A democracia possibilita o convívio constante de diferentes grupos e classes como participantes de uma mesma coletividade. Alguns grupos, no entanto, acreditam que são distintos e superiores. Esse pensamento vai contra o ideal igualitário e democrático, alimentando o ódio. Uma das principais decorrências da ideia de superioridade é exatamente o discurso do ódio (MEYER-PFLUG; CARCARÁ, 2014). O discurso do ódio é um dos tipos de discurso repugnante. Usualmente é definido como aquela fala que usa palavras com o intuito de ofender, intimidar ou assediar indivíduos por conta da sua raça, cor, etnia, nacionalidade, sexo ou religião, além do discurso que pode instigar discriminação, violência ou ódio contra essas pessoas (BRUGGER, 2007).
Daniel Sarmento (2006) define o hate speech, termo utilizado no Direito Comparado, como a manifestação de ódio, repulsa e menosprezo ou intolerância – através da liberdade de expressão – contra determinados grupos7, tendo o preconceito como motivação. Preconceitos
relacionados com etnia, religião, gênero, deficiência física ou mental, orientação sexual e outras causas. O principal elemento do discurso do ódio é a manifestação do pensamento com o fito de desqualificar, humilhar e inferiorizar indivíduos e grupos sociais. Ainda tem como objetivo disseminar a discriminação desrespeitosa contra qualquer um que possa ser apontado como diferente, gerando a sua exclusão da sociedade (FREITAS; CASTRO, 2013).
O discurso do ódio não está apenas relacionado com a discriminação racial, mas representa a divulgação de ideias que estimulam a discriminação racial, social ou religiosa. Essa discriminação essa praticada em desfavor de determinados grupos, que na maioria das vezes são minorias. Tal discurso também se vale da teoria revisionista, que refuta a existência e contrapõe-se ao Holocausto ocorrido na Segunda Guerra Mundial (MEYER-PFLUG, 2009). A fala odiosa reproduz e perdura a marginalização e a submissão do grupo insultado e dos indivíduos que participam dele. Inclusive, em vários casos, o discurso do ódio atinge características que fazem parte da essência das pessoas atingidas – como a cor da pele e o sexo (CODERCH, 1993 apud MEYER-PFLUG, 2009).
O hate speech tem como base os estereótipos que recaem sobre os grupos insulares, com o fito de incitar o comportamento hostil em relação a tais grupos. As manifestações odiosas rejeitam a ideia de que esses grupos possam ter direito à igualdade no tratamento civil e repelem sua participação equânime na democracia e no processo deliberativo. O discurso do ódio preconiza e exacerba as injustiças e deprecia o valor humano (TSESIS, 2009). Álvaro Paúl Díaz (2011 apud SCHÄFER; LEIVAS; SANTOS, 2015) destaca que o hate speech deve ir além do repúdio ou da antipatia, ele há de semear a hostilidade contra os indivíduos aos quais a conduta discriminatória é dirigida.
O discurso do ódio pode ser entendido como apologia abstrata ao ódio. O debate público é prejudicado, bem como a participação na sociedade dos indivíduos que sofrem com
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Alguns autores nomeiam tais grupos como grupos vulneráveis, grupos estigmatizados ou minorias. Thiago Carcará (2013, p. 65) diz que grupos vulneráveis são formados por “indivíduos com particularidades sociais, representadas por valores homogêneos construídos pelo tempo e pelo espaço na história de uma sociedade, sendo membros ou não de fortes castas econômicas, relacionando-se com as minorias de representação política”. Ressalta-se que as características que fazem as pessoas serem integrantes de grupos vulneráveis e estigmatizados podem mudar ao longo do tempo, de acordo com a construção histórica e com a sociedade.
o discurso do ódio. Essas pessoas são molestadas por fazerem parte de um determinado grupo que sofre discriminação, o indivíduo é ultrajado justamente naquilo que o caracteriza como pertencente a tal parcela da sociedade. A ofensa só cessaria caso o indivíduo renunciasse ou perdesse as características e condições que o fazem ser diferente, isso constituir-se-ia na supressão de sua própria identidade. Além disso, destaca-se a impossibilidade do indivíduo renunciar a essas características que formam a sua identidade e a sua personalidade (MEYER- PFLUG, 2009).
A agressão contida no discurso do ódio pode ser velada, dificilmente sendo identificada. A incitação ao ódio e a discriminação contida na fala odiosa pode não ser explícita, mas pode acontecer de forma contida e implícita (MEYER-PFLUG, 2009). Nesse sentido, o hate speech pode apresentar-se de duas formas: o hate speech in form e o hate
speech in substance. Aquele está relacionado ao discurso explicitamente odioso, enquanto hate speech in substance é a manifestação odiosa velada, como quando se exterioriza sob o
manto de pressupostos morais e sociais, acarretando agressões a grupos e sujeitos vulneráveis, não dominantes. No contexto brasileiro, de uma democracia ainda em desenvolvimento e com recalques causados pelo período ditatorial, as duas formas apresentam-se perigosas por ocasionarem agressões a grupos vulneráveis (SCHÄFER; LEIVAS; SANTOS, 2015).
O discurso do ódio não é, necessariamente, exteriorizado através de um discurso – ou liberdade de manifestação do pensamento –, pode-se utilizar da liberdade de expressão como gênero. Ou seja, o discurso do ódio pode ser manifestado através de gestos, pinturas, caricaturas, desenhos, panfletos, livros etc. Para que o hate speech seja configurado, deve haver um ato que tenha como finalidade promover a discriminação de outras pessoas, defendendo que alguns direitos sejam negados a esses indivíduos por conta de determinadas condições que eles possuem. Quando exteriorizado, o discurso do ódio apresenta duas dimensões: a dimensão material e a dimensão formal. A dimensão material é justamente o conteúdo do hate speech, a ideia, o pensamento odioso contra determinado grupo. Por sua vez, a dimensão formal diz respeito ao meio utilizado para manifestar a ideia – livros, charges, passeatas, internet etc. A análise da dimensão formal é importante, vez que é um dos critérios para determinar o potencial ofensivo do discurso do ódio (CAVALCANTE SEGUNDO, 2015).