A clássica classificação entre obrigações de meios e obrigações de resultado350 continua a ser objeto de discussão doutrinária sobre a utilidade ou
inutilidade da própria classificação e sobre os critérios de distinção351.
Essa discussão não cabe neste lugar. Mas alguns pressupostos da discussão ou, talvez melhor, problemas que integram a discussão têm uma forte expressão no contrato de patrocínio. O que é o resultado da prestação? Que lugar ocupa o resultado? Como se liga ou contrapõe o resultado aos fins do contrato, nomeadamente ao fim económico e social?
Por vezes a discussão situa-se mais num plano linguístico. O que são resultados e o que são meios, o que são resultados e o que são comportamentos. Tudo desemboca num problema ou obstáculo geral a toda a discussão teórica: o múltiplo significado dos termos, das palavras. Os termos quando utilizados num contexto científico específico vão ganhando um recorte próprio, que não é apenas o recorte dado pelo ramo do saber, mas também o da concreta discussão. Vai-se formando um vocabulário próprio daquela discussão doutrinária ou técnica.
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DEMOGUE, René – Traité des obligations en général. vol. V Paris: Arthur Rousseau, 1925. pp. 538- 544. vol. VI Paris: Arthur Rousseau, 1931. p. 644.
351
Entre nós e recentemente, a favor da utilidade da classificação, MENEZES CORDEIRO, António –
Tratado de Direito Civil. VI – Direito das Obrigações. 2.ª edição. Coimbra: Almedina, 2012. pp. 477 ss.; LUCAS RIBEIRO, Ricardo – Obrigações de Meios e Obrigações de Resultado. Coimbra: Coimbra Ed. – Wolters Kluwer, 2010; MÚRIAS,Pedro,PEREIRA,Maria de Lurdes – “Obrigações de meios, obrigações de resultado e custos da prestação”. In: http://muriasjuridico.no.sapo.pt. Também in AAVV – Centenário do
Nascimento do Professor Doutor PAULO CUNHA. Estudos em homenagem. Coimbra: Almedina, 2012. pp. 999-1018; PEREIRA, Maria de Lurdes – Conceito de Prestação e Destino da Contraprestação. Coimbra: Almedina, 2001. pp. 191-192, nota 515; PINTO OLIVEIRA, Nuno Manuel – Princípios de Direito dos
Contratos. Coimbra: Coimbra Ed., 2011. pp. 32-42. Contra a utilidade da classificação, FERREIRA DE
ALMEIDA, Carlos – “Os contratos civis de prestação de serviço médico”. In AAVV – Direito da Saúde e
Assim, se a propósito da classificação de obrigações de meios e obrigações de resultados se fala de resultados, noutro lugar, a propósito do contrato em geral ou da prestação caraterística, fala-se de fins ou do fim económico e social. Quando na verdade o significado dos diferentes termos é no todo ou em parte coincidente.
A diferente terminologia acaba por ser um obstáculo quando se pretende ligar uns problemas aos outros.
Descendo ao contrato de patrocínio, o sentido deste contrato está cheio de
fins352 ou resultados, com diferentes posições no que respeita à prestação e ao cumprimento do contrato. É preciso distinguir.
Os objetivos da operação de patrocínio que tratei na parte I são fins individuais do patrocinador e do patrocinado, não são necessariamente fins assumidos no contrato, não são necessariamente fins do contrato. Estes fins
concretos que um ou ambos os contraentes pretendem atingir correspondem ou exprimem em princípio os motivos individuais ou causas ou razões para
contratar353.
Se usarmos o termo resultado, noutra terminologia354, são quase todos
resultados exteriores ao contrato e às prestações contratuais. Resultados exteriores organizados numa pirâmide de importância e grau de concretização. Como resultados exteriores, visados por uma das partes, não determinam o conteúdo das prestações da contraparte – pois, o devedor não se vincula a
praticar actos adequados ao resultado exterior, mas sim a causar ou tentar causar certo resultado que, no momento da declaração, foi tido como adequado a um outro resultado, o resultado exterior355. Serão relevantes enquanto motivos
individuais da decisão de contratar (base do negócio subjetiva) ou mesmo
352
No plural, porque em cada contrato ou conjunto de contratos coexistem e sobrepõem-se várias
finalidades, uma cascata de finalidades construída em diferentes camadas dispostas segundo diferentes perspetivas: finalidade da categoria, finalidade do tipo, finalidade da ocorrência; finalidade do ato, finalidade de um dos contraentes ou de ambos; finalidade típica ou atípica; finalidade da política legislativa. – FERREIRA DE ALMEIDA, Carlos – Contratos IV, p. 192.
353
FERREIRA DE ALMEIDA, Carlos – Contratos IV..., p. 193.
354
MÚRIAS,Pedro,PEREIRA,Maria de Lurdes – “Obrigações de meios...”, passim.
355
integrar as circunstâncias em que as partes fundaram a decisão de contratar (base
do negócio objetiva)356.
Já a valorização da imagem do patrocinador constitui um fim assumido por ambas as partes, um fim do contrato de patrocínio, esteja ou não expresso na redação do clausulado contratual. E a apropriação de qualidades positivas de imagem do patrocinado pelo patrocinador também é, por inerência, um fim do contrato de patrocínio. Em conjunto, valorização da imagem do patrocinador por apropriação de qualidades positivas de imagem do patrocinado constitui o fim económico e social do contrato, que conforma a sua prestação caraterística ou feixe caraterístico de prestações. Ou, noutra terminologia, a finalidade do tipo ou
finalidade distintiva do tipo357. Este, se usarmos o termo resultado, será um primeiro resultado definidor358 da obrigação ou complexo obrigacional do
patrocinado.
