3.2 EMRAH KOLUNDAKĠ ÂġIKLARDA GELENEK
3.2.2 Mahlâs Alma
A última cartela apresentada às crianças caracteriza-se pela cartela “personagens”. Esse momento da coleta de dados apresentou-se de forma mais lúdica, em que as crianças relatavam momentos vividos com determinado personagem ou experiências com as formas observadas nas cartelas. Como os desenhos dessas cartelas estavam coloridos como forma de dar vida aos personagens e possibilitar uma identificação pelas crianças, os elementos tiveram uma recepção positiva.
As meninas tiveram maior interesse pela bailarina e princesa, pois tinham roupas rosas, apresentavam corações e borboletas na sua composição. E., quatro anos, disse que gostava muito de balé, que quando fosse maior ia pedir à mãe para fazer aulas de dança porque ela adora rosa. Já M., cinco anos, contou que a princesa rosa merecia um final feliz, pois estava muito bonita com aquela roupa de festa.
O grupo dos meninos foi quase unânime ao apontar que preferiam o robô dentre todos aqueles personagens. Mais uma vez a capacidade dele realizar coisas difíceis foi apontado como motivo da escolha e maior identificação, ainda que com a ilustração diferente da cartela “formas”. E., quatro anos, afirmou que escolheria aquele robô porque ele estava ainda mais bonito, pois estava apressado para resolver um problema. A nave com os personