O desenvolvimento de uma política para a pesquisa e exploração de petróleo e, de forma mais ampla, a questão energética se vinculam ao debate maior que envolveu o processo de industrialização do Brasil. A literatura especializada costuma destacar que a década de 1930 representou um momento de virada no sentido de uma nova configuração sócio-política169, quando
se verifica, do ponto de vista econômico, o início do predomínio da indústria como setor dinâmico170.
sobre o problema e orientando os projetos propostos. Roberto Simonsen, utilizava, ainda nos anos 1930, o conceito de “industrialização”, mas a mudança mais importante se dará com a transformação da categoria de “atraso” na de “desenvolvimento”. Esse processo se dá entre as décadas de 1930 e 1950, passando respectivamente pelas formulações de Roberto Simonsen, Caio Prado Júnior e Celso Furtado. Sobre a ocorrência do termo “industrialização” em Simonsen, cf., por exemplo, SIMONSEN. As Finanças e a Industria. Conferencia realisada
no Mackenzie College, em São Paulo, a 8 de Abril de 1931. São paulo Editora Limitada, [s/d], p. 41. A respeito da
contribuição de Simonsen para o debate conceitual, ver CEPEDA, Vera Alves. “A construção do conceito de subdesenvolvimento no pensamento econômico brasileiro - a contribuição de Roberto Simonsen e Celso Furtado”. In: IV Encontro Ibérico de História do Pensamento Econômico, 2005, Lisboa - Portugal. IV Encontro Ibérico de História do Pensamento Econômico - Anais. Lisboa-Portugal: ISEG - Universidade Técnica de Lisboa, 2005. v. único.
169 Cf. FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930. Historiografia e História. 16ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997; OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista. O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003; BIELSCHOWSKY, Ricardo. Pensamento econômico brasileiro. O ciclo ideológico do desenvolvimentismo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 1995; FURTADO, Celso. A formação econômica do Brasil. 23ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1989.
De acordo com Dean, a indústria nasce como consequência do capital cafeeiro171. Seja como
consequência das necessidades de modernização da estrutura do país – portos, ferrovias – para que se viabilizasse o crescente negócio do café, seja como resultado do beneficiamento de mercadorias importadas destinadas ao consumo em uma economia especializada quase em um único produto172,
a indústria emerge vinculada, direta e indiretamente, às atividades do café, submetida às necessidades e determinada pelas contradições de uma economia de exploração de produtos tropicais voltada para o mercado externo173. Na década de 1930, este panorama começa a ser
sensivelmente modificado.
Acompanhando o debate sobre o petróleo, intensificado a partir do início desta década, se percebe que, ao lado das transformações econômicas e políticas, começa a se construir um campo de pensamento que se constituirá efetivamente apenas após meados da década de 1940, na esteira do conceito de desenvolvimento. Nos transcurso destes quinze anos de gestação174, a mudança das
ideias de progresso e atraso para a de desenvolvimento175, e o tateamento de conceitos para abarcar
as transformações em curso ou que se almejava – “maquinização”176, “industrialismo”,
“industrialização”177, etc – indicam se tratar de um processo ainda embrionário. O surgimento de
uma política industrialista, a elaboração de um pensamento que aponta o desenvolvimento da indústria como fim último que garantiria um lugar ao sol ao país, a recusa, portanto, da teoria das vantagens comparativas e da crença na vocação agrária do Brasil, determina e é determinada por um processo histórico, não podendo ser entendido em termos de “evolução natural”. Ao contrário, se trata do desafio de construir um país industrial a partir de uma configuração originária de subordinação como região periférica. Passava-se, portanto, por um processo de aprendizado, o que inclui o ensaio dos caminhos possíveis para a modernização nacional.
