BAZ ALINAN YILLAR Bankalar
1. Malmquist Endeksi Uygulama Sonuçları
Como já mencionamos, a forma como nos expressamos linguisticamente revela uma perspectiva particular de estruturação do mundo. Mesmo que utilizemos termos ditos mais convencionais, como „amor‟, „ódio‟, „tristeza‟, nossa fala denota parte de uma carga semântica que foi construída ao longo da vida, e o esquema conceptual que emerge é uma elaboração para certa emoção em dado momento. Metáforas e metonímias conceptuais são capazes de sugerir tal construto, posto que são ferramentas indispensáveis para a elaboração da maioria dos conceitos, especialmente dos abstratos. Em outras palavras, ao dizer que alguém está fervendo de raiva, o mapeamento metafórico entre o domínio-alvo RAIVA e outro domínio-fonte, mais concreto, como FLUIDO QUENTE EM UM RECIPIENTE, subjaz essa interpretação para o conceito de emoção,
embora para um observador desatento esse modo de falar se constitua apenas como uma instância da vida cotidiana. Assim, “pular de alegria”, “perder tempo”, “ganhar o maior prêmio” não são expressões comumente assumidas como construtos metafóricos porque estão tão arraigadas em nossa fala cotidiana que se tornaram convencionais.
Para Kövecses (2010c), metáforas conceptuais constituídas automática e inconscientemente não necessitam de esforço cognitivo para serem elaboradas: para o autor, elas
28 Aqui, retomamos a afirmação de Sellars (1963 [1991]), para o qual há a percepção como comportamento
discriminatório, em nível pré-linguístico e, portanto, apenas reconhecido, e a há a percepção do espaço lógico das justificações, que elabora tais conceitos de modo consciente por meio da exploração linguística.
estão em um nível supra-individual, que consiste de um sistema altamente convencionalizado e estático de mapeamentos entre domínios-fontes mais físicos e domínios-alvo abstratos. Por esse motivo, ao ouvirmos (41-f) Ao ouvir a ofensa, sentiu uma onda de raiva tomando conta de si., temos a impressão de que o conceito RAIVA possui o sentido que tomamos tradicionalmente por literal –
isto é, não reconhecemos que há um mapeamento entre domínios que subjaz o sentido do enunciado (no caso, RAIVA É UMA FORÇA NATURAL). De acordo com Kövecses (2000), a metáfora é um dos principais processos a partir do qual o sistema cognitivo produz a realidade não-física, e isso inclui mundos políticos, sociais, psicológicos, emocionais, etc. – por esse motivo, não podemos confundir metáforas linguísticas com metáforas conceptuais.
Na conceptualização de emoções estão envolvidos aspectos universais e culturalmente especificados. O primeiro relaciona-se à tese da mente corpórea, em que o corpo é base para a elaboração conceptual: os atributos envolvidos na construção de metáforas conceptuais podem ser características físicas e perceptuais do corpo humano compartilhadas durante a experiência de uma emoção. As experiências corpóreas são motivadoras da emergência de metáforas e metonímias conceptuais, observando-se que, em culturas diversas, as respostas fisiológicas são parte da expressão linguística das emoções, como o aumento (ou a diminuição) da temperatura corporal, a pressão interna, vermelhidão na face e na área do pescoço (KÖVECSES, 2002b), empalidecimento do tom da pele, tremedeira, reações na região do estômago, entre outras. Por esse motivo, metáforas e metonímias conceptuais relacionadas a emoções são muitas vezes elaboradas conforme as experiências sensório-motoras e cognitivas mais básicas, podendo ser encontradas em línguas diversas e, portanto, tendo potencial para universalidade. Uma metáfora é compreendida por indivíduos de um mesmo grupo, ou de uma mesma cultura, porque eles compartilham a maioria das metáforas convencionais (LAKOFF; TURNER, 1989). De acordo com Emanatian (1995) a similaridade metafórica entre culturas tem sido atribuída, primeiro, à fixação de metáforas cotidianas na experiência e, segundo, ao compartilhamento, por todos os humanos [panhuman], de experiências básicas.