O patrocinado não se obriga a alcançar, a obter esse resultado. O patrocinado não se obriga a efetivamente valorizar a imagem do patrocinador, nem assegura transferir qualidades positivas da sua imagem para o patrocinador359. Mas o patrocinado obriga-se a realizar prestações dirigidas à
obtenção desse resultado, conformadas por esse resultado.
Na pirâmide dos fins de um contrato de patrocínio, abaixo (ou, noutra perspetiva, dentro) do fim geral correspondente ao económico e social situam-se os fins particulares do contrato. Estes, no contrato de patrocínio, mais não são do que uma concretização ou especialização do fim económico e social em cada contrato concreto. Os fins particulares do contrato são os fins específicos do contrato em causa. Trata-se de um fim ou mais fins das partes assumidos no
356Ibidem, p. 7 (do PDF online). 357
FERREIRA DE ALMEIDA, Carlos – Contratos IV, pp. 192-194.
358
MÚRIAS, Pedro, PEREIRA, Maria de Lurdes – “Obrigações de meios...”, http://muriasjuridico.no.sapo.pt. pp. 6 ss (do PDF online).
359
A doutrina italiana refere-se à obrigação do patrocinado como obrigação de meios, na medida em que não se garante o resultado que tem em vista, o retorno comercial ou retorno publicitário, DE GIORGI, Maria Vita – Sponsorizzazione e mecenatismo, p. 117; FILOSTO, Roberto – “Contratto di sponsorizzazione...”, pp. 1024-1025; TEDESCHI, Claudia – “In tema di esecuzione...”, p. 218; TESTA, Paolina – “La tutela aquiliana dei diritti dello sponsor”. (Com. Pretura Rome 12 Luglio 1989) Il Diritto
dell’Informazioni e dell’Informatica. anno VI, n. 1 (gennaio-aprile 1990). p. 185; TESTA, Paolina – “Obblighi dello sponsee, diligenza e buona fede”. (Com. Lodo Arbitrale, 17 Luglio 1990) Il Diritto
contrato e elevados a fins do próprio contrato. São, portanto, também resultados definidores do complexo obrigacional360. Trata-se, por exemplo, do fim de valorização da imagem institucional e corporativa do patrocinador por apropriação das qualidades de combatividade e juventude do patrocinado. Este, um fim individual do patrocinador, integrando o acordo, converte-se em fim particular do próprio contrato e resultado definidor do complexo obrigacional do patrocinado.
Direi então fins do contrato, e não fim do contrato, referindo-me ao fim geral, coincidente com o fim económico e social, e aos fins particulares que o especializam em cada contrato, os quais, em conjunto, constituem os resultados definidores últimos do contrato361.
No cumprimento, o patrocinado deverá desenvolver todos os esforços para que as suas prestações se aproximem ao máximo dos resultados definidores362 ou,
dito de outro modo, praticar todos os atos necessários aos resultados definidores, com uma intensidade de esforço idêntica àquela que se impunha se os devesse causar363.
Mais abaixo, situam-se outros fins ou resultados definidores intermédios: a participação do patrocinado em anúncios publicitários do patrocinador, o uso do nome do patrocinado em suportes publicitários e outros meios de divulgação institucional do patrocinador, a divulgação pelo patrocinado do nome do patrocinador em vários suportes, etc. Trata-se de resultados intermédios assumidos no contrato, que neste caso o patrocinado se obriga a alcançar, a
360
Definidor e estruturante: o fim contratual provoca uma síntese das várias partes componentes da
relação obrigacional complexa numa “unidade mais elevada”, constituindo a relação contratual um “todo unitário”. – MOTA PINTO, Carlos – Cessão da Posição Contratual. Coimbra: Atlântida, 1970. p.
379.
361
Habitualmente, a doutrina usa o singular com o sentido que aqui dou ao conjunto. Fala-se de um fim do contrato. O fim do contrato enquanto a “missão” concreta, comum a todos os elementos singulares
integrados no todo unitário (créditos, débitos, direitos potestativos, sujeições, deveres laterais, etc.). (...)
Não será, porém, qualquer móbil ou objectivo individual que adquirirá relevância, mas apenas o fim prosseguido pelas partes, dotado de exigências de objectividade ou cognoscibilidade necessárias para, segundo o direito vigente, se projectar no ordenamento negocial. – MOTA PINTO, Carlos – Cessão..., pp. 314-316.
362
PINTO OLIVEIRA, Nuno Manuel – Princípios..., pp. 38-39.
363
MÚRIAS, Pedro, PEREIRA, Maria de Lurdes – “Obrigações de meios...”, http://muriasjuridico.no.sapo.pt. pp. 4-5 (do PDF online).
causar efetivamente. Nesses casos, a prestação ou conjunto de prestações envolve a causação desses resultados364.
Assim, se aceitarmos a dicotomia obrigações de meios/obrigações de resultado365, o contrato de patrocínio, em geral, e o complexo obrigacional do
patrocinado, em particular, são constituídos por obrigações que a um nível são obrigações de meios e a outro nível são obrigações de resultado. Porque o fim geral de cada contrato, correspondente ao económico e social e os fins particulares do contrato – resultados dos resultados366 devidos ou daqueles cuja
causação é devida – sem dever ser causados, são definidores do complexo obrigacional. Ou seja, numa certa terminologia, temos um caso de dupla
definição da prestação, em que o devedor se obriga a causar um certo resultado enquanto tentativa de um outro367.
Esta dissecação do complexo obrigacional do patrocinado não é estéril. Ela é de grande relevância em matéria de cumprimento e não cumprimento das prestações comunicacionais do patrocinado. E será chamada na análise e resolução das perturbações contratuais em foco.