3. FAALİYETLERE İLİŞKİN BİLGİ VE DEĞERLENDİRMELER
3.1. Mali Bilgiler
3.1.2. Mali Denetim Sonuçları
Para explicitar os motivos que poderiam justificar a reprovação à festa de Reinado, D. Cabral apenas afirma que já teria apresentado razões suficientes na ocasião do retiro espiritual dos padres. Porém, o mesmo aviso que censura o Reinado, estimula e valoriza a devoção do Santo Rosário. O bispo faz questão de destacar a recomendação de que os fiéis sejam muito bem instruídos pelos párocos a respeito das “vantagens da utilissima devoção do rosario” e da necessidade de “dar maximo esplendor essa festividade”. 262
261 AEAM, Constituições eclesiásticas do Brasil. Op. Cit. p. 151.
262 AABH, Livro Avisos e Mandamentos I. Aviso n◦ 5: Prohibição da festa chamada Reinado, 10/08/1923. p. 2.
A partir de então, torna-se recorrente que, nos final dos meses de setembro, o bispo reedite o incentivo à devoção do santo Rosário em forma de avisos episcopais. O conteúdo de tais recomendações mostra-se equivalente:
Approximando-se o mez de outubro, em que, segundo a ordem do Santo Padre, em todas as egrejas matrizes cumpre seja recitado o Santissimo Rosario, o Exmo. Sr. Cabral lembra aos Revmos. Srs. Vigarios a obrigação de promoverem de melhor modo possivel as solennidades quotidianas daquelle mês de bençãns e graças extraordinarias. E para que os fieis logrem colher aquelles fructos espirituaes que estão a sua mão pela recitação do Rosario, mister se faz que os Revmos, Vigarios, consoantes as traças de seu zelo esclarecido, anunciem com empenho aquillo que se contem em os numeros 598 e seguintes da Pastoral Colletiva de 1915. Explique-lhes tambem com a maxima clareza p Appendice XXV da mesma Pastoral. 263
Todavia, o interesse do clero em valorizar e difundir o Santo Rosário entre os fiéis brasileiros não data do início do século XX ou mesmo de meados do século XIX, podendo ser verificado desde o início da colonização portuguesa. Desde essa época, à Virgem Maria era tida como a grande protetora dos conquistadores, a serviço dos interesses econômicos das Coroas espanhola e portuguesa. Para os ibéricos, Maria estava alinhada à causa hispânica e lusitana, contra aqueles considerados infiéis, ou seja, as conquistas tinham o significado de “guerras santas”.264
Percebe-se, no caso ibérico, a existência de uma valorização do papel do rei enquanto propagador da fé cristã. O estudo do sebastianismo demonstra como a batalha de Ourique, na qual os portugueses venceram os mouros em 1139, ganhou no século XV uma dimensão milagrosa. O marco militar que inaugurou o reino português passou a ser visto como fundador de uma história sagrada, Portugal teria recebido a confirmação da vontade de Deus para levar a verdadeira fé cristã aos quatro cantos do mundo. 265 Em paralelo, as devoções marianas adquiriram centralidade nas terras que compunham a América portuguesa.
263 AABH, Livro Avisos e Mandamentos I. Aviso n◦ 7: Mez do Rosario, 21/09/1923. p. 3.
264 GEBARA, Ivone; BINGEMER, Maria Clara L. Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Um ensaio a partir da mulher e da América Latina. Petrópolis: Vozes. 1988.
p. 149.