A partir de muitas dessas experiências corpóreas derivam metáforas primárias (Grady, 1997a; 1997b), como FELICIDADE É PARA CIMA, TRISTEZA É PARA BAIXO, FUTURO É PARA FRENTE, IMPORTÂNCIA É TAMANHO, PROXIMIDADE É CALOR, além da metáfora conceptual que
direciona muitos dos conceitos relacionados a emoções: O CORPO É UM RECIPIENTE PARA EMOÇÕES.
[...] os principais mapeamentos que compõem [a metáfora conceptual] podem estar baseados em experiências universais e percepções metafóricas, a saber, que as emoções estão dentro do recipiente corpóreo; que as emoções estão correlacionadas a fluidos corporais, tais como o sangue; e que o controle está mantendo a substância dentro do recipiente. Em outras palavras, não somente metáforas simples ou primárias podem ocorrer em diferentes línguas e culturas, mas também aquelas metáforas conceptuais complexas que têm mapeamentos baseados em experiências e percepções amplamente compartilhadas (KÖVECSES, 2005, p. 38).
A visão da metáfora como corpórea, neste caso, que pressupõe características universais, tem sido complementada pela percepção de que fatores sociais e culturais também têm um papel relevante na produção e na compreensão de metáforas (KÖVECSES, 2005). De acordo com Sinha e Jensen de López (2000), a conceptualização e a categorização das experiências não nascem exclusivamente por causa da natureza dos corpos que temos, mas devido à interação com outros corpos. Todo o tipo de interação motivará, ou restringirá, o surgimento de novos conceitos. Isso pode explicar por que alguns conceitos parecem ser potencialmente universais em relação a outros que variam de cultura para cultura.
Se metáforas inconscientes são motivadas por ligações com a experiência, então deve haver um estoque de metáforas conceptuais comuns para o que é básico para nossa experiência como humanos que possuem corpos, habilidades cognitivas, e modos de interação no mundo similares. Histórias culturais particulares, contudo, emprestarão nuanças de variação a essas metaforizações compartilhadas [...] (EMANATIAN, 1995, p. 166).
Em vários estudos, Kövecses (2000; 2002a; 2002b; 2005; 2008a; 2008b; 2010c) sugere que emoções são construídas por meio desses mecanismos conceptuais e através da influência da cultura. Assim, para Yu (2003), o cenário sociocultural filtra essas experiências para domínios- alvo específicos: o autor relata que falantes de chinês conceptualizam a raiva como se tivessem um gás em um container, e não um fluido, como ocorre para falantes de inglês e português, por exemplo. A metáfora mais geral para RAIVA, RAIVA É UM FLUIDO QUENTE EM UM RECIPIENTE
(LAKOFF; KÖVECSES, 1987), deriva de duas fontes: (i) do esquema de imagem RECIPIENTE,
que captura aspectos diversos dessa emoção, e (ii) do fato de essa metáfora ser preferencialmente elaborada em acarretamentos metafóricos e em vocabulário convencional (KÖVECSES, 2000), como em (41-i) Ele fez o meu sangue ferver., e (41-e) Ele explodiu (de raiva)!
Nesses casos, as metáforas conceptuais estão todas relacionadas a aspectos fisiológicos dessa emoção, sendo originadas em um nível mais básico por meio da metonímia conceptual geral para emoções: OS EFEITOS FISIOLÓGICOS DA EMOÇÃO SÃO A PRÓPRIA EMOÇÃO (LAKOFF, 1987, p. 382). Kövecses (2005, p. 40) complementa esse ponto ao mostrar que, para o conceito
RAIVA, compartilhamos várias metonímias conceptuais que representam os efeitos fisiológicos
REPRESENTA A RAIVA;e VERMELHIDÃO NO ROSTO E NO PESCOÇO REPRESENTAM A RAIVA. Essas características fisiológicas conceptualizadas metonimicamente dão motivação para a elaboração de metáforas como A PESSOA COM RAIVA É UM RECIPIENTE PRESSURIZADO, além de restringirem
a forma como o conceito é construído.
