit., frag. 321. 364 Borrador Universal, frag. 51, p. 29
130
mundo, mas se trata de produzir uma nova visão da realidade. Quixote vive no mundo de todos, mas vê o seu mundo: sua ficção enquanto fragmento, enquanto visão necessariamente incompleta, mas que aspira ao Absoluto, deve ser tomada no sentido de uma mônada leibniziana, mundo próprio e delimitado, mas que também é parte, é unidade dentro de um todo orgânico harmônico e infinito.
Três aspectos conexos aparecem, portanto, nesta lógica. Do ponto de vista temporal, surge o imperativo da reconciliação, da busca por uma Idade de Ouro, tempo imemorial em que “as raças humanas amavam e geravam-se em eternos jogos nas nuvens multicores”, conforme diz Novalis, “em mares flutuantes e mananciais de tudo o que na terra existe”365. A poesia infinita reuniria, com sua nova linguagem, todas as coisas que foram posteriormente cindidas na queda do homem pós-babélico.
Do ponto de vista do artista, a poesia infinita seria uma contínua autocriação, em que só existe enquanto o autor a executa, enquanto meio que se consome em si mesmo, meio que experimenta o caminho da escrita ao mesmo tempo em que se perde no seio de um itinerário incerto. Duplo movimento que contrapõe e colide sentimento e reflexão: reflexão sobre escolher cada letra, cada palavra, cada frase, cada imagem, e, ao mesmo tempo, o sentimento de ser escolhido por cada letra, cada palavra, cada frase, cada imagem. Aspiração nostálgica de um finito que quer se dissolver no infinito, fundindo sujeito e veículo.
Do ponto de vista da obra, esta tem uma existência própria, sendo mais que seu autor, sendo revelação de um “corpo inconsciente e próprio de um poder superior”366. A obra não pertence ao artista, antes, porém, o artista é quem pertence à Obra. “Le livre” dizia para Mallarmé que o livro era para se terminar em vida: formar-se significa ser reescrito, transformar a consciência pessoal em consciência orgânica, ser pára-raios de uma força de cima, força que para tocar a terra prescreve a lei espiritual da ironia “que para ser cheio, cada um se esvazie”.