Reconhecemos uma dívida para com o caso clínico: por um lado, deixamo-nos levar para onde o enigma apontava e para onde os sinais se apresentavam. Agora, feita esta longa travessia, gostaríamos de realizar um último esforço para tentar nomear os acontecimentos que sucederam ao longo do tratamento, isto é, de religar o aprendizado ulterior com seus fundamentos iniciais.
Beatriz sustentava uma forma peculiar de questionamento sobre o amor. Duvidava dos homens, duvidava da mãe, assim como duvidava do amor e, no entanto, supunha existir um sentimento pleno, o único digno de entrega.
Chegou ao consultório queixando-se de uma falta de vitalidade em suas relações pessoais. No decorrer de cerca de dezoito meses deste tratamento, o clínico entendeu (ou não entendeu!?) que suas intervenções não produziam efeito ou não eram suficientemente compatíveis com o material que a paciente trazia às sessões. Agora, compreendemos que a forma sistemática com a qual Beatriz manejava seu discurso, repetitiva e refratariamente, pode ser escutada como ilustração de uma dinâmica que pretende preservar seu narcisismo diante da disposição do clínico – talvez excessiva – em querer controlar ou assegurar a instauração da transferência. Sustentamos que este desejo do clínico tenha levado Beatriz a recusar sua satisfação, em acordo com sua posição subjetiva.
Ao buscar um espaço onde tratar de suas investigações, dá mostras de seu funcionamento: elege os assuntos que lhe ocupam a mente, segue um determinado caminho de apresentação de si e, mais importante, mostra, com suas reações ao analista, um tipo de laço que diz muito de seu funcionamento particular. Uma parte de suas produções precisava ficar protegida da vista do analista, e as consequências desta posição produziram suas consequências no atendimento e, em última instância, reverberaram o movimento que conduziu a este trabalho. O analista, por sua vez, talvez quisesse ver tanto, que deixou de perceber tais sutilezas.
Embora capaz de notar muitos aspectos da dinâmica psíquica da paciente, o clínico teve dificuldade de escutar o que se produzia na transferência. As formas que encontrou para lidar com esta dificuldade podem se mostrar reveladoras de duas facetas: a primeira, dos seus próprios pontos cegos, ou seja, as maneiras que seu repertório de formação oferece para representar o vivido no decorrer do tratamento. A segunda faceta remete ao que é possível pensar que Beatriz oferece para seus laços.
Uma das perguntas latentes no decorrer do tratamento assim se formula neste momento: como contribuir para que um paciente se escute e se aproprie de suas questões
íntimas? O momento de passagem de uma dinâmica à outra talvez possa ser novamente discutido. Supomos encontrar ali uma mudança para outra forma de discurso, que incluísse e fizesse o reconhecimento de mais elementos para sustentar os questionamentos de Beatriz. Os indícios: passou a dirigir-se ao analista, passou a estranhar seu próprio comportamento diante de sua mãe e de seu namorado, perguntou-se se era a causadora de alguns desentendimentos nas relações. Descobriu contradições, ambiguidades em si. Se já sabia delas, ainda assim o fato de compartilhá-las em sessão mostrou-se evento inédito. Diante de uma resistência, ou de uma transferência por demais rígida ao convite às questões, faz-se inevitável indagar sobre os limites do tratamento ou dos instrumentos para tal impasse. Talvez possamos concluir: sem que a sedução atinja certos objetivos e possa operar, causando desvios libidinais, a análise deve ser considerada como impotente para determinado caso. Não nos esqueçamos, porém, que tal efeito de impotência poderia ser considerado justamente o resultado de uma transferência histérica.
Considerados todos os insights iluminados ao longo dos capítulos anteriores, diremos que existe um amplo campo erótico a ser pensado em termos de relação transferencial. Pelo viés positivo (quando há) ou negativo (quando não há), cabe questionar sobre este campo latente: a relação que o sujeito mantém com seus enigmas – sejam eles quais forem, ainda que todos falem de enigmas fundamentais: o enigma das origens e o enigma da diferença sexual – e o tipo de erótica que o sujeito estabelece com a busca pelo objeto causador de seu desejo. Para nosso caso, a dissimulação de Beatriz diante do clínico, ao cuidar para diminuir os efeitos de sua presença, não deixam de revelar pistas importantes sobre sua dinâmica erótica, e de sua relação com seu desejo.
A possibilidade de leitura do caso é novamente situada: o objeto de Beatriz passa a ser a sustentação da insatisfação do outro – este em relação com seu próprio objeto. Dito
de outro modo: Beatriz converte seu objeto fundamental na negativação do objeto do Outro. Aliena-se no lugar de alvo do desejo do Outro, e daí cria uma espera – indefinidamente – do encontro entre o Outro e seu objeto, sustentando uma distância que faz as vezes de saúde e de doença: uma espera para anular outra espera. Ao garantir que o Outro permaneça apartado de uma possibilidade de satisfação, protege-se de cuidar ela própria de percorrer o mesmo trajeto em busca de narrativas para os encontros possíveis. Beatriz não estava disposta aos encontros possíveis pelo momento. Se não podia ter o encontro impossível, ficaria ocupada impossibilitando que os outros tivessem encontros com ela, algo que nos lembra da abordagem de Kehl sobre a inveja histérica.
Seu objeto passa a ser apropriar-se do objeto do Outro, e sustentá-lo como inalcançável. Convida o Outro a esperar algo dela, para então frustrar-lhe o contato. Desta forma, mantém-se suficientemente ocupada contra a tentação de desvios eróticos que a levariam a um sofrimento ainda impensado. Seu erotismo particular consiste em viver a aventura – do Outro – e escapar, assim, dos riscos, perigos, ansiedade de descobrir-se animada por um objeto que lhe fere a imagem de onipotência e a aterrorizaria em desamparo. Em algum nível Beatriz sabia disso, buscou ajuda e nomeou sua vivência mortificada. Um outro erotismo, a ponte que tentamos construir entre o caso clínico e este trabalho, estaria na tentativa de apropriar-se das fissuras da onipotência e poder compartilhar um mal-estar que se fizesse acompanhar de algum alento: aquele que permite aproximar os humanos em associações eróticas, amorosas, afetivas, criativas e que impulsione o sujeito a suportar os abalos, perturbações e decepções pela lembrança da perda da completude materna. Antes de ambicionar algum alento, Beatriz precisaria considerar a possibilidade de renunciar à aposta de alto risco de reencontrar o objeto perfeito.