Das instituições de ensino e pesquisa francesas instaladas no exterior, a EFA foi, de longe, a mais antiga. Criada por um decreto real em 11 de setembro de 1846, ela serviu, direta ou indiretamente, de ponta de lança para o posterior estabelecimento da École Française de Rome (1875), das É oles Sup ieu es d’Alge (1879), do I stitut F a çais d’A h ologie Orientale (1881) e do Institut des Hautes Études Hispaniques (1909). Nesse sentido, a EFA inaugurou uma nova fase da atuação da França no Mediterrâneo: se antes tal presença se fazia sentir por meio de ocupações militares (o que ocorreu no Egito em 1798 e na Argélia em 1830) e de missões temporárias artístico-diplomáticas (tal como a que visitou o Marrocos em 1832), agora se almejava, de modo permanente, fazer ciência fora das fronteiras nacionais1.
A situação política da Grécia Moderna, marcada pela guerra de independência contra o Império Turco desde o início da década de 1820, favoreceu em muito as pretensões francesas. O rei Charles X, em 1827, já havia dado provas disso ao enviar ao Peloponeso, contra os otomanos, um corpo de expedicionários acompanhado de artistas e cientistas. Nas décadas seguintes, com o reconhecimento internacional da autonomia política grega em 1832, um novo incentivo veio da corrida das grandes potências europeias à região, em particular Rússia, Inglaterra e, bem mais tarde, Alemanha. Em que zona de influência o novo país se colocaria? Na dúvida, era recomendável intensificar a presença francesa no local, buscando criar e fortalecer os laços entre os dois países. O prestígio dos estudos sobre a Grécia Antiga no sistema educacional francês forneceu um excelente pretexto.
Os primeiros regimentos da nova instituição foram bastante vagos quanto a seus reais propósitos. No decreto de sua fundação, falou-seà e à u aà Es olaà f a esaà deà aperfeiçoamento para o estudo da língua, daàhistó iaàeàdasàa tiguidadesàg egasàe àáte as ,àa qual seria destinada e lusi a e teà aosà alu osà daà École Normale Supérieure, agrégés das lassesà deà hu a idades,à histó iaà ouà filosofia . Tratava-se, portanto, de uma instituição inicialmente voltada às matérias dos liceus e formada por futuros professores/funcionários do estado francês. Destacava-se ainda a atuação da escola como centro cultural e diplomático, disposto a difundir os ideais franceses entre as elites gregas. Por uma clara guinada pró-ciência da EFA ter-se-ia de esperar até a década de 1870, quando outros institutos estrangeiros
66 (alemães, americanos e ingleses) começaram a se instalar em Atenas e métodos arqueológicos já bem consolidados passaram a ditar a nova vocação da instituição2.
Mas ficam então as perguntas: quem foram os membros da EFA? Como lograram eles obter tal posto? Em que consistiam suas atividades? E, por fim, qual o impacto desse estágio no exterior em suas carreiras? Em se tratando de uma instituição atrelada ao sistema de ensino, era natural que seu recrutamento estivesse atrelado àqueles que almejassem seguir uma carreira ligada à docência e à pesquisa. Já se mencionou antes como, no ano de fundação da escola, poderiam apenas ser candidatos os normalianos bem-sucedidos na obtenção da agrégation, justamente aquele concurso que garantia a seus detentores uma posição no sistema de ensino. Quatro anos mais tarde, contudo, a obrigatoriedade da passagem pela École Normale Supérieure (ENS) caiu, mantendo-se como única exigência o título de agrégé. Tal decisão se manteve inalterada até o final do período aqui tratado3.
Uma vez obtido o certificado nacional, era preciso ainda enfrentar um processo seletivo. Embora nos primeiros anos de existência da EFA a escolha dos futuros membros tenha sido apanágio exclusivo do ministro da instrução pública, a partir de 1850 foi estabelecido um teste específico envolvendo conhecimentos de língua, história e literatura da Grécia Antiga, além de rudimentos de grego moderno4. Quem elaborava as provas e as corrigia eram os integrantes da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, a mesma instituição que, por meio de relatórios e trabalhos publicados, avaliava as atividades científicas da escola e de seus membros. Devidamente dotados da nota desse exame, bem como de uma carta de motivação, de um curriculum vitae atualizado e de cartas de recomendação, os candidatos passavam a depender apenas da decisão do diretor da EFA e do número de vagas disponíveis. Aprovados, eles passavam a ser atenienses .
