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Nas entrevistas direcionadas aos professores, questionamos como eles organizam suas aulas, ou seja, como elegem os objetivos, selecionam os conteúdos, escolhem as metodologias, realizam a avaliação, enfim, preparam a sequência didática que orienta o ato de ensinar. A ideia era explicitar como os professores descrevem as práticas pedagógicas que desenvolvem antes e depois de ensinar e, também, enquanto atuam.

Dentre os achados, percebemos que uma parte considerável dos professores demonstra dificuldade em descrever sistematicamente a forma como organiza suas atividades profissionais, restringindo-se aos aspectos que consideram essenciais ao sucesso da aprendizagem.

Organizo em dois pacotes de conteúdos, onde o desempenho do primeiro direciona o segundo, claro, observando o desempenho dos alunos.

Procuro conteúdo, organizo-os e determino como apresentar o conteúdo selecionado aos alunos (metodologia).

Foco na importância do conteúdo e contextualizo na carreira do aluno.

O meu planejamento pode ser alterado durante o curso, após conhecer o perfil dos alunos. Eu determino os conteúdos e os recursos didáticos.

Me baseio em livros clássicos da área e em conteúdos ministrados por instituições de renome como USP, Unicamp e UFMG.

Estudo de mercado e direcionamento das práticas para as exigências atuais. Explicação do conteúdo e exercícios/projetos para fixação.

Normalmente refaço o plano de aula focado em atender a demanda do mercado, cruzando as mesmas com os tópicos necessários a ensinar.

Através do plano de curso, e do plano de aula. De acordo com o perfil e as necessidades dos alunos. Aulas teóricas com exercícios para verificar o aprendizado. Escolho os objetivos e os contextualizo a realidade do aluno.

Na análise dos dados consideramos o princípio do processo de raciocínio pedagógico de Shulman (apud MIZUKAMI, 2004) que envolve uma série de atividades relacionadas à organização do ensino: compreensão, transformação, instrução, avaliação, reflexão e nova compreensão.

Vimos que a maioria dos professores considera o conteúdo e o mercado de trabalho como os aspectos mais relevantes na situação de ensino. Tais relatos deixam a impressão de que eles priorizam o nível da compreensão pedagógica, entendida como organização dos propósitos, estrutura da área de conhecimento, conceitos, fórmulas etc.

Em linhas gerais, centram seu ensino nas características básicas da pedagogia reprodutiva e tradicional, na qual o professor é o centro do processo, havendo a supervalorização dos conteúdos predefinidos, das habilidades técnicas para a profissão, das aulas expositivas, resolução de exercícios, provas e o uso de lousa e data-show.

1. Verifico o conteúdo 2. Escolho as metodologias e recursos didáticos que melhor se adequam a cada parte do conteúdo 3. Avalio o aluno por meio de trabalhos, provas e comportamento em sala de aula.

A partir dos objetivos da disciplina no curso delimito os conteúdos principais e secundários. Distribuo os conteúdos ao longo do período letivo e das atividades previstas para o semestre.

Defino o conteúdo a ser explanado. Preparo os textos (aula). Deixo com os alunos cópias dos textos. Fazemos exercícios e avaliações, tanto em grupo, quanto individuais.

Eu vejo os objetivos das disciplinas, organizo o conteúdo a ser passado aos alunos conforme o calendário, defino as metodologias que irei utilizar em cada aula e realizo avaliações de maneira periódica.

Para cada conteúdo ministrado existe um recurso que pode ser utilizado e ao final de cada módulo são realizados exercícios, trabalhos práticos, seminários e apresentações que podem avaliar a absorção do conteúdo.

Atualmente, procuro trabalhar um conjunto de conteúdos mínimos em cada série do ensino médio integrado. As metodologias, por sua vez, são definidas em função do número e do tempo de aulas na semana e no semestre. A avaliação combina um trabalho, geralmente em dupla, e uma prova bimestral.

Utilizo o plano da disciplina e delimito os conteúdos lá propostos, seleciono algumas metodologias mas que no decorrer do semestre vou utilizando outras se necessário, adaptando a turma. A avaliação é baseada no trabalho realizado em sala. Escolho o conteúdo a partir da realidade e necessidade de meu aluno. Delimito o quanto ele deve saber (aprender) daquilo que trabalharei e para isso utilizo de diferentes formas de atividades em sala de aula e de diferentes atividades avaliativas para que as essas possam abranger tarefas fáceis, médias e difíceis. (Grifo nosso) Procuro me fixar mais nos conceitos dos conteúdos com o objetivo de desenvolver as ideias e percepção. Avaliações periódicas de desempenho através de listas e trabalhos. O uso gradual de lousa para fazer os alunos se atentarem para o que está sendo transmitido em aula pelo professor, já que muitos no período noturno estudam muito pouco em casa e chegam um pouco cansados e com dificuldade de atenção. Uso de recursos de retroprojetor complementa a exposição visual da matéria e perguntas lançadas aos alunos em meio a exposição do conteúdo para frisar o aprendizado sobre os tópicos. Pouco uso de recursos de Data-Show mais focados para revisão de aula. Provas e trabalhos complementam o processo de avaliação.

