2. KAYNAK ÖZETLERİ
2.3. Mannan-Oligosakkarit ve Akvakültürde Kullanımı
A palavra nos muros é uma palavra imposta pela vontade de alguém, situe-se ele no alto ou embaixo, imposta ao olhar de todos os outros que não podem deixar de vê-la ou receptá-la.
Italo Calvino Mas a quem cabe, em última instância, a autoridade sobre a instituição do arquivo?
Jacques Derrida
É do diálogo entre as epígrafes acima que partiremos para pensar o princípio nomológico do arquivo em sua relação com as literaturas de Jorge Luis Borges e Italo Calvino. É a esses autores, em particular, que cabe a autoridade arcôntica sobre a qual aqui refletimos; são eles que impõem, por meio de seus textos-arquivos, a palavra nos muros, fazendo ecoar uma determinada literatura – aquela que compõe a biblioteca que organizam – e produzindo a reverberação de um cânone de obras dignas de rememoração. Além disso, os dois atuam no sentido de arquivar a si mesmos, tornando-se por meio de textos dos mais diversos tipos (como as autobiografias, as entrevistas ou depoimentos e as cartas tornadas públicas, por exemplo) objetos desse grande manancial de memórias e influências que é a tradição literária.
É e o e do ao p p io a ui o do a ui o , o o i os a i t oduç o a este capítulo, que Derrida traçará também o princípio nomológico que é um de seus definidores: retomando o arkhêion grego, que o pensador francês apresenta como sendo uma casa – mais especificamente, o domicílio dos magistrados superiores que eram os responsáveis por comandar todos os eventos do local –, ele aproxima o arquivo da questão da autoridade instituinte. Quem institui o arquivo, quem é o responsável por determinar seu início, por estabelecê-lo enquanto tal? Nesse ponto marca-se incisivamente a relação do arquivo com o poder e a política:
Levada em conta sua autoridade [dos magistrados superiores] publicamente reconhecida, era em seu lar, nesse lugar que era a casa deles (casa particular, casa de família ou casa funcional) que se depositavam então os documentos oficiais. Os arcontes foram os seus primeiros guardiões. Não eram responsáveis apenas pela segurança física do depósito e do suporte. Cabiam-lhes também o direito e a competência hermenêuticos. Tinham o poder de interpretar os arquivos (DERRIDA, 2001, p. 12-13, grifos do autor).
Tem-se, daí, um duplo poder do arquivo: de um lado, o poder da instituição e da guarda; do outro, o poder da interpretação. Os arcontes não apenas instauram um arquivo e fazem-se responsáveis por sua integridade física, como também fazem oscilar seus sentidos, colocando-o em movimento. Por isso a política do arquivo não é, segundo Derrida, uma questão política como outra qualquer: ao estender-se aos campos histórico, topográfico e nomológico, ela atravessa e permeia o campo político em sua totalidade, não podendo ser pensada de forma localizada e pontual. O controle do arquivo, a ação sobre a memória, é um fundamento do poder, o qual pode levar a situações totalitárias e de extrema violência, como indicamos no tópico anterior. Por isso é fundamental, ao se pensar, desejar e atuar em prol de uma sociedade pautada pela liberdade e pela democracia, que se tenha como it io de ase a pa ti ipaç o e o a esso ao a ui o, sua o stituiç o e sua i te p etaç o DERRIDA, , p. .
