Meu avô ainda não estava morando na árvore. Se arrastava sobre um couro encruado no assoalho da sala...
…O vidro do olho do meu avô não virava mais e nem reverberava.
Uma parte estava com oco e outra com arame. Quando arrancaram das mãos do Tenente Cunha e Cruz a bandeira do Brasil, com a retomada de Corumbá, na Guerra do Paraguai, meu avô escorregou pelo couro com a sua pouca força, pegou do Gramofone, que estava na sala, e o escondeu no porão da casa. Todos sabiam que o Gramofone estava
escondido no porão da casa, desde o episódio. Durante anos e anos, poucos desceram mais àquele porão da casa, salvo uns morcegos frementes.
Em 1913, uma árvore começou a crescer no porão, por baixo do Gramofone.
(Os morcegos decerto levaram a semente.) Um guri viu o caso e não contou pra ninguém. Toda manhã ele ia regar aquele início de planta. O início estava crescendo entrelaçado aos pedaços de ferro do Gramofone.
Dizem que as árvores crescem mais rápido de noite, quando menos são vistas, e o escuro do porão com certeza favorecia o crescer.
Com menos de dois anos, as primeiras folhas da árvore já empurravam o teto do porão. O menino começou a ficar preocupado.
O avô foi acordado de repente com os esforços da árvore para irromper no assoalho da sala...
...Escutavam-se também uns barulhos de ferro – deviam de ser partes do Gramofone que… …estertoravam.
No Pentecostes, a árvore e o Gramofone apareceram na sala.
O avô ergueu a mão.
Depois apalpou aquele estrupício e pôde
reconhecer, com os dedos, algumas reentrâncias do Gramofone.
A árvore frondara no salão.
Meu avô subiu também, preso nas folhas e nas ferragens do Gramofone.
Pareceu-nos, a todos da família, que ele estava feliz.
Chegou a nos saudar com as mãos.
O pé-direito da sala era de dois metros e a telha era vã.
Meu avô flutuava no espaço da sala entrelaçado aos galhos da árvore e segurando o seu
Gramofone.
Todos olhavam para o alto na hora das
refeições, e víamos o avô lá em cima, flutuando no espaço da sala com o rosto alegre de quem estava encetando uma viagem.
Tornava-se difícil para mim levar alimentos para o meu avô.
Eu tinha que trepar na árvore que agora começava a forçar o teto da sala.
Havia medo entre nós que as telhas ferissem de alguma forma o meu avô –
ou então que o sufocassem entre os galhos e o Gramofone.
Eu estaria com sete anos quando a árvore furou… …o telhado da sala e foi frondear no azul do céu. Meu avô agora estava bem, sorrindo de pura liberdade, pousado nas frondes da árvore ao ar livre, com o seu Gramofone.
Eu tinha medo que o meu avô ali pegasse um resfriado.
Tornou-se mais difícil levar comida para ele. Algumas formigas e alguns pássaros roubavam arroz de seu prato...
O livro Concerto a céu aberto para solos de ave, no poema Introdução a um caderno de apontamentos, a memória tem origem em um determinado espaço/tempo, a guerra do Paraguai, em Corumbá. A partir daí, abrem-se mundos discursivos de caráter binário, ou seja, ora o mundo narrado está conjunto às coordenadas organizadoras do
Aqueles passarinhos pousavam do mesmo jeito nos galhos e nos braços de meu avô.
Todos ficavam admirados de ver o avô morando na árvore.
Aquele Gramofone, como eu imaginara, não deveria mais tocar música, pois que estava todo enferrujado e bosteado de arara.
Quatro dias depois de um novo Pentecostes, caiu sobre o assoalho da sala, onde viviam os outros membros da família, um ovo! pluft e se quebrou. Era um ovo de anhuma.
(A anhuma é um pássaro grande, que muda de prosódia quando alguma chuva está por vir.) De forma que quando a prosódia da anhuma mudava eu corria a levar um agasalho para o meu avô.
Aquela ave, a anhuma, depois nós descobrimos, fizera o seu ninho justamente no tubo do
Gramofone.
E por ali o ovo escapou e desceu (pelo tubo furado) e pluft se quebrou no assoalho da sala. Meu avô percebeu o barulho do ovo que se… …quebrou lá embaixo.
Parte do olho dele estava com oco e parte com arame, como já disse.
Doze dias antes de sua morte meu avô me entregou um CADERNO DE APONTAMENTOS. Os pássaros iam carregando os trapos
esgarçados do corpo de meu avô. Ele morreu nu.
Falam que meu avô, nos últimos anos, estava sofrendo do moral.
Por tudo que leio nesses apontamentos, pela ruptura de certas frases, fico em dúvida se esses escritos são meros delírios ônticos ou mera sedição de palavras.
