1. FONKSİYONLAR
1.3. Mail Gönderme
A partir da afirmação de que não somos máquinas, mas seres humanos é preciso limitar o tempo de trabalho, como fizeram os trabalhadores que, ao longo da história, se empenharam em lutas em prol da diminuição da jornada de trabalho. A delimitação da jornada de trabalho embute interesses antagônicos, conforme já foi apontado por Marx.
O capitalista afirma seu direito, como comprador, quando procura prolongar o mais possível a jornada de trabalho e transforma, sempre que possível, um dia de trabalho em dois. Por outro lado, a natureza específica da mercadoria vendida impõe um limite ao consumo pelo comprador, e o trabalhador afirma seu direito, como vendedor, quando quer limitar a jornada de trabalho a determinada magnitude normal. Ocorre assim uma antinomia, direito contra direito, ambos baseados na lei da troca de mercadorias. Entre direitos iguais e opostos, decide a força. Assim, a regulamentação da jornada de trabalho se apresenta, na história da produção capitalista, como luta pela limitação da jornada de trabalho, um embate que se trava entre a classe capitalista e a classe trabalhadora (MARX,2011, p.273).
Em concordância com a noção de Marx sobre o embate entre classe capitalista e trabalhadora, Dal-Rosso (1998, p.23) avalia que o tempo de jornada de trabalho é definido a partir das relações existentes entre os atores sociais envolvidos (trabalhadores e capitalistas). Para esse autor, nos momentos de fragilidade política e econômica da classe trabalhadora, ocorrem perdas, como o prolongamento da jornada de trabalho e, nos momentos favoráveis, a diminuição da jornada de trabalho.
Nos séculos XVIII e XIX, com o advento da Revolução Industrial, houve aumento avassalador da jornada de trabalho, de 12 a 18 horas diárias não só para homens, mas também para mulheres e crianças. Tal situação, que extrapolava o limite da condição humana, foi amplamente demonstrada por Engels (2010), no livro “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”, ao denunciar as cruéis condições de vida e de trabalho.
Graças ao capitalismo voraz e ascendente impulsionado pela Revolução Industrial e à inexistência de regulamentações trabalhistas, os trabalhadores eram submetidos a longas jornadas de trabalho, em condições insalubres e a salários aviltantes. A quantidade de horas era prolongada até o máximo do limite dos trabalhadores, com descanso mínimo necessário apenas para a reposição de suas forças. A situação de miserabilidade dos trabalhadores é apontada por Engels.
Essa é uma descrição dos diversos bairros operários de Manchester, tais como observei durante vinte meses. Resumindo o resultado de nosso percurso através deles, diremos que 350 mil operários de Manchester e arredores vivem quase todos em habitações miseráveis, úmidas e sujas; que a maioria das ruas pelas quais têm de passar se encontra num estado deplorável; extremamente sujas essas vias foram abertas sem qualquer cuidado com a ventilação, sendo o máximo lucro o único cuidado do construtor. Em síntese, nas moradias operárias não há limpeza, nem conforto e, portanto, não há vida familiar possível; só podem sentir-se à vontade nessas habitações indivíduos desumanizados, degradados, fisicamente doentios e intelectual e moralmente reduzidos à bestialidade (ENGELS, 2010, p.104-105).
Os trabalhadores começaram a se organizar pela redução da jornada de trabalho, tendo em vista à sobrevivência física.
Marx afirmou que a classe trabalhadora “atordoada pelo tumulto da produção, recobra seus sentidos” e inicia a resistência na Inglaterra. Como fez Engels, Marx denunciou a situação de exploração dos trabalhadores e observou que a lei fabril criada na Inglaterra, em 1833, estabelecia o horário da jornada de trabalho das 5h30 às 20h30 horas, compreendendo, portanto, um período de 15 horas (MARX, 2011, p.321).
Essa lei estabeleceu a jornada de trabalho de oito horas diárias a meninos com idade de 9 a 13 anos e o máximo de 12 horas aos de 13 a 18 anos e proibiu o emprego de crianças com menos de nove anos. Vale destacar o grau de exploração do capital nessa fase de expansão, na qual crianças com idade de nove anos são consideradas aptas para o trabalho.
Um marco histórico de luta pela redução da jornada de trabalho ocorreu nos Estados Unidos, em 1886, quando milhares de trabalhadores reivindicaram a diminuição da jornada de 16 horas para 8 horas diárias. Essa manifestação reprimida pela força policial resultou na morte de seis trabalhadores e deu origem à comemoração ao Dia do Trabalhador, na data de 1º de Maio em vários países. Em 1890, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a jornada de trabalho de 8 horas diárias.
Em 1819, a primeira Convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) limitou a jornada de trabalho em 8 horas diárias e 48 horas semanais, como resposta a reivindicações do movimento sindical e foi ratificada por 52 países.
No Brasil, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) analisa que, ao longo da história, a reivindicação pela delimitação e diminuição da jornada de trabalho foi decorrente de, pelo menos, três motivações: a primeira, em decorrência da própria sobrevivência; a segunda, para obtenção de um aumento do tempo livre e, a última, no período mais recente, como luta contra o desemprego no sentido de que a
redução da jornada de trabalho poderia gerar novos empregos (DIEESE, 2007).
Esse estudo do DIEESE discorda de que a luta enfatize a sobrevivência da classe trabalhadora como argumento para a redução da jornada, por considerá-lo superado. Empresários são contra a redução da jornada de trabalho sob a alegação de que ela gera impactos financeiros resultantes da contratação de mais trabalhadores. O DIEESE (2007) refuta tal argumentação, analisando que a diminuição da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais representa um custo aos empresários brasileiros de apenas 1,99%, ou seja, inferior a 2%. Esse percentual não significa entrave à competitividade das empresas do País.
De acordo, ainda, com esse documento, a desejada geração de novos empregos não ocorreu no índice esperado, porque os capitalistas se utilizaram de outros meios para manter a produção, como a utilização de horas extras, banco de horas e intensificação dos ritmos de trabalho.
No Brasil, no início do século XX, a jornada de trabalho era de 14 horas, em média, incluindo nesta situação homens, mulheres e crianças, conforme foi apontado por Iamamoto (2011, p. 138). A autora explica que as primeiras organizações operárias, representadas por Ligas Operárias, Sociedades de Resistências e Sindicatos traziam como pontos de pauta o aumento de salário, a discussão sobre a duração da jornada de trabalho e a regulamentação do trabalho de crianças e mulheres, dentre outras reivindicações.
Sob essa perspectiva de reivindicação de direitos pela classe trabalhadora, o DIEESE (2006, p. 4) afirmou que a jornada de trabalho de 8 horas semanais e o direito ao descanso semanal foram pontos importantes de lutas coletivas da classe trabalhadora. Esse documento cita, como exemplo, as greves ocorridas no Estado de São Paulo nos anos de 1907, 1912 e 1917. É importante ressaltar que essas reivindicações foram atendidas pelo governo de Getúlio Vargas no ano de 1943, por meio da promulgação da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), porém, foram veiculadas como “direitos concedidos” pelo Estado21.
A jornada de trabalho foi regulamentada à medida que a classe trabalhadora se organizou com lutas coletivas e representações sindicais. Inicialmente, o objetivo da luta da classe trabalhadora pela diminuição da jornada de trabalho focava a própria sobrevivência. Com o passar do tempo, as lutas pela redução da jornada de trabalho buscaram propiciar um maior tempo livre ao trabalhador, que, consequentemente, lhe traria melhores condições de vida. Os sindicatos passaram a defender também a redução da jornada, como forma de diminuição do desemprego, já que redundaria na contratação de novos trabalhadores para
manter o mesmo nível de produção.
Antunes avalia a importância da luta pela redução da jornada de trabalho, como estratégia “para que não se prolifere ainda mais a sociedade dos precarizados e desempregados”.
[...] o direito ao trabalho é uma reivindicação necessária não porque se preze e se cultue o trabalho assalariado, heterodeterminado, estranhado e fetichizado (que deve ser radicalmente eliminado com o fim do capital), mas porque estar fora do trabalho, no universo capitalismo vigente, particularmente para a massa de trabalhadores e trabalhadoras (que totalizam mais que dois terços da humanidade) que vivem no chamado Terceiro Mundo, desprovidos completamente de instrumentos verdadeiros de seguridade social, significa uma desefetivação, desrealização e brutalização ainda maiores do que as já vivenciadas pela classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES,2009, p.175).
O autor defende que a luta pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários e pelo direito ao trabalho são ações coletivas complementares e entrelaçadas entre si.
No Brasil, a partir da Constituição Federal de 1988, a jornada de trabalho foi limitada a 44 horas semanais, distribuídas em oito horas diárias, conforme o artigo 7º, inciso XIII. Dal- Rosso (1998) aponta a greve dos metalúrgicos do ABC paulista como um elemento importante para a diminuição da jornada de trabalho. Essa greve foi conhecida como “a greve das 40 horas”. Em termos de regulamentação mundial, a Organização Internacional do Trabalho (OIT)22, em 1919, aprovou a limitação da jornada de trabalho a 48 horas semanais e a oito diárias.
No momento atual, diversas lutas de sindicatos e de centrais sindicais são empreendidas para a diminuição da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. O objetivo desta redução visa propiciar um maior tempo livre para o trabalhador e também uma possibilidade de diminuição do índice de desemprego, considerando a necessidade derivada de contratação de outros trabalhadores.
Segundo dados atuais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, além dos benefícios à qualidade de vida do trabalhador, poderá gerar dois milhões de novos empregos23. Na área da Saúde, a luta pela
redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais é histórica, estando, inclusive, registrada nas conferências de saúde.
Dentre as contradições próprias ao capitalismo, as grandes empresas nacionais e
22 A OIT é uma agência das Nações Unidas que formula e aplica normas internacionais do trabalho.
23 Informação retirada do site da CUT. Disponível em: http://cut.org.br/destaque-central/32449/galeria-de-audio- sp Acesso em: 10/03/2012.
multinacionais já incorporaram as 40 horas semanais e utilizam o discurso de flexibilização, não só da jornada, como também das relações trabalhistas. As pequenas e médias empresas, entretanto, reclamam do ônus financeiro a ser gerado pela redução da jornada de trabalho e enfatizam dificuldades para absorver os custos. No ramo do comércio, há longas jornadas de trabalho devido à necessidade de cumprimento de metas e de jornadas aos finais de semana e no período noturno.
É na perspectiva de Marx que aponta a possibilidade de mudanças do processo histórico a partir da ação dos homens que a profissão de Serviço Social será abordada a seguir.
7. O Serviço Social e a conquista das 30 horas semanais dos assistentes sociais