Nesse sentido acreditamos ser pertinente (ainda que bastante pontual e restrito) o o i e to ue a ui p opo os pa a a fo aç o de u a ui o da lite atu a , u movimento que procura fazer do diálogo entre pensamentos a base da conformação de uma biblioteca que mescla o centro e a margem, a Europa e a América, a ciência e a ficção, tudo isso a partir de Borges e Calvino. Arcontes e, simultaneamente, inscrições deste arquivo que imprimem à memória, os dois escritores movimentam e fazem oscilar os pensamentos instituídos, por caminhos que ora se aproximam, ora se afastam, mas que não deixam de ter jamais ao menos um breve ponto de contato. Em suas obras, o escritor argentino e o escritor italiano dão relevo à função arcôntica que desempenham, no que ela tem de força, mas também de responsabilidade, e e e e a uilo ue De ida ai ha a de pode de o sig aç o , a o e t aç o das fu ç es de u ifi a , ide tifi a e lassifi a o ue se designou ao arquivo:
Por consignação não entendemos apenas, no sentido corrente desta palavra, o fato de designar uma residência ou confiar, pondo em reserva, em um lugar e sobre um suporte, mas o ato de consignar reunindo os signos. [...] A consignação tende a coordenar um único corpus em um sistema ou uma sincronia na qual todos os elementos articulam a unidade de uma configuração ideal. Num arquivo, não deve haver dissociação absoluta, heterogeneidade ou segredo que viesse a separar (secernere), compartimentar de modo absoluto. O princípio arcôntico do arquivo é também um princípio de consignação, isto é, de reunião (DERRIDA, 2001, p. 14, grifos do autor).
O princípio consignador do arquivo é, assim, também o princípio da coleção: ele diz da constituição, em um novo espaço, de um corpus até certa medida orgânico, de um conjunto que necessita ser ordenado e pensado a partir desta ordenação. Conjugam-se na função do arconte tanto um papel patriárquico quanto um papel classificador e he e uti o: afi al, os do u e tos o s o gua dados e lassifi ados o a ui o se o em virtude de uma topologia privilegiada. Habitam este lugar particular, este lugar de escolha onde a lei e a singularidade se cruzam no privilégio DERRIDA, , p. , g ifos do auto . E essa ideia de p i il gio t az to a out a ap o i aç o o u aspe to da oleç o a respeito do qual refletimos no capítulo anterior: a atribuição de valor.
Nesse contexto, destacar de seu lugar de origem pelo privilégio determinado objeto – citá-lo, arquivá-lo – para inseri-lo em um novo conjunto pode desestabilizar esse conjunto, fazendo com que dele resulte uma outra ordem, um novo cânone, um diverso registro da memória. A questão do valor é assim, como ressaltou Wander Melo Miranda, u a uest o de e ia ue atua e se tido i ula : ao es o te po e ue a lembrança agrega valor ao objeto rememorado, esse objeto contribui para que a própria reminiscência torne-se ais aliosa, de odo ue s o edese hadas as f o tei as de u a t adiç o es ue ida, ue se ost a e t o ple a de atualidade MIRANDA, , p. .
É essa a situação que se verifica, por exemplo, nas conferências dos dois autores preparadas como resposta ao convite para atuarem como Norton Lecturers, conforme vistas no tópico anterior deste capítulo: Esse ofício do verso e Seis propostas para o próximo
milênio não só elevam ao topos privilegiado do cânone – representado pela citação numa
fala a ser proferida em Harvard, no contexto de um evento hoje quase centenário – uma série de textos e autores, como os consignam em uma localização restrita, colocando-os em contato no espaço textual de uma série de conferências que funcionam como uma coleção de objetos rememorados, valorados e inscritos no suporte da palavra: a palavra é grafada no muro, é feita pública e impõe-se a todos aqueles que por ela passam.8
Mas, mais do que isso, ao fazerem de suas literaturas um arquivo, Borges e Calvino as transformam em uma biblioteca da literatura universal, assim como transformam a si em guardiões, arcontes hermeneutas dessa tradição. O que significa ser citado, por e e plo, o o u dos l ssi os de Italo Calvino? Que peso tem para uma obra receber
8No p i o t pi o eto a e os esta uest o da lo alizaç o dos o jetos/te tos/autores num conjunto
u p logo, u a esp ie de a ta de ap ese taç o , de Jo ge Luis Bo ges? Que alo esse movimento arquivante imprime a esse texto/autor arquivado e que deslocamentos provoca no cânone literário, que reviravoltas de sentido, que mobilizações do pensamento implica? Esse movimento de valor, e de memória, atua sobre todo o conjunto que altera, recordando a prateleira hipotética de Calvino, já citada no capítulo 1, mas que nos parece aqui relevante reapresentar:
Um livro é escrito para que possa ser posto ao lado de outros livros, para que entre numa prateleira hipotética e, ao entrar nela, de alguma maneira a modifique, expulse dali outros volumes ou os faça retroceder para a segunda fileira, reclame que se coloquem na primeira fileira certos outros livros (CALVINO, 2009f, p. 190).