A pesquisa de Lakoff e Kövecses (1987) sobre a conceptualização da raiva levou a estudos comparativos de metáforas conceptuais relacionadas a essa emoção em diferentes línguas e culturas, como inglês, húngaro, japonês, chinês, wolof (língua africana falada no Senegal e em Gambia). Em todas essas culturas, a metáfora conceptual RAIVA É PRESSÃO EM UM RECIPIENTE
foi encontrada, a qual tem ligação com a metáfora EMOÇÃO É FORÇA. Em inglês, assim como em português, a metáfora RAIVA É UM FLUIDO QUENTE EM UM RECIPIENTE emerge com bastante
frequência na fala cotidiana. Por analogia, então, entende-se que um fluido quente exerce pressão nas paredes do recipiente (o corpo humano), como vimos no conjunto de exemplos em (41): os diferentes sentidos possíveis para RAIVA são expressos de acordo com o grau dado à pressão no
recipiente. Note-se que os enunciados (41-i) “Ele fez o meu sangue ferver.” e (41-e) “Ele explodiu!”
podem trazer à tona uma interpretação de que a raiva sentida tem grande proporção, e que também pode chegar ao seu grau máximo (no segundo enunciado). Já em (41-g) “Deixe as coisas
esfriarem”, o item “esfriar” incita a inferência de que a pressão no recipiente corpóreo gerada pela
raiva pode ser diminuída gradualmente. Tais exemplos demonstram que a expressão linguística revela a compreensão para determinados conceitos de emoções; ao falarmos sobre o que sentimos, deixamos pistas contextuais a respeito dos domínios-fontes que utilizamos, bem como levamos nosso interlocutor a elaborar implicaturas a respeito de como, exatamente, pensamos acerca de determinada emoção.
Exemplos como esses demonstram que o corpo tem papel fundamental na construção de conceitos relacionados a emoções. Inclusive, de modo geral, à metáfora conceptual O CORPO É RECIPIENTE PARA EMOÇÕES, que é potencialmente universal, está ligada a metáfora EMOÇÃO É FORÇA, podendo estar relacionada a diferentes tipos de força: humana (EMOÇÃO É UM OPONENTE, como em “Lutei contra minha tristeza”), animal (EMOÇÃO É UM ANIMAL SELVAGEM,
como em “o povo rugia por vingança.”), física (EMOÇÃO É UMA FORÇA MAGNÉTICA/GRAVITACIONAL, em “Fiquei atraída por ele.”), natural (EMOÇÃO É UMA TEMPESTADE, em “Aquela tempestade de sentimentos desesperava-o.”), ou uma força que influencia a percepção humana ou pensamento
(EMOÇÃO É INSANIDADE/RUPTURA, em “Ele é louco por ela”). De fato, a maioria das pessoas
conceptualiza suas emoções nesses termos: aquilo que levaria ao surgimento de uma emoção seria uma causa que tem força para mudar um estado, daí a metáfora conceptual geral CAUSAS SÃO FORÇAS (KÖVECSES, 2008a). A força, nesse sentido, levaria a algum tipo de efeito (fisiológico,
comportamental, expressivo), que deve ser controlado. Nesse sentido, para Kövecses (2000), metáforas relacionadas a emoções possuem um padrão geral de força-dinâmica, nos termos de Talmy (2000). Esse autor entende a força-dinâmica como uma categoria semântica que converge para a forma como as entidades interagem em relação à força: o emprego da força, a resistência a essa força, a superação do obstáculo criado por essa resistência, o bloqueio da expressão dessa força, a remoção desse bloqueio, entre outros (TALMY, 2000, p. 409-470). Assim, itens, ou expressões, lexicais envolvidos nessa relação de força não referem apenas a interações físicas de força, mas a uma extensão metafórica, em que interações sociais e psicológicas são concebidas como pressões psicossociais (TALMY, 2000, p. 409).