Esses novos membros, os quais tinham suas despesas de viagens custeadas e recebiam remuneração como funcionários regulares do estado, partiam então por um período de estágio que durava normalmente três anos. Ainda assim, existiram estadas mais longas ou mais curtas, o que dependia tanto dos interesses dos membros e do diretor da EFA quanto do aval positivo da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres. Em Atenas, suas atividades seguiam o planejamento da instituição. Sobretudo a partir de fins da década de 1860, o ano de
2 Cf. RADET, 1901 e VALENTI, 2006A. Vale ti,à o tudo,à ha aàate çãoàpa aàu aà p i ei aào ie taçãoà
ie tífi a à daà EFáà j à aà d adaà deà .à “e à ueà ep ese tasseà aà o e teà do i a teà aà es ola,à argumenta a autora, o trabalho arqueológico de Ernest Beulé sobre a Acrópole testemunharia esse fato.
3 Segundo Catherine Valenti (1996), tal medida não surtiu efeito imediato e, na prática, até 1891, apenas
um não normaliano ingressou na EFA. A taxa mudaria na sequência, em função das políticas de recrutamento dos novos diretores (Théophile Homole, Maurice Holleaux e Gustave Fougères). Segundo essa autora, entre 1891 e 1923, 45% dos membros da EFA passou então a ser de não normalianos.
67 estágio se dividia em duas fases distintas. Os atenienses despendiam a maior parte do verão, da primavera e do outono em missões de prospecção ou em campanhas de escavação. Na Grécia continental, nas ilhas gregas ou mesmo em outros países banhados pelo mediterrâneo oriental (os domínios otomanos na Ásia Menor e no Oriente Médio e o Egito), eles visitavam museus, recolhiam in loco documentos e elaboravam seus relatórios de campo. O retorno a Atenas, nos demais períodos do ano, era utilizado para estudar a fundo as descobertas do período anterior a partir do contato com a bibliografia disponível nas bibliotecas locais e do diálogo com especialistas, sejam eles o diretor da EFA, os universitários gregos ou membros das demais missões científicas internacionais. Tal fluxo ideal de atividades foi, no entanto, constantemente atrapalhado por problemas diplomáticos e/ou orçamentários (novas guerras com os turcos, atrasos no repasse das verbas, entre outros).
Para quem conseguisse suportar os longos períodos longe da terra natal e ainda aproveitar as condições de trabalho locais, tarefas nada fáceis, a EFA se revelava um caminho promissor a ser seguido. Com efeito, na medida em que setores voltados à pesquisa original puderam se consolidar minimamente na universidade francesa a partir de fins da década de 1860, o estágio em Atenas forneceu a melhor alternativa para quem quisesse, almejando atuar com pesquisas, escapar de imediato ao ensino secundário. Desde a fundação da EFA, o estado francês procurou seduzir os candidatos ao manter em suspenso a posição docente que eles ocupariam graças ao sucesso no exame de agrégation. Ainda assim, com a forte expansão universitária nas décadas de 1870 e 1880, muitos de seus membros obtiveram diretamente, ao deixar Atenas, postos na universidade. Em 1905, diante de um mercado já bastante saturado, o governo lhes concedeu ainda mais um incentivo: além da manutenção da vaga, promoção proporcional ao período de permanência no exterior (ou seja, mesmo que nomeados para dar aulas em liceus, eles assumiriam turmas mais avançadas). Desse modo, enquanto seus concorrentes aos postos no sistema de ensino tinham de dividir seu tempo entre a sala de aula e a pesquisa, os membros da EFA se dedicavam em tempo integral, enquanto estivessem em Atenas, à derradeira atividade. De quebra, eles eram incentivados a transformar seus trabalhos em tema de tese. As condições, quanto a isso, eram as melhores possíveis: as séries documentais eram invariavelmente inéditas e todo trabalho científico produzido sobre elas – relatórios e artigos – adiantava significativamente a redação do manuscrito final. O efeito não poderia ser outro: osà atenienses doutoravam-se mais rápido. Como os postos efetivos no ensino superior, à exceção da EPHE e do Collège de France, eram reservados a doutores, tratava-se de uma vantagem nada negligenciável. Por fim, seus membros ainda gozavam do privilégio de ter contatos com alguns expoentes internacionais do helenismo, bem como fortaleciam os laços que os ligavam a seus colegas de escola.
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