É uma situação semelhante à que Fausto Colombo vai designar, retomando as pala as de Gia f a o Betteti i, o o atestaç o , ou seja, e ata e te a a eitaç o so ial de um texto como entidade teste u hal e po o segui te u it ia . Colo o, ue est t ata do do u i e so i e atog fi o, assi o ti ua sua a gu e taç o: e o ue h de melhor para lançar um filme no universo das obras que não poderão (e, em alguns casos, não deverão) ser es ue idas, do ue a pa ti ipaç o u festi al? . Mas o se ia ape as o festi al a i st ia ga a tido a dessa ati aç o p e e ti a do es ue i e to , dessa at i uiç o alo ati a: E o ue, ais ue u a et ospe ti a, ate ializa o fil e e recordação atestada, isto , o es ue ida? COLOMBO, , p. -56). Ainda que dirigidas a outro universo artístico cultural, as colocações de Colombo são adequadas também para pensarmos o contexto literário e o papel arcôntico das ações de Borges e Calvino, que inserem numa antologia ou apresentam numa conferência determinadas obras lite ias, ue ali apa e e o o e o daç es atestadas : esses te tos, esses auto es, o podem e não devem ser esquecidos, e assim nós os citamos, atestamos sua importância, consignamos a eles um lugar no arquivo da literatura.
A instituição do arquivo implica assim uma relação direta de poder e de valor: afinal, conforme se depreende da pergunta de Derrida que abre esse tópico, o início do arquivo depende de um privilégio e de uma autoridade, e acreditamos ter tocado nesse ponto ao refletirmos sobre os livros póstumos dos autores abordados anteriormente. Mas propomos ainda uma breve incursão em dois outros livros de Borges e Calvino que dizem do exercício do papel de arcontes, e que podem ser pensados sob a forma do arquivo e da
biblioteca. Verdadeiros projetos intelectuais de acumulação, perpetuação e renovação de conhecimentos, nesses livros apresentam-se duas imagens emblemáticas para se refletir sobre a multiplicidade e a dinamicidade dos arquivos. Uma delas é a alcachofra, com suas múltiplas camadas de sabores e saberes compiladas em Por que ler os clássicos (CALVINO, 1995a) e sobre a qual nos detemos no Capítulo 1. A outra é o caleidoscópio, reivindicado já no prólogo de O livro dos seres imaginários (BORGES e GUERRERO, 2007), e assim apontando para a reconfiguração dos saberes literários por meio de uma textualidade la i í ti a e i fi ita: [...] O livro dos seres imaginários não foi escrito para uma leitura consecutiva. Gostaríamos que os curiosos o frequentassem como quem brinca com as fo as a ia tes e eladas po u aleidos pio BORGES e GUERRERO, , p. -10). O caleidoscópio, um artefato ótico que trabalha com a formação de imagens metamorfoseantes por meio de fragmentos em movimento refletidos em pedaços de espelhos, se pensado como metáfora de um modo de leitura solicitado diz tanto de uma brincadeira quanto de uma reflexão, diz do movimento constante necessário para que se constitua uma determinada imagem diante de olhos específicos. A cada movimento, a cada olhar que se lança com ele e sobre ele, a cada giro do caleidoscópio todo o arranjo se altera, os reflexos são outros e os espelhos não fazem mais que multiplicar uma diversidade de possibilidades de leitura, de pensamento e de relações com a tradição.
Escrito com a colaboração de Margarita Guerrero, O livro dos seres imaginários apa e e e o o u a segu da e s o a pliada do Manual de Zoología Fantástica (BORGES e GUERRERO, 2001), publicado dez anos antes. No prólogo ao Manual, os autores afirmam seu escopo e sua infinitude – Po de ais, o p ete de os ue este li o, po acaso o primeiro em seu gênero, abarque o número total dos animais fantásticos. Investigamos as literaturas clássicas e orientais, mas nos consta que o tema abordado é i fi ito BORGES e GUERRERO, , p. –, aspectos que no prólogo de O livro dos seres
imaginários aparecem já expandidos9 e mais explicitamente vinculados à ficção e à linguagem:
O nome deste livro justificaria a inclusão do príncipe Hamlet, do ponto, do traço, da superfície, do hipercubo, de todas as palavras genéricas e, talvez, de cada um de nós e da divindade. Em suma, de quase o universo inteiro.
9 Uma vez mais, Borges aposta na expansão daquilo que já é infinito, um dos recursos de seu pensamento e de
Ativemo-nos, contudo, ao que é imediatamente sugerido pela locução
seres imaginários , o pila os u a ual dos estranhos entes
engendrados, ao longo do tempo e do espaço, pela fantasia dos homens. [...]
Um livro dessa índole é necessariamente incompleto; cada nova edição é o núcleo de edições futuras, que podem multiplicar-se ao infinito (BORGES e GUERRERO, 2007, p. 9, grifos meus). 10
Normalmente estudado como um bestiário de seres reais e imaginários, acreditamos que com uma volta no caleidoscópio se pode ler O livro dos seres imaginários por outro ângulo, como um grande arquivo de antigos livros e fábulas, como uma coleção de textos acerca dos animais e de outros seres fantásticos, enfim, como uma biblioteca do que os auto es de o i a se es i agi ios . Seu vínculo com a ficção desenha-se, como vimos, ainda no prólogo, quando Borges e Guerrero, arcontes desses saberes, procuram esta ele e os li ites do ue esta ia o tido o te os se es i agi ios : o li o dedi a- se a ficções, a seres de linguagem forjados pelo homem ao longo do tempo e do espaço, a leituras rememoradas de outros textos, aqui compilados. E é ainda no prólogo que se afirma, também, a questão da incompletude inerente a qualquer projeto arquivístico – e, por extensão, a qualquer biblioteca: se no caso da biblioteca de Babel é ela quem se multiplica ao infinito, aqui o próprio livro – como um livro de areia – é pensado como um desdobramento interminável de referências, como uma memória da literatura.
Composto por verbetes alfabeticamente ordenados, O livro dos seres imaginários aparece assim como uma seleção (uma escolha), uma amostra do universo (um privilégio) po eio de algu s de seus se es i agi ios , t azidos luz at a s da i o aç o de te tos das mais diversas origens temporais e espaciais. Excertos de Franz Kafka, C. S. Lewis, Edgar Allan Poe, Wang Ta-hai e William T. Cox, por exemplo, aparecem como transcrições, compondo verbetes cujos textos integrais são citados entre aspas. Ao lado deles, referências inesgotáveis compõem os demais verbetes: a tradução de Richard Burton para As mil e uma
noites e a História Natural de Plínio, o Velho, convivem amistosamente com obras como as Cartas edificantes e curiosas do padre Zallinger ou o Bundahish. Para a composição dos seres
10 Como vimos anteriormente com Lyslei Nascimento, Borges subverte os elementos textuais que normalmente
servem como orientações de leitura, como prólogos, prefácios e notas de pé-de-página, fazendo com que, em lugar de orientar a leitura, eles a confundam. Se o prólogo de O livro dos seres imaginários a e [...] u a possi ilidade de i st uç o de leitu a (NASCIMENTO, 2007, p. 70), essa i st uç o apa e e, ao o t io da tradicional, com interrupções, como uma brincadeira com as formas variáveis de um caleidoscópio. Tais quais os fragmentos móveis no fundo do caleidoscópio, os verbetes configuram-se como um jogo de espelhos, um
de alguns verbetes, como é o caso da fênix, as referências a outros textos multiplicam-se: encontram-se ali citadas as mitologias egípcia, grega e romana, Tácito, Plínio, o Velho, Heródoto, Claudiano, Ovídio, Dante, Shakespeare e outros mais. 11
É possível, assim, uma leitura de O livro dos seres imaginários como um arquivo dos animais e outros seres engendrados pela imaginação humana ao longo do tempo e nos mais diversos lugares, como um potente arquivo da literatura: os verbetes borgianos garantem a sobrevida de uma série de narrativas, mitos, fábulas e lendas que são aproximados por uma rede ficcional de transformações que os coloca em contato, estabelecendo entre os mesmos diálogos por vezes confluentes, por vezes contraditórios. Observemos, por meio de alguns excertos, como se dá o arquivamento da fênix, de que falamos há pouco:
Em efígies monumentais, em pirâmides de pedra e em múmias, os egípcios buscaram eternidade; é razoável que em seu país tenha surgido o mito de um pássaro imortal e periódico, embora a elaboração ulterior seja obra dos gregos e dos romanos. Erman escreve que na mitologia de Heliopólis a fênix (benu) é o senhor dos jubileus, ou dos grandes ciclos de tempo; Heródoto, numa passagem famosa (II, 73), narra com repetida incredulidade uma primeira forma da lenda: [...] (BORGES e GUERRERO, 2007, p. 34).
