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3.5.1 Evolução da teoria das expectativas

Na busca para expressar um método de formação de expectativas capaz de prever séries temporais, surgem os modelos naive, ou ingênuos, que, mesmo contendo menor rigor, proporcionaram aos estudiosos trabalhar com dados de baixo desvio padrão, ou, ainda, quando denotavam variações frequentes ou contínuas. As aplicações com esta modelagem, porém, só seriam eficientes no curto prazo, visto que, no longo prazo a crescente probabilidade de risco de erro tornaria os resultados imprecisos (BALDUSCO, 2009).

Nesse modelo, as expectativas dos agentes econômicos eram formadas apenas a partir do último preço da série que, no curso do tempo, convergia para um estado estacionário por não haver choques aleatórios, assim as expectativas eram evidenciadas a partir de modelos autorregressivos.

Apesar dos modelos naive terem sido considerados uma grande evolução do tema, eles foram superados rapidamente pelo modelo de defasagens distribuídas de Irving Fisher (1930). Tido como precursor da hipótese das expectativas adaptativas, Fisher inovou ao propor que os efeitos não são sentidos de uma vez em período único, julgando necessário que estes fossem distribuídos em um período de maior duração. Para justificar sua hipótese, o autor afirmou que a taxa nominal de juros era determinada pela relação entre a taxa real de juros e a variação dos preços. Assim, no modelo de defasagens distribuídas de Fisher, o efeito de uma variação de preços é tanto menor quanto for sua defasagem temporal do período analisado em questão (BALDUSCO, 2009).

3.5.2 Expectativas adaptativas

A hipótese das expectativas adaptativas foi inicialmente abordada por Arrow e Nerlove (1958), com amparo na concepção teórica de elasticidade das expectativas de Hicks (1946). Dessa maneira, os autores assumem que os agentes econômicos formam suas expectativas de acordo com o passado, uma visão backward looking.

Tomando como exemplo os preços, seria admissível afirmar que os preços passados representam fenômenos de curto prazo, e eles significam a estabilidade do mercado em cada período. Seria inverídica, entretanto, a hipótese de que haveria expectativas

constantes no tempo, necessitando, portanto de algum mecanismo de variação, que estabelecesse os efeitos dos preços passados nos preços presentes (DUYNE, 1982).

Com efeito, estipulou-se que quanto mais remoto for o período a ser analisado menor seria o seu efeito sobre as expectativas. De outro modo, quanto mais próximo do presente for a variação dos dados analisados, maior sua relevância sobre a formação das expectativas, definindo assim expectativas baseadas em uma estrutura de dados passados ponderados pela sua influência.

Em seu trabalho sobre hiperinflações, Cagan (1956) utilizou a teoria das expectativas adaptativas para estudar os fenômenos monetários. Nesse trabalho, o autor aborda a relação entre as variações mensais na quantidade de moeda e no nível de preços em períodos de hiperinflação nos países: Áustria (out/1921-ago/1922), Alemanha (ago/1922- nov/1923), Grécia (nov/1943-nov/1944), Hungria em dois períodos (mar/1923-fev/1924) e (ago/1945-jul/1946), Polônia (jan/1923-jan/1924) e Rússia (dez/1921-jan/1924). Como resultado do seu trabalho, o autor expressa que a taxa de variação esperada de inflação será uma média ponderada das taxas passadas, com os pesos atribuídos conforme uma função exponencial (CAGAN. 1956).

De acordo com Gertchev (2007), a falha da teoria das expectativas adaptativas está em relacionar o comportamento da inflação apenas com a influência de variáveis passadas, sem levar em consideração o complexo conjunto de informações que poderiam ser utilizadas. Baldusco (2009), por sua vez, relata que a possibilidade dos erros das expectativas estarem correlacionados poderia ensejar incertezas nas quais os agentes econômicos não conseguiriam assimilar as informações disponíveis no passado, por exemplo, dos preços ou da inflação, alterando a tendência dos modelos, sendo esta ideia incorporada posteriormente aos modelos de expectativas racionais.