Metade das frases não pude copiar por ilegíveis. (Barros, Concerto a céu aberto para solos de ave, Introdução a um caderno de apontamentos, 1998, p. 9-13)
conteúdo, ora está disjunto: ora o menino está integrado às memórias do avô/gramofone, ora deixa que suas experiências junto à natureza física do pantanal vão substituindo àquelas do avô que já perdera a esperança, antes de morrer. No plano do texto, a árvore aparece em analogia com o renascimento, isto é, o menino aceita a morte e constrói independentemente a própria vida, uma vez que seu avô estava liberto na figura da árvore - o primeiro Pentencostes, interdiscurso com a bíblia. O segundo Pentencostes é o ovo, nova vida do menino que passa pela experiência do avô e deixa- se influenciar pelas coisas de sua terra, não antes de receber o caderno de apontamentos – memória - que será o documento que o ligará sempre às raízes, aos marcos cognitivos de sua cultura. O poema resume que a vida é livre x escondido; fechada X livre.
3.9.1 Ethos/logos/pathos
Segundo Meyer (1991, p.292), o homem é movido pela integração entre a consciência transitiva – das coisas, do objeto – e a consciência de si mesmo. A integração entre essas duas consciências tem como expressão a paixão:
“paixão é assim a expressão de uma interpenetração entre os dois níveis de consciência, gerando uma confusão entre a parte e o todo. Ela torna-se o literal da razão que já não se vê a ver e que se projeta nas coisas, sem nenhum recuo, aquele que a figuratividade lhe daria. É igualmente a tomada de consciência desta figuratividade e desta diferença, no retorno a si da consciência.”
A mistura entre as duas consciências – parte e todo, objectual e reflexiva – cria uma identidade que nem sempre coincide com a validade objetiva do olhar voltado para o exterior. A paixão localiza-se aí, entre a mistura da consciência em si e a consciência irrefletida. Passa a ser a verdade da consciência. Viver essa paixão é viver
a temporalidade que assegura, através da memória, a continuidade daquele a que se chama espírito humano, constituído pelas “lições” da cultura.
Mato Grosso é um Estado com uma grande tradição oral, construída pelas culturas dos índios, dos portugueses e espanhóis que trouxeram suas histórias, pelos migrantes de outras regiões – negros e brancos – que contaram seus “causos”. Sendo assim, o tempo, no registro dessas memórias, constitui-se uma paixão representativa na obra de Manoel de Barros, porque a memória, ao mesmo tempo que é irreversível, é presente e futuro, na tentativa que o pantaneiro faz de eternizar o Pantanal e sua cultura – seu implícito cultural. Viver o tempo e encontrar a sua identidade na diferença que o tempo marca em si mesmo é uma das marcas do poema em análise que se inicia com um tempo demarcado por fatos históricos, mas, em seguida, o movimento da árvore vai demonstrando a continuidade temporal pelo movimento e pela palavra Gramofone, utilizada pelo autor em repetição, que é um recurso de reforço da idéia, de distinção, ao mesmo tempo que utiliza o esquema argumentativo da ligação para que a imagem do avô-árvore – um todo – fique coerente no texto e seja projetada como algo positivo, apesar do que significa: morte/vida, princípio/fim. Aristóteles já afirmava que “o todo é melhor do que a parte” (Perelman & Tyteca, 1996, p. 97). Em Manoel de Barros, homem e natureza formam um todo benéfico, mesmo na morte.
No poema, há um ethos que se mescla. O menino e o eu estão em junção com o tempo e com o espaço. Assim, Manoel de Barros consegue os efeitos de ser todo sentimento, na aproximação do avô, ou distanciar-se em um não-eu, como se apenas descrevesse a cena, como um contador de histórias (“O menino começou a ficar preocupado. / O avô foi acordado de repente com os esforços / Meu avô subiu também, preso nas folhas e nas / ferragens do gramofone”). O período de tempo em que o faz é o passional. Aristóteles, citado por Fiorin (2001, p.129), considera que a memória tem como objeto as determinações do tempo. É um pathos da alma, porque está no corpo e, por isso, submetida ao tempo. Por sua vez, no poema, o tempo tem marcas de continuidade e descontinuidade feitas pelo espaço que também é contínuo e descontínuo (“da árvore para irromper no assoalho da sala / A árvore frondara no salão / O pé-direito da sala era de dois metros e a telha / era vã / Eu estaria com sete anos
quando a árvore furou / o telhado da sala e foi frondear no azul do céu”). Abbagnano (2000, p. 944) esclarece essa relação tempo e espaço. Segundo ele, Aristóteles diz que “o tempo é o número do movimento segundo o antes e o depois, é a expressão mais perfeita dessa concepção que identifica o tempo com a ordem mensurável do movimento”.