Nas reuniões, quanto ao resgate histórico realizado coletivamente por parte dos coletores-urbanos, do que foi feito e ainda está sendo realizado, busca-se informar e estabelecer uma comunicação básica entre os membros do grupo, através de diálogos e discussões, pautando-se questões que envolvem as situações locais e os problemas gerais referentes aos coletores-urbanos, ampliando-se e aprofundando a temáticas sobre a situação dos resíduos sólidos no Brasil. Serve como exemplo o relato de como está a situação das associações e da cooperativa de coletores em São Paulo e em Minas Gerais, para se traçar paralelos e comparações, na questão dos valores dos materiais e das formas de organização das associações e cooperativas desses estados, com a realidade dos galpões em Porto Alegre.
A troca de informações permitiu que os membros desse grupo se conhecessem mais profundamente, uma vez que, na rotina de trabalho, estavam muito próximos e distantes, mas não havia tempo para parar a sua rotina e conversar sobre as suas questões e os problemas da comunidade.111 Essa dinâmica
dava-se através dos relatos individuais, a partir dos quais os trabalhadores refletiam sobre qual o significado de suas participações no espaço de trabalho e a sua atuação no Núcleo de Pastoral. Segundo Michel Thiollent, a pesquisa tem que romper com as questões meramente formais e burocráticas, que, em determinados casos, acontecem na ida a campo. A pesquisa tem que ser propositiva e ativa no sentido de mudança da realidade:
Em geral, a ideia de pesquisa-ação encontra um contexto favorável quando os pesquisadores não querem limitar suas investigações aos aspectos acadêmicos e burocráticos da maioria das pesquisas convencionais. Querem pesquisas nas quais as pessoas implicadas tenham algo a dizer e a fazer. Não se trata de simples levantamento de dados ou de relatórios a serem arquivados. Com a pesquisa-ação, os pesquisadores pretendem desempenhar um papel ativo na própria realidade dos fatos observados.112
111 A criação de um espaço de aproximação e de afeto entre os participantes do núcleo de Pastoral que trabalham diretamente com os resíduos em uma linha de organização é primordial para a melhoria da produção. O autor que faz um estudo nessa linha de pesquisa é o pesquisador em Psicologia Social, Max Pages, cujo titulo de sua obra é A vida afetiva dos grupos.
Uma pauta importante que vem sendo discutida em nível nacional é a incineração dos resíduos, um sério problema para os coletores-urbanos em Porto Alegre. Assinala-se que há um projeto que propõe a incineração dos resíduos produzidos pela população da cidade, que ocasionará um problema socioambiental113, e as consequências dessa prática para os coletores urbanos vão ser graves, eis que a maior parte dos resíduos vai ser incinerada, sobrando pouco lixo para os coletores trabalharem. Aponta-se que o material que chega à maioria dos galpões já é de baixa qualidade, como é o caso do Galpão da Ilha Grande dos Marinheiros. Essa incineração não prejudicará apenas os coletores-urbanos, visto que, através da queima desses resíduos, a população de Porto Alegre e da região metropolitana vai ser atingida pelos gases tóxicos, oriundos dessa incineração. Este será, por conseguinte, um forte retrocesso em relação à preservação da vida como um todo.
Esse retrocesso em relação às conquistas do povo brasileiro referente à preservação ambiental vai ser também verificado na alteração do Código Florestal que vai somente beneficiar o agronegócio, através de suas empresas que só visam a lucros. O objetivo prioritário é explorar ao máximo tudo e todos, não importando o fato dos grandes “fornos” poluírem ainda mais o ar da cidade.
No que tange às reuniões com o grupo, na continuidade, foram organizados momentos para que os participantes, que em média nas reuniões ficava em torno de 12, ficassem cientes desses problemas atuais e que, dentro do possível, buscassem, historicamente, fatos e situações que pudessem contribuir para a discussão e proposição de ações para o coletivo. Era preciso que relatassem as suas experiências de lutas no passado e que pudessem ser relacionadas com conjuntura estabelecida nos dias de hoje junto aos coletores e moradores dessa região. Essa era a preparação de uma tática de enfrentamento.
Foram citadas experiências de lutas e resistências no campo na questão agrária, de moradia, de emprego e também mobilizações realizadas nas Ilhas pela comunidade, como ações que ocorreram quando a comunidade trancava a estrada com barricadas, BR-290, com pneus, galhos e pedras, reivindicando melhorias para
113 INCINERAÇÃO NÃO - Contra a queima de lixo. Disponível em: <www.incineradornao.net/>. Acesso em: 22 maio 2012.
as suas vidas. Essas situações já ocorreram inúmeras vezes. Mais recentemente, em dezembro de 2011, houve uma ação, em função da falta de luz por três dias na Ilha Grande dos Marinheiros e Pavão.
Outra proposta de ação concreta, realizada na atualidade, a partir das reuniões com o Núcleo de Pastoral, foi a visita dos membros da Pastoral às casas das famílias frequentadoras das atividades que haviam deixado de participar no Núcleo. Foram visitadas, inicialmente, oito famílias, de preferência, as que tinham relação tanto com o Galpão quanto com as carroças. As reuniões realizaram-se informalmente nas casas, cuja principal discussão estava centrada no porquê de as famílias terem se afastado das atividades do Núcleo de Pastoral. A intenção dessas reuniões era resgatar a participação dessas pessoas nas atividades da Igreja.