Em geral, a força-dinâmica emerge como um sistema nocional fundamental que estrutura o material conceptual que pertence à interação de força de uma maneira comum em um âmbito linguístico: domínios de referência e concepção físicos, psicológicos, sociais, inferenciais, discursivos e de modelos mentais (TALMY, 2000, p. 410).
É por esse motivo que grande parte das expressões emocionais está relacionada a algum tipo de força, seja ela causal, ou que impulsiona a alguma ação, ou ainda que desloca o próprio ser:
(45) Fúria toma conta do centro de Atenas.
(51) A raiva a compeliu a dar um tapa na cara dele. (52) Eu lutei contra a raiva que eu sentia.
(53) A tristeza me transformou.29
Esses padrões estão ligados aos processos cognitivos que utilizamos para construir esses conceitos, cujo conteúdo é especificado por influência do meio. Isso significa que a capacidade de metaforização ou, num nível mais geral, de processar inferências do tipo mapeamentos metafóricos e metonímicos, é uma habilidade universal. O resultado desse processo pode ser a geração de metáforas potencialmente universais, ou de metáforas altamente influenciadas pelos contextos que o indivíduo assume como background. Nesse sentido, a variação pode ocorrer conforme experiências diversas, as quais envolvem aspectos físico, social, cultural, histórico, contexto comunicativo e interesses pessoais e do grupo, bem como por preferências cognitivas
29 Além disso, Kövecses (2008a) afirma que algumas das metáforas de emoção poderiam incluir: EMOÇÃO É CALOR /
FOGO; EMOÇÃO É UMA FORÇA NATURAL; EMOÇÃO É FORÇA FÍSICA; EMOÇÃO É UM SUPERIOR SOCIAL; É EMOÇÃO É UM OPONENTE; EMOÇÃO É UM ANIMAL CATIVO; EMOÇÃO É UMA QUEIMADURA.
(KÖVECSES, 2005, p. 293), que envolvem um foco experiencial, preferência de ponto de vista, elaboração de protótipos e de frames para enquadramento dos domínios-fonte.
Enfatizamos que a emergência da metáfora é simultaneamente moldada pela corporeidade e pela cultura (KÖVECSES, 2005, p. 292), além de ser inextricavelmente regulada pelo contexto dinâmico. Esse ponto é defendido por Gibbs e Cameron (2008), os quais afirmam que o desempenho metafórico é moldado por processos discursivos em uma interação dinâmica contínua entre a cognição individual e o ambiente social e físico. Desse modo, a dinamicidade da ação humana molda padrões coordenados de comportamentos adaptativos, simples ou complexos, os quais são “produtos altamente ordenados de processos de auto-organização que emergem de interações intra e interpessoais” (GIBBS; CAMERON, 2008, p. 65). Abordagens dinâmicas enfatizam a dimensão temporal de processos sociais e cognitivos, além das formas pelas quais o comportamento de um indivíduo emerge da interação entre cérebro, corpo e meio, incluindo as interações com outras pessoas. Desse modo, a ênfase nesse tipo de abordagem auxilia a descrever e explicar interações do corpo com o mundo em um continuum, as quais se manifestam a partir da interação comunicativa.