265 SOUZA, Marina de Mello e. Reis negros no Brasil escravista: história da festa de coração de rei congo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
No início do século XVIII, a arquidiocese do Rio de Janeiro estendia-se até os territórios que posteriormente formaram o bispado de Mariana. O bispo, Dom Frei Antônio de Guadalupe, preocupou-se não apenas em elaborar uma carta pastoral com a recomendação do Santo Rosário, como também ordenou que a publicação do documento fosse reeditada a cada três meses:
Recomendamos muito aos mesmos Parochos que em todas as estaçõens e praticas afervorem aos seus fregueses na devoçam do Rozario, que deyxaram introduzida os Reverendos Missionários e no princípio de cada mez exhortem a que se confessem nelle para ganharem a indulgência plenária que concedeu o nosso Santíssimo Padre Benedicto décimo Tércio, aos que rezarem de joelhos as três Ave-Marias. 266
No decorrer do século, o Santo Rosário prossegue como um culto prestigiado e recomendado pela a alta hierarquia eclesiástica. Em 1757, com o bispado de Mariana já constituído, Dom Manoel da Cruz, primeiro bispo da arquidiocese, produz um documento no qual comunica ao Papa o que ele, como prelado, determinou aos párocos para realizarem:
Compete, pois, aos referidos Capelães pregar ao Povo nos Domingos e Festas solenes, dedicar-se assiduamente em explicar o Catecismo à gente simples, fazer a oração mental, recordar os mistérios da Paixão do Senhor e recitar devotamente com os mesmos fiéis as saudações do Rosário Mariano e do Ângelus. 267
Através de tais documentos episcopais, nota-se que a recitação do Santo Rosário tornara-se uma recomendação recorrente. Tal forma de devoção mariana é também citada no relato da visita pastoral do Cônego José dos Santos à Matriz de Nossa Senhora da Piedade da Borda do Campo, em 1760:
Terão especial cuidado assim o Rdo. Pároco assim como os Redos Capelães nos dias de Nossa Senhora que forem de preceito exortar a seus fregueses e aplicados para que sejam muito devotos da mesma Senhora, venerando-lhe o seu Ssmo. Rosário, coroa ou terço, insinuando-lhes que fervorosa prática desta devoção mariana é também um dos mais prováveis sinais da nossa predestinação eterna, para cujo efeito lhes lerão, à
266 GUADALUPE, 1727. Apud: RODRIGUES, Flávio Carneiro. Cadernos históricos do arquivo eclesiástico da arquidiocese de Mariana. Mariana: Editora Dom Viçoso, 2004. p. 12.
estação da Missa nos ditos dias, um exemplo dos prodígios de Nossa Senhora pelo Catecismo ou outro livro devoto”. 268
A partir de meados do século XIX, o fortalecimento dos Estados nacionais provoca uma mudança de sentido na devoção mariana do Santo Rosário, tão conceituada e incentivada pelo alto clero desde a colonização lusitana. Para se compreender este processo de ressignificação é necessário estudar a incorporação, pela cultura católica, de uma série de aparições marianas.
A primeira aparição de Nossa Senhora de Lourdes para a jovem camponesa Bernadette Soubirous foi registrada em 11 de fevereiro de 1858, na gruta de Massabielle, nas proximidades de Lourdes, França. Somente Bernadete via e ouvia a Senhora, entretanto, a notícia da sucessão de aparições (dezoito no total) foi se alastrando progressivamente e o evento passou a atrair pequenas multidões à gruta.
As aparições de Fátima ocorreram anos depois, já no início do século XX. Mais precisamente em 13 de maio de 1917, três crianças, Lúcia de Jesus dos Santos, Francisco Marto e Jacinta Marto que apascentavam um pequeno rebanho na localidade de Cova da Iria, município de Ourém, Portugal, afirmaram ter visto "uma senhora mais branca que o Sol" sobre uma azinheira. Esta aparição se repetiu nos meses seguintes, com exceção de agosto, sempre no dia 13. No mês de outubro, a Senhora teria se identificado como Nossa Senhora do Rosário, e a mensagem transmitida foi uma súplica para que a humanidade rezasse o terço continuamente, a oração do Santo Rosário.
