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Malachite Green’in İğde Çekirdeğinden Elde Edilen Aktif Karbon Üzerindek

De forma análoga à história de “O patinho feio: a descoberta daquilo a que pertencemos”, através das lentes de Clarissa Pinkola Estés, Yae é a garota que se sente completamente deslocada entre os colonos da reservada comunidade Esperança. O sistema comunitário imposto por Kantaro Uno jamais foi aceito sem protestos pela pequena Yae. Ela critica o método de confinamento e obediência ao líder Kantaro, principalmente o domínio dele sobre as mulheres, as quais ele considerava como pertencentes a ele.

Uma das primeiras indignações que marcaram a vida de Yae contra Kantaro Uno foi concernente aos estudos. Genji é quem relata as peripécias de Yae em Esperança; ela é a sobrinha de Kantaro, filha de Jiro. Após a morte de sua mãe Toshiko, Yae e seus irmãos passaram a viver sob os cuidados de outras “mães” da comunidade. Kantaro Uno não permite que as crianças frequentem a escola brasileira após o término do ensino fundamental; segundo ele, a escola brasileira somente é necessária até o ensino básico do português. Nessa época, Yae contava com dez ou onze anos, ela gostava das aulas de português e desejava muito continuar a frequentar a escola brasileira. Contudo, Kantaro não permitiu. Contrariada com a decisão do tio, ela passa a frequentar diariamente as aulas de Hatomura na comunidade.

193 Ao invés de continuar a lamentar e chorar pela interrupção dos estudos na escola brasileira, Yae renuncia ao papel de vítima e começa a construir sua própria identidade, sem deixar que Kantaro Uno tomasse as rédeas de sua vida e a privasse da liberdade.

Fuyuko é a professora de dança da comunidade. Ao mencionar as suas ideias sobre a arte da dança para o líder Kantaro, este ordena que todas as meninas de Esperança devem dançar:

[...] Fuyuko contou seus projetos para Kantaro, e Kantaro ordenou para todas as meninas que dançassem. As meninas sentiram-se tímidas com relação ao tipo de dança, especialmente desde que elas viram Fuyuko dançar naquelas coisas pretas e rastejar no chão. Mas, desde que Kantaro disse que elas teriam que dançar, elas foram, com exceção de Yae a filha de Jiro. Fuyuko reclamou para Kantaro que Yae não queria dançar. Então, Kantaro obrigou Yae a ir. Isto deixou Yae furiosa. Ouvi dizer que Yae dissera não estar recebendo ordens de Fuyuko, a qual era mais jovem do que ela144(YAMASHITA, 1992, p. 211).

Cada vez mais Yae percebe que não se identifica com o estilo de vida imposto por Kantaro Uno, e sua subversão é cada vez mais nítida. Em adendo à sua rebeldia, Yae passa a morar com Kanzo, filho de Kantaro. Embora todos comentem que os dois não podem se casar, pelo fato de serem primos, Yae não se importa com os comentários. Por sua vez, Kantaro expressa sua desaprovação perante a união por não gostar nem um pouco de Yae: “De qualquer forma, Kantaro não gosta de Yae145 (p. 211)”. Na opinião de Genji, Haru também

não dá ouvidos aos comentários alheios, não escuta ninguém e sempre diz o que pensa, como Yae. Mesmo assim, Kantaro não gosta de Yae. Haru e Yae são parecidas na personalidade forte e as duas “compartilham do poder demoníaco”, existente no princípio feminino.

O sentimento de antipatia de Kantaro por Yae sugere, na realidade, “o medo quase universal que os homens têm de cair sob o poder ou fascinação de uma mulher” (HARDING apud RAPUCCI, 2011, p. 60). Kantaro desposou Haru, mas não consegue dominá-la; consciente disso ele sabe que Yae também não pode ser dominada.

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[...] Fuyuko told Kantaro her plans, and Kantaro ordered all the girls to dance. The girls feel shy about this dancing, especially since they saw Fuyuko dance in those black things and crawl around the floor. But since Kantaro said they had to dance, they all went, except Jiro‟s daughter Yae. Fuyuko complained to Kantaro that Yae wouldn‟t dance. Then Kantaro made Yae go. This made Yae mad. I heard Yae say that she wasn‟t taking orders from Fuyuko, who is younger than she is.

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194 Nesse sentido, a desconstrução visando a descentralização do poder e do discurso patriarcal, pode ser percebida no momento em que a mulher renuncia ao estereótipo de vítima, denuncia e questiona a dominação masculina e, por fim, (re)constroi livremente sua própria história. A obra Mulher e Deusa: A construção do feminino em Fireworks de Angela Carter, de Cleide Antonia Rapucci possibilita uma leitura feminista que mina os textos de tradições patriarcais e exorciza sutilmente o pensamento masculino. Todavia, a autora adverte sobre a inegável força que o patriarcado exerce nas mulheres. Para sair dessa hipnose é preciso almejar sempre a liberdade e lutar com todas as forças o direito de “um teto todo seu”, metáfora de Virginia Woolf (1985).