A partir destas considerações introdutórias, pode-se dizer que também a questão petrolífera estava submetida, no princípio, às necessidades da economia cafeeira. Inicialmente, o petróleo era tratado como um insumo secundário necessário para levar a mercadoria economicamente mais importante – o café – de um ponto a outro – da fazenda ao porto. A principal atividade estava alicerçada na força de trabalho do campo. Por isso, a importação de óleo era tão somente um
171 Cf. DEAN, Warren. A Industrialização de São Paulo (1880-1945). São Paulo: Difusão Europeia do Livro/ EDUSP, 1971.
172 BARBOSA, Alexandre de Freitas. Op. cit., p. 190.
173 Cf. PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. Colônia. São Paulo: Brasiliense/ Publifolha, 2000.
174 Cf. BIELSCHOWSKY, Ricardo. Op. cit., p. 247 et. seq. 175 Cf. CÊPEDA, Vera Alves. Op. cit.
176 LOBATO. Escandalo... cit, p. 251. 177 Cf. SIMONSEN. Idem.
problema de balança comercial. Isso explica porque apenas em torno a década de 1930 a questão passa a ser tratada com mais importância, experimentando progressivamente, junto às reivindicações da indústria e à formulação de um pensamento industrialista, a sua autonomização. A crescente presença da máquina significava uma paulina mudança no modo de produção, pela qual a junção máquina-petróleo começa a ser entendida como a verdadeira fonte de riqueza. Não é acaso que dois grandes pioneiros da defesa da industrialização do país – Monteiro Lobato e Roberto Simonsen – passem a medir a riqueza nacional em termos da força produzida pela energia mecânica aqui disponível178. Por isso, a dependência externa de energia – importação de carvão e
petróleo – inicialmente entendida como uma preocupação secundária – a principal era com as oscilações no mercado do café – aparece, durante esse novo período, como problema de primeira ordem.
A questão do petróleo nos anos 1930 apresenta importantes especificidades. Em primeiro lugar, é neste período que o tema passa a se apresentar como um problema de âmbito nacional, ou seja, experimenta uma projeção sobre a opinião pública do país e se apetrecha de um discurso nacionalista. Neste momento, a identificação do petróleo como questão nacional não estava necessariamente vinculada – como acontecerá posteriormente – ao Estado. O período vê surgirem grupos oriundos da iniciativa privada que procuram não apenas se colocarem como o único caminho eficaz para o desenvolvimento da atividade, mas ainda intentam se fazer depositários e porta-vozes dos interesses nacionais. Essa configuração é, em relação a estruturação futura da questão petrolífera, sui generis. Soma-se a isto um detalhe que não é sem importância: a presença diretora de um consagrado literato nacional. Monteiro Lobato, escritor há mais de uma década identificado com demandas nacionalistas específicas, com razoável capital simbólico e social acumulado, possuindo, portanto, grande legitimidade como porta-voz dos interesses nacionais, faz despertar um conjunto de expectativas que, no mínimo, contribuem para identificar a demanda pelo petróleo como uma questão nacional. Além disso, o escritor procura igualmente se fazer, tanto junto ao governo federal como diante da nação, representante e porta-voz das diversas companhias nacionais de petróleo, orientando seu capital simbólico e social no sentido de sua conversão em capital econômico e apoio político.
Este é, sobretudo, um momento de experimentação, quando a possibilidade de se desenvolver uma indústria petrolífera nacional por meio de segmentos da iniciativa privada é colocada em teste e determina, em parte, as orientações estatistas que se desdobram. A falência da
iniciativa privada conduzida por Monteiro Lobato é, ao mesmo tempo, sua vitória e desgraça. Ela obtém êxito ao colocar o petróleo como uma demanda nacional, com reverberação na opinião pública, mas também prova o seu fracasso estrutural em conduzir a solução para o problema a que aponta. Do ponto de vista do governo federal, aquela falência ratifica a importância do papel estatal. A iniciativa particular, sobretudo pela caneta de Monteiro Lobato, construiu a imagem de um governo central contrário às suas demandas. Na verdade, ocorria, por parte do executivo federal, uma indecisão entre as soluções estatal e privada. Próximo ao fim do período, no momento em que Monteiro Lobato e seus parceiros privados davam sinais de exaustão, o executivo federal se inclina mais decididamente para a via estatal, criando, em consonância com a política do Estado Novo, o Conselho Nacional do Petróleo.
Adiante, procuraremos nos debruçar sobre a atuação petrolífera de Lobato e dos segmentos do setor privado a ele ligados. Tomamos como referência os anos entre 1930 – início efetivo da atuação de Lobato na atividade – e 1941 – ano da prisão do escritor e marco do término de sua campanha.