Estas aparições se inserem num contexto em que a Igreja buscava valorizar a devoção mariana, em meio ao embate contra o modernismo e os preceitos liberais burgueses. Em 8 de dezembro de 1854, portanto, quatro anos antes da primeira aparição de Lourdes, o Papa Pio IX, através da Bula "Ineffabilis Deus" já havia proclamado o dogma da Imaculada Conceição, o qual declarou a santidade de Virgem Maria desde o primeiro instante de sua existência. O discurso eclesiástico, dessa forma, adquire tons fatídicos, costumando apresentar como socializante qualquer movimento liberal, mesmo que moderado. Sendo assim, a aparição de Lourdes, tendo ocorrido numa localidade rural, para uma criança pertencente a uma família de camponeses apresenta-se como o contraponto do
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mundo urbano, que assistia a emergência do Estado Nação: 269 “A situação se repetirá em Fátima quando os três “pastorinhos” recebem mensagens anti- republicanas e anti-comunistas. Novamente, recusa-se o urbano em nome do rural, ignorante, porém fiel”.270
Além disso, nessa sociedade que valorizava a ciência e os preceitos racionalistas, a Igreja passou a preocupar-se também com a comprovação dos milagres. A instituição católica, ao mesmo tempo em que endossa a possibilidade das aparições, não abria mão do controle de sua autenticidade, resguardando-se com uma equipe de peritos, que cumprem o papel de avalistas da cultura moderna, embora subordinada aos princípios teológicos. 271
O Papa Leão XIII, que ascendeu ao pontificado em 1878, empenhou-se sobremaneira na propagação do culto do Santo Rosário, tendo dedicado uma série de encíclicas sobre o tema.272 O efetivo cumprimento das deliberações do pontífice no território então pertencente à arquidiocese de Mariana tornou-se alvo das preocupações de Dom Silvério Gomes Pimenta, antes mesmo de sua sagração como arcebispo de Mariana. Em uma correspondência de 7 de setembro de 1885, endereçada a Dom Benevides, que como prelado ausentara-se da sede arquiepiscopal provavelmente devido às visitas pastorais, o então vigário-geral descreve a relevância que a Igreja confere à difusão do culto ao Santo Rosário:
Hoje recebemos uma carta do Excia Sr Interno dirigida a V Excia com uma circular da Sr. C. dos Negocios Eclesiásticos [?] mandada em nome de S. S. P. que se celebra com toda a devoção e solenidade a festa do Rosario, e que [?] todo o mes de outubro ate 2 de Novbro se reze o terço e Ladainha nas Igrejas curados etc. Por ser de necessidade publica e com pressa hoje mesmo fiz uma circular em nome de V Excia. em que dou conta della aos Vig. Este e mando que se execute. Logo que estiver impressa, a remetterei a V Excia. 273
A circular apressadamente impressa por Dom Silvério endossa a preocupação do pontífice com a instituição das celebrações no mês de outubro,
269 BENEDETTI, Luiz. A devoção a Nossa Senhora e as transformações sociais. Vida Pastoral. Maio-jun. 1985. p. 31.
270 Ibidem. p. 32.
271 BOUFLET, Joaquim et BOUTRY, Philippe. Um signe dans le ciel: les apparitions de la Vierge. Paris: Grasset, 1997. p. 12.
272 Dentre elas: Supremi Apostolatus Officio (1 de setembro de 1883), Superiore Anno (30 de agosto de 1884) e a Magnae Dei Matris (8 de Setembro de 1892).
acompanhadas pela recitação pública do terço e por procissões em honra a Nossa Senhora do Rosário:
Sua Santidade Leão XIII gloriosamente reinante, renovando este ano o que para os dous annos precedentes foi pelo mesmo Senhor determinado, por decreto da S. C. dos Ritos de 20 de Agosto p. passado que começa: Inter plurimos Apostolicae vigilantce actus, manda e ordena em todas as Igrejas parochiaes do mundo, e em todos os Oratorios dedicados a SS. Mãi de Deos, e nas mais Igrejas que os Ordinarios a seo arbitrio escolherem, desde o 1 de outubro até o dia 2 de novembro se rezem ao menos cinco décadas do Rosario ou o terço ou a ladainha de N. Senhora.[...] Esforcem-se também a que se fação solemnes procissões do Terço pelas ruas, com toda devoção e ordem, devendo ir os homens, inteiramente separados das mulheres. Os revvds. Vigarios, Curas, Capellães e Pregadores, procurem explicar aos fies a virtude e a efficacia do Sacratíssimo Rozario, e não deixem de exhortar-los a que por uma boa confissão e communhão se apparelhem para lucrar as graças offerecidas pelo Pai Commum dos fieis, para obtermos mãos efficazmente os auxílios que a Igreja e nós havemos mister, e conseguirmos o maior dos bens que é nossa reconciliação com Deos. 274
Como indicam as pesquisas historiográficas, o culto mariano representava para a sociedade de fins do século XIX, uma “visão estática da ordem estabelecida, o respeito sacral por essa ordem favorecendo a ideia de uma mudança moral dos indivíduos, não da ordem social vigente”.275 Portanto, a Igreja
Católica não almejava uma transformação nas estruturas sociais, mas sim, julgava fundamental empenhar-se em uma reforma dos costumes, e a piedade marial mostrava-se um recurso bastante estratégico neste sentido.