Kantaro nutre aversão a Yae por ela estar sempre questionando e rebatendo suas ordens na comunidade; ela está longe do estereótipo de vítima ou submissa; em contraponto à maioria das meninas que são obedientes, ela não consegue esconder suas próprias opiniões. E, ainda, deixa claro que não gosta de Fuyuko por ser egoísta e fútil, não gosta e não compreende a arte ensinada na comunidade: “O Genji pinta, então porque todos têm que pintar? Deixe o Genji pintar,” ela disse. “Deixe Fuyuko dançar.”146 (YAMASHITA, 1992, p. 213). Como ocorre com o patinho feio do conto de Estés, uma força centrífuga é produzida na comunidade fazendo com que Yae articule para sua iminente fuga, ela só espera o tempo certo para tal ato.

Cleide Antonia Rapucci (2011) explica sobre a experiência e o amadurecimento feminino baseado nos ciclos naturais da vida, desse modo:

[...] A vivência feminina é propensa aos processos de crescimento e decadência, aos ciclos naturais da vida, ao amadurecimento e morte, e aos ritmos e períodos de natureza, espírito e tempo. Está vinculada à Lua. A consciência feminina vivencia o tempo enquanto qualidade e não enquanto medida abstrata da ação. O tempo está sintonizado com os estados de ânimo, a qualidade favorável ou desfavorável do momento. Por isso, ela é forçada a esperar com mais paciência do que o homem pelo momento certo para que um acontecimento ou um impulso possam vir à luz (RAPUCCI, 2011, p. 59).

Enquanto o tempo certo de fuga não surge, Yae articula seus planos investindo sobre o professor Hatomura. Ela sabe que Hatomura pretende ir embora de Esperança, e pede para que ele a leve junto quando este dia chegar. Yae também persuade Kanzo a deixar a

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195 comunidade; porém, ele não deixa dúvidas de que não tem coragem suficiente para partir. Em Esperança tudo é muito confortável e cômodo, para Kanzo o mundo afora é muito incerto e perigoso. Principalmente para aqueles que não têm nenhuma experiência profissional, nem ao menos dominam a língua japonesa e nem a portuguesa. Amparado nas teorias de seu pai, Kanzo justifica que apenas os fracos é que saem de Esperança. Yae sabe sobre o domínio que Kantaro exerce sobre o namorado, e, por isso, não se considera fraca por desejar partir, apenas almeja encontrar seu espaço e conhecer o que o mundo afora possa lhe oferecer. Fato que não é possível na comunidade fechada liderada por Kantaro Uno.

Finalmente, na noite da festa de um casamento, Hatomura é pego de mãos dadas com Akiko, causando uma insólita fúria em Kantaro Uno. De ímpeto, Kantaro agride Hatomura e provoca uma séria discussão; sem hesitar Hatomura pega suas coisas e resolve ir embora de Esperança. A chance de sair da comunidade enfim chegou para Yae; ela também pega as suas coisas e implora para Kanzo ir junto. Contudo, a falta de coragem de Kanzo é mais forte e ele não consegue acompanhar Yae, que corre desesperadamente atrás do carro de Hatomura. Assim como Yae, Kanzo nasceu no Brasil, e tudo o que conhecia era o território lacrado de Esperança. O seu medo maior era de não saber nem se comunicar em português com os brasileiros, nem em japonês com os japoneses do Japão. Para ele, a língua japonesa aprendida na comunidade era como um dialeto, uma linguagem diferente da utilizada no Japão moderno. Acompanhar Yae estava longe de suas perspectivas, sair de Esperança era algo inimaginável.

A cena da fuga de Yae foi presenciada apenas por Genji e Kanzo:

Hatomura entrou no carro e saiu em disparada. Yae correu enlouquecida para encontrar o carro antes que este virasse para a estrada principal. Somente eu a vi desaparecer no meio da floresta para encontrar o carro do outro lado. Ninguém, a não ser Kanzo e eu sabíamos que Yae partiu com Hatomura antes que fosse tarde demais147(YAMASHITA, 1992, p. 217).

Assim como todos aqueles que se sentiram menosprezados, diferenciados, injustiçados, na comunidade, como ocorreu com Yōgu, Kimi, Saburo, Shiratori, Hatomura, a jovem Yae não suporta a vida limitada a que os colonos são submetidos e sua única alternativa é o exílio.

147Hatomura got into the car and sped off. Yae ran like crazy to meet the car before it turned down the main road.

Only I saw her disappear into the forest to meet the car on the other side. No one but Kanzo and I knew that Yae left with Hatomura until it was too late.

196 Como na história do patinho feio,Yae não teve uma infância muito feliz. Ela perdeu a mãe, Toshiko, ainda criança, e seu pai simplesmente não conseguiu cuidar dela nem dos dois irmãos. Jiro ficou totalmente desnorteado com a morte da esposa, e nem ao menos a presença de suas três crianças órfãs de mãe, o motivou a seguir em frente com suas crianças. No início, passava horas sentado, lamentando e chorando a perda da esposa; passado algum tempo, passou a frequentar os botecos de Santa Cruz d‟Azedinha. Por várias vezez Ichiro, a mando de Kantaro, foi buscá-lo completamente bêbado. Somados à alienação de Jiro, ele passou a aterrorizar as mulheres, correndo atrás delas para tentar agarrá-las. Na crise turbulenta de luto de Jiro, quem mais sofreu foi Yae e seus irmãos, os quais foram abandonados na comunidade. A infância e depois a dolescência negligenciada pela falta dos pais, apenas contribuíram para que Yae jamais desistisse da ideia de algum dia sair do espaço fechado de Esperança, e tentar encontrar o seu lugar. E, na primeira oportunidade que teve foi o que ela fez com muita coragem.

Benzer Belgeler