Segundo Masetto (2003), ao organizar as atividades do ensino é necessário que o professor faça um bom planejamento da disciplina. Entende-se por planejamento a sistematização das ações do professor e dos alunos, visando a atingir os objetivos de aprendizagem estabelecidos. Nessa perspectiva, não se trata de um documento ao qual se faz referência unicamente às atividades técnicas designadas ao futuro profissional, mas sim de um

instrumento de ação educativa. No relato abaixo percebemos a descrição de uma rotina pedagógica que considera o planejamento como instrumento de organização do ensino:

Objetivos: cruzo e analiso dados de documentos-base tais como PPP (Projeto Político Pedagógico) especialmente o perfil do egresso, passando pela relação da minha disciplina com as demais do curso, e finalmente chegando à condição da realidade contemporânea (mercado de trabalho). Conteúdos: Não me agrada o sacrifício da qualidade em nome da quantidade. Por isso, avalio a exequibilidade dos conteúdos ao longo do semestre letivo tendo por base experiências dos anos anteriores. Metodologias: Em função de cada disciplina (se mais prática ou mais teórica), se demanda atividades manuais como desenho ou manipulação de uma ferramenta específica etc. Recursos didáticos: em função da metodologia escolhida, procuro diversificar os recursos didáticos. Avaliação: Procuro variar as formas de avaliação, promovendo atividades em grupo e individual, escrita (manual) ou oral, processual (trabalhos ou atividades frequentes) e pontual (prova numa data específica).

No excerto acima, percebemos maior aproximação com o princípio do processo de raciocínio pedagógico de Shulman (apud MIZUKAMI, 2004) quanto à

transformação dos conteúdos especializados em conceitos possíveis de ser ensinados; a nova compreensão, ao considerar sua experiência anterior para fazer novas adequações em seu

plano; e o encaminhamento da avaliação da aprendizagem.

Dentre todos os relatos, houve apenas um que fez menção ao diálogo com outros colegas que ministram disciplinas correlacionadas à sua:

Defino o conteúdo, baseado na ementa do projeto pedagógico e frequentemente consulto colegas de disciplinas que antecedem ou correlacionam-se (interdisciplinares) a que vou trabalhar. Defino objetivos e metas diante do tempo (carga horária) da disciplina. Escolho as metodologias de dependem do tipo de disciplina, se é mais prática ou teórica. Por fim, procuro avaliar continuamente o aprendizado por meio de trabalhos pontuais em sala e de forma abrangente em avaliações.

Segundo Masetto (2003), é importante que os docentes procurem debater com seus colegas e prevejam uma organização curricular que contemple atividades e disciplinas que trabalhem em conjunto. Assim, ao perseguirem os mesmos objetivos que sanem as necessidades dos alunos, desenvolvem um trabalho interdisciplinar. Percebemos no relato acima a preocupação docente em dialogar com seus colegas os conteúdos de sua disciplina, acenando para a possibilidade de ações interdisciplinares, ainda que não esteja explícita a sua concretização.

Em outro relato identificamos certa preocupação com o ensino focado na vinculação dos conteúdos a valores do mundo produtivo que parece considerar um plano social na formação do profissional.

No caso do ensino profissional, olho o mundo do trabalho e a sociedade: o que está em discussão? O que é uma pessoa produtiva e participante? Daí surge os valores que necessitam ser discutidos e praticados. Passo ao estudo das práticas que concretizam esses valores como habilidades. Essas práticas podem exigir requisitos teóricos, daí a teoria e os conteúdos. De acordo com o perfil do grupo em que vou participar, vou aprendendo a definir e escolher metodologias que facilitem a comunicação e a certificação da aprendizagem.

Percebemos em alguns professores certa inquietude por não conseguirem inovar na forma como conduzem o processo de avaliação, mantendo-se no modelo tradicional de provas escritas como principais instrumentos avaliativos.

Geralmente defino os objetivos em função dos objetivos definidos para o próprio curso como um todo. Delimito os conteúdos considerando os objetivos e também a realidade real existente na sala de aula. Defino os recursos didáticos em função dos objetivos e dos conteúdos e dos recursos materiais existentes na escola. Para avaliar, ainda não consegui fugir do tradicional, isto é: trabalhos, seminários e avaliação escrita (geralmente de 60 a 70%).

Trabalho com os conhecimentos prévios, qual o conteúdo a ser abordado e os objetivos a serem atingidos. A avaliação, infelizmente, é a tradicional prova parcial, que simplesmente constata o que foi aprendido ou não, mas não amplia o conhecimento do estudante.

Sempre faço um planejamento inicial, que é reestruturado a cada aula para adequar a necessidade dos alunos e à direcioná-lo para uma aprendizagem mais efetiva. Vario metodologias e recursos, uso muito a informática em minhas aulas. Com relação a avaliação, ainda uso métodos tradicionais.

Os conteúdos estão pré-determinados nas ementas dos cursos e o primeiro passo é tentar adequar esses conteúdos ao tempo de aula, levando em consideração a necessidade de utilização de vários tipos de atividades didático-pedagógicas: aulas teóricas, experimentos, objetos de aprendizagem, pesquisas, discussões... As avaliações procuram englobar as diversas atividades desenvolvidas, e mais uma prova tradicional.

Essas sensações docentes nos remetem à ideia de Masetto (2003) de que, mesmo se os professores se dispusessem a modificar suas aulas, utilizando novas tecnologias, selecionando conteúdos significativos, motivando os alunos, desenvolvendo um relacionamento saudável com a turma, mas não alterassem a avaliação, de nada adiantariam todas essas inovações, já que para o aluno tudo continuaria sendo decidido nas provas e testes, com a atribuição de uma nota final.

Benzer Belgeler