Observe-se que, aqui, as fontes retomadas mesclam um lugar histórico e um lugar itol gi o, se do ue ape as a i lus o da le da ue e seguida se ita e t e aspas, a pa ti de He doto, o pai da hist ia i t oduz di eta e te a a ativa, a ficção, a i agi aç o ao te to ai da ue a le da seja a ui o tada pelo pat ia a da hist ia :12
E iste ali out a a e sag ada ue s i e pi tu a, ujo o e f i . Ra as são, efetivamente, as situações em que se deixa ver, e tão de vez em quando que, segundo os habitantes de Heliópolis, só vem ao Egito a cada quinhentos anos, ou seja, quando falece seu pai. Se em seu tamanho e conformação é tal como a descrevem, sua corpulência e sua figura parecem-se muito com as da águia, e suas plumas são em parte douradas, em parte carmesim. Tamanhos são os prodígios que delas nos contam que,
11Vale le a ue o os i te essa os e i estiga a fidedig idade das fo tes i di adas po Bo ges,
conhecido por suas atribuições errôneas ou referências a obras inexistentes. Acreditamos que o que merece atenção, aqui, é o efeito dessa escolha narrativa, que transfere a outro texto a origem da informação por ele apresentada, remetendo sempre a outras leituras, sejam elas reais ou fictícias (a questão do uso do apócrifo por Borges será retomada ainda neste capítulo).
12Os efeitos dessa es la de dife e tes g e os te tuais e a pos do o he i e to se o a o dados o
embora para mim sejam pouco dignos de fé, não me furtarei a relatá-los. [...] BORGES e GUERRERO, , p. .
E assim o Heródoto borgiano prossegue com o relato destes fatos pou o dig os de f , pa a po fi o lui : Eis a ui, seja o ue fo , o ue da uele p ssa o dize BORGES e GUERRERO, 2007, p. 35). Num jogo dentro do jogo, mise en abyme de uma memória da narrativa, ele perfaz movimento similar ao de Bo ges e diz a uilo ue out os dize , o ta o que ouviu da boca de outrem, fazendo de seu discurso uma réplica que, ao mesmo tempo, perpetua uma tradição e desloca a possível origem da narrativa. Ao término da citação da lenda, Borges retoma sua voz para apresentar indiretamente novas referências sobre a fênix:
Uns quinhentos anos depois, Tácito e Plínio retomaram a prodigiosa história; o primeiro com retidão observou que toda antiguidade é obscura, mas que uma tradição fixou o prazo da vida da fênix em mil quatrocentos e sessenta e um anos (Anales, VI, 28). O segundo também investigou a cronologia da fênix; registrou (X, 2) que, segundo Manílio, aquela vive um ano platônico, ou ano magno. Ano platônico é o tempo necessário para que o Sol, a Lua e os cinco planetas voltem a sua posição inicial; Tácito, no Diálogo dos oradores, faz que abarque [o ano platônico] doze mil novecentos e noventa e quatro anos comuns. Os antigos acreditaram que, completando esse enorme ciclo astronômico, a história universal se repetiria em todos os seus detalhes, pelo fato de repetirem-se os influxos do planeta; a fênix viria a ser um espelho ou uma imagem do universo. Para