3.5.3 Expectativas racionais

O arcabouço teórico associado às expectativas racionais foi proposto pela primeira vez por John F. Muth no começo dos anos 1960. O termo foi usado com o objetivo de descrever situações em que os eventos futuros dependem de como os agentes econômicos esperam que irão de fato acontecer e, assim, tomam as suas decisões no presente, reunindo informações relevantes. Segundo Muth (1961), o preço de um produto agrícola dependerá de quantos hectares os agricultores, em seu conjunto, plantarem que, por sua vez, dependerá dos preços que os agricultores esperam que irão acontecer (SARGENT, 2015)

O uso da hipótese das expectativas racionais ganhou destaque nos anos de 1970 por meio dos trabalhos seminais de Robert Lucas, publicados em 1972 e 1976. O autor foi responsável por popularizar o vínculo entre as expectativas racionais e a macroeconomia, promovendo verdadeira revolução ao fazer criticas profundas aos modelos macroeconométricos da época e ao relacionar essa teoria com a avaliação de políticas econômicas (LUCAS, 1987).

Snowdon e Vane (2005) dividem as expectativas racionais em duas maneiras, fraca e forte. A fraca tem por definição na elaboração das expectativas racionais fazerem com que o agente econômico escolha a informação mais eficiente sobre o valor futuro de uma variável, tendo como objetivo maximizar a utilidade da pessoa. Por conseguinte, a forma forte provém do trabalho de Muth (1961). Sugere esse que a previsão dos agentes e a previsão da teoria econômica serão as mesmas para os eventos pósteros, admitindo erros na previsão. Muth (1961) ainda sugere que se as previsões fossem diferentes poderiam existir chances de grandes lucros pelos conhecedores da teoria, com o comércio de bens ou vende de serviços de previsão (FERREIRA, 2014).

Na literatura existe um conflito entre economistas e psicólogos no concernente à suposição econômica da racionalidade do comportamento humano. Tversky e Kahneman (1986) contestam a concepção de que as pessoas maximizam a utilidade esperada e têm expectativas racionais. Para os autores as pessoas não possuem preferências estáveis. Já Manski (2017) salienta que, em ambientes econômicos instáveis, com chances improváveis de o agente econômico aprender com suas experiências, as expectativas racionais são menos plausíveis.

Existem, no entanto, vários estudos sobre as expectativas racionais e sua influência na economia. Lemos (1989) analisa o papel das expectativas inflacionárias dos preços agrícolas (flex prices) sobre a inflação então prevalecente nos anos 1980 no Brasil. O trabalho aborda o papel da política monetária ativa sobre as variáveis macroeconômicas: taxa de juros, desemprego e inflação. O autor concluiu que as expectativas em torno da formação dos preços agrícolas exerciam papel importante nas expectativas inflacionárias daqueles anos de forte instabilidade monetária (LEMOS, 1989).

Com base em dados históricos sobre a renda nacional per capita e a temperatura nacional, Burke, Hsiang e Miguel (2015) concluíram que as mudanças climáticas poderiam reduzir a renda per capita mundial em mais de 20% até o ano 2100. Em vista desse impacto, levanta-se a questão: os agricultores familiares estarão preparados (e em razão disso, sofrerão menos) quando tais choques ocorrerem no futuro?

Schlenker e Roberts (2009) utilizaram distintos modelos de mudanças climáticas para prever possíveis influxos em longo prazo sobre rendimentos futuros. O trabalho desses autores fornece um aviso precoce sobre os desafios futuros que serão enfrentados se os procedimentos de produção continuarem utilizando as técnicas atuais. Alguns autores mais otimistas, entretanto, ao analisarem o impacto dos choques climáticos do passado na produção agrícola, constataram a capacidade dos agricultores dos EUA de se adaptar às mudanças climáticas (OLMSTEAD e RHODE, 2011; KAHN, 2016).

Ante o exposto, entende-se neste trabalho que para a agricultura, a teoria das expectativas racionais pode ser de utilidade para que os produtores estabeleçam a “melhor suposição para o futuro” (a previsão ótima), com esteio nas das informações disponíveis.

Benzer Belgeler