De maneira geral, a criatividade metafórica é consequência da comunicação online. Kövecses (2010c) afirma que ela pode ser também delimitada por fatores como:
i. Criatividade induzida pelo domínio-alvo: metáforas novas e não-convencionais podem emergir não apenas de mapeamentos fixos entre um domínio-fonte e um domínio-alvo; de fato, os mapeamentos podem partir dos domínios-alvo (que em mapeamentos convencionais seriam domínios-fonte).
ii. Criatividade induzida pelo contexto: mais uma vez, demonstramos a importância do contexto para a construção de conceitos e significados. Kövecses (2010c) explica que a conceptualização ocorre porque há duas dimensões envolvidas nesse processo: aquela relacionada à variação intercultural, e a que ocorre dentro de uma cultura. Além disso, a criatividade na construção de metáforas pode ser induzida pelo contexto, que o mesmo autor distingue como
Global e Local; o primeiro está relacionado ao grupo de fatores contextuais que afetam todos os
membros de uma comunidade de fala em dado período – mesmo que esses atinjam os falantes de maneiras diversas – e o último é entendido como os fatores contextuais imediatos que se aplicam a conceptualizadores particulares em situações comunicativas específicas. Kövecses (2005) afirma que o contexto local envolve: (1) o cenário físico imediato; (2) o que sabemos sobre as entidades que participam do discurso; (3) o contexto cultural imediato; (4) o cenário social imediato, e (5) o contexto linguístico imediato (para maiores detalhes, ver KÖVECSES, 2010b; 2011). Nosso argumento é que o contexto local se constituiria como um contexto dinâmico, online, construído
conforme a interação comunicativa se desenrola e, portanto, os aspectos que fazem parte dele são imediatos. Os elementos que a ele se unem, como aspectos culturais, históricos e sociais, entre outros, serão referidos como contexto global, ou off-line. Trata-se de uma manobra metodológica para distinguir contexto online de outros planos da comunicação, os quais passam a participar ativamente da interação.
É a partir da influência de um contexto online que os elementos constituintes dos mapeamentos se situam conforme seu foco de significado principal (KÖVECSES, 2005), já referido neste capítulo. Por isso, a expressão linguística não é arbitrária; a maneira como referimos algo está diretamente ligada ao modo como nos relacionamos com o mundo. Uma pessoa ligada à área das artes poderá dizer que o amor é construído com pincéis delicados; da mesma forma, um engenheiro irá designar alguém que se mostra indiferente emocionalmente como se essa pessoa fosse uma máquina – a área de atuação de cada indivíduo pode vir a ser um ponto de partida na nomeação de algo, pois é a partir de suas experiências que constrói e compreende sua realidade. Esse foco de significado principal está ligado ao mecanismo de atenção seletiva, conforme Langacker (1987; 2008), e defenderemos, nos próximos capítulos, que esse é constituído porque somos naturalmente guiados por expectativas de relevância. Assim, além de estar relacionada a influências culturais ligadas a níveis específicos de domínios fonte e alvo, a variação metafórica pode ser resultado de escolhas preferenciais no uso de domínios conceptuais que se sobrepõem. Essas variações, segundo Kövecses (2005) podem ocorrer tanto entre culturas quanto dentro de uma mesma cultura, e, nessa última, as variações metafóricas decorrem de dimensões diversas: (i) social; (ii) étnica; (iii) regional; (iv) estilística; (v) subcultural; (vi) diacrônica; (vii) de desenvolvimento; e (viii) individual (p. 88-106). Não explicitaremos cada uma das dimensões por não ser esse o foco de nosso estudo, mas é importante salientar que a variação conceptual, decorrente dessas dimensões, reflete perspectivas diferentes e, portanto, é geradora de metáforas novas e criativas.
O papel do contexto dinâmico e com os demais cenários contextuais tem sido tema dos trabalhos mais recentes de Kövecses (2010a; 2010b; 2010c; 2011), tendo em vista que a Teoria da Metáfora Conceptual é constantemente criticada por conceber metáforas e metonímias como estruturas altamente convencionais e estáticas (KÖVECSES, 2010c), e as análises de enunciados metafóricos normalmente estão deslocadas de quaisquer informações situadas em discursos reais. Dessa forma, essa abordagem torna difícil o tratamento das ocorrências de metáforas novas e criativas, tendo em vista que essas envolvem mapeamentos complexos, muitas vezes com mais de dois domínios conceptuais.
É necessário observar, também, que na teoria em questão não há clareza sobre como apenas alguns elementos contidos no domínio-fonte são selecionados para fazerem parte do mapeamento metafórico e de que maneira fazem emergir a interpretação de determinada metáfora conceptual. Assim, em (54) Quando ela ouviu as boas notícias, sentiu-se flutuando., podemos identificar metáforas conceptuais subjacentes, como FELICIDADE É PARA CIMA e ALEGRIA É LEVEZA, mas a seleção dos elementos PARA CIMA e LEVEZA como elementos do domínio-fonte, em detrimento de outros, não é explicada teoricamente. Outro exemplo pode demonstrar essa falha teórica: em (55) Para ela, o momento mais doloroso da relação foi quando percebeu que finalmente o
havia perdido., percebe-se que, através das experiências vividas no relacionamento amoroso, o
falante conceitua o amor através da metáfora O AMOR É DOR, mesmo com dois domínios
conceptuais abstratos – o que torna esse tipo de metáfora um caso diferente do que se costuma lidar, mas possível, segundo Kövecses (2005, p. 266). Nesse caso, há um domínio conceptual para
AMOR e outro para DOR, mas a ideia expressa pelo enunciado de que o relacionamento amoroso
foi tão difícil que o indivíduo sentiu uma dor metafórica ao final dele se perde no momento em que se tenta fazer as correspondências de acordo com a Teoria da Metáfora Conceptual. A partir do enunciado, compreende-se automaticamente qual a sua metáfora conceptual subjacente, pois a escolha lexical incita essa elaboração, mas a preferência na escolha por elementos relacionados nos domínios fonte e alvo para fazerem parte da interpretação não é clara.
As metáforas conceptuais têm um papel crucial na elaboração e na construção de conceitos abstratos (LAKOFF; JOHNSON, 1980), mas Barsalou (1999) demonstra que elas não
são suficientes para representá-los. Para o autor, uma representação direta, não-metafórica, de um
domínio abstrato é necessária porque essa constitui o entendimento mais básico desse domínio (alvo, no caso) e também guia o mapeamento do domínio concreto até ele. Na perspectiva de Barsalou (1999), “um domínio concreto não pode ser mapeado sistematicamente para um domínio abstrato que não tem conteúdo”30
(p. 600, itálicos nossos). Kövecses (2005; 2010a) observa esse ponto em uma direção inversa: guiado pela noção de foco de significado principal, um indivíduo pode criar aspectos de conceitos abstratos que não existiam previamente, em que conceitos de domínios-fonte particulares são usados para a criação de abstrações.
Barsalou (1999) explica que, para conceptualizar o domínio-alvo RAIVA, os indivíduos
acessam seu conhecimento direto sobre essa emoção, o qual envolve três fontes da experiência: (i) a avaliação [appraisal] acerca do evento que se inicia; (ii) a experiência em relação a estados afetivos intensos; e (iii) respostas comportamentais e expressão de emoções. A partir delas, o mesmo autor afirma que símbolos perceptuais – ou conceitos – para estados introspectivos são
centrais para a representação de conceitos abstratos, e esses são mais proeminentes de acordo com o mecanismo de atenção seletiva. Assim, para o autor, se um conceito abstrato tem uma representação direta com base na percepção – em sentido amplo – e essa pode ser a base para os domínios-alvo sobre os quais um mapeamento metafórico é executado, há uma sobreposição de símbolos perceptuais. Tais processos variam do conceito direto abstrato à metáfora conceptual para dada emoção, em que a linguagem metafórica seria o resultado de um pensamento cujas associações produzem uma conceptualização metafórica. Daremos atenção especial a esse tipo de mapeamento nas próximas seções deste capítulo, definindo com maior especificidade o que entendemos por conceitos.
Como afirma Kövecses (2011), uma questão essencial em relação a metáforas para conceitos abstratos é se elas realmente criam (aspectos de) conceitos abstratos ou simplesmente