Diferentes argumentos ao longo do processo de licenciamento do aproveitamento hidrelétrico de Estreito foram utilizados como forma de amparar a sua construção. Ao mesmo tempo, diferentes atores explicitavam suas opiniões contrárias ao empreendimento, haja vista que a presença do mesmo implicaria em alterações no seu modo de vida, na desterritorialização bem como em suas identidades.
O enredo evidente para a construção apoiava-se basicamente em duas frentes. A primeira se relacionava com a possibilidade de um apagão iminente, caso a implantação e operação da mesma não fosse liberada. Alinharam-se aqui outros argumentos em face de que o AHE compunha o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), e a obra, naquele momento, era a maior para a produção de energia elétrica no Brasil, representando e assegurando o fornecimento de energia para os processos produtivos implantados na região. O fortalecimento deste discurso veio acompanhado daquele que, em sendo implantado o AHE, o mesmo seria o um dos promotores de desenvolvimento da região através da instalação de novas empresas e pela criação de novos empregos, sendo esta região apontada, compondo com outras no Brasil, em várias passagens, como sendo uma das que detém o menor IDH29 (Índice de Desenvolvimento Humano) e carentes de emprego e renda em nosso país. Verifica-se aqui o mesmo discurso utilizado para a construção de outros empreendimentos hidrelétricos no Brasil ao longo das duas últimas décadas. Porém, o desenvolvimento social apregoado não tem sido verificado, pois a qualidade de vida das pessoas dos lugares "invadidos" por empreendimentos com esta tipologia tem sido marcada por uma condição contrária a esta. Tais evidências são ratificadas a partir dos inúmeros trabalhos produzidos e divulgados nos Encontros de Ciências Sociais e Barragens no Brasil a partir de 2005, bem como dos Encontros Latino-americano de Ciências Sociais e Barragens.
A segunda frente observada foi a de que a falta de energia, bem como a instalação de novos empreendimentos para aproveitamentos hidrelétricos
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Informações obtidas em: http://www.canalenergia.com.br. Acesso em: 28/02/13. Crescimento refém da (in)justiça. 05/06/2007.
implicariam na impossibilidade de instalação de outros segmentos econômicos, ficando claro o direcionamento maior da energia para o setor de produção de alumínio, que é alto consumidor de energia, como já vem ocorrendo com a energia elétrica na Amazônia. Destacam-se dentre estas empresas a Vale e a Alcoa, sendo ambas componentes do consórcio responsável pelo AHE-Estreito. A última, possui também participação acionária em outras usinas hidrelétricas, sendo: Machadinho e Barra Grande na divisa entre os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul e a Usina de Serra do Facão no estado de Goiás. A Alcoa Alumínio S.A é integrante da Alcoa Inc. empresa estadunidense que tem se deslocado para países periféricos.
As diretrizes de produção para atender este setor podem ser observadas nas afirmações dos representantes das empresas mencionando a necessidade de tomadas de providências na produção de energia para atender os anseios de expansão do projeto Consórcio Alumínio do Maranhão (Alumar). "Precisamos ver se tem energia elétrica disponível" (Nilson Fraga - Diretor da Alcoa, 2007)30. Ao mesmo tempo Tito Martins, diretor de assuntos corporativos da Vale fez a seguinte afirmação, mencionando sobre o processo de expansão da empresa: “A energia de Estreito não pode ser considerada porque os projetos que estão em desenvolvimento hoje na região já contam com a energia desta usina. O projeto está atrasado porque se levou quatro anos para conseguir o licenciamento ambiental” (Tito Martins, Diretor da Vale, 2007)31.
Observa-se ainda as pretensões das empresas em um processo de expansão ainda alicerçado nos AHE na Amazônia. " Já temos a autorização do
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Informações obtidas em: http://www.forumcarajas.org.br. Acesso em: 28/02/13. Alcoa terá expansões até 2008. 31/03/2007.
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Informações obtidas em: http://www.forumcarajas.org.br. Acesso em: 28/02/13. Alcoa terá expansões até 2008. 31/03/2007.
governo federal para centrais com capacidade de gerar dois mil megawatts. Ainda não há estudos, mas acreditamos que o norte do país é a região mais provável para atuarmos e ficaríamos muito satisfeitos se os novos projetos fossem no maranhão e Tocantins” (Victor Frank Paranhos, Presidente do Ceste, 2007)32.
É notória a pressão exercida pelas empresas do setor mineral junto ao governo federal para ampliar a produção de energia. Passagens impressas denotam as ameaças de abandono de novos projetos no Brasil, bem como, a partir de suas conveniências, reporta-se ao processo de licenciamento ambiental como um entrave para a manutenção das empresas no Brasil. Externa ainda, um ponto de reflexão, pois sua afirmativa demonstra que os projetos não tem contemplado todos os componentes destes licenciamentos. "Tudo o que é complexo demais acaba não sendo cumprido". (Roger Agnelli, Presidente da Vale, 2007).33
Fica claro que a preocupação maior não é com as questão ambiental ou social, mas sim com os lucros aferidos pelas empresas.
Ao passo que os discursos impressos priorizam a produção de energia para os processos produtivos mencionados, vêm a reboque, informações que tentaram inculcar e sustentar a solidez e eficiência dos estudos obrigatórios para o processo de licenciamento, principalmente no que se refere à afetação de grupos tradicionais. O AHE "(...) foi alvo de três estudos sobre impactos ambientais e sobre a influência do empreendimento em três grupos indígenas, com especialistas indicados pelos próprios índios. (...) Depois de seis anos de análises e estudos e da adoção de todas as precauções relativas à proteção do
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Informações obtidas em: http://www.forumcarajas.org.br. Acesso em: 28/02/13. Alcoa terá expansões até 2008. 31/03/2007.
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Informações obtidas em: http://www1.folhauol.com.br. Acesso em: 01/03/13. Gargalo energético freia investimentos da Vale. Folha de São Paulo. 30/05/2007.
meio ambiente local, o projeto recebeu todas as licenças necessárias e não havia razão que justificasse sua paralisação". (Cláudio Sales, Instituto Acende Brasil, 2007).
A partir de tais afirmações, setores escamoteados vinculados à produção de energia por hidrelétrica expõem opiniões que consideram cabais e suficientes para que o AHE não sofresse com interferências como: o tempo decorrido para a obtenção de licenças, as precauções de proteção ao ambiente local e ainda ao estudo antropológico realizado. O que não se percebe, nas linhas escritas, é a preocupação, de fato, com as consequências do processo de desterritorialização com os afetados, com a interferência junto às terras indígenas e seu modo de vida e também com o acompanhamento real das atividades junto aos novos assentamentos. Percebe-se uma tentativa deliberada de convencer a opinião pública sobre a "seriedade" do empreendimento com a mentira explícita de que "(...) não haverá pressão nas terras indígenas"34 fato este desmascarado pelos relatos e pareceres de especialistas.
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Informações obtidas em: http://www://pib.socioambiental.org.br. Acesso em: 01/03/13. Indigenistas querem nova discussão sobre impactos. Clipping Jornal do Tocantins/TO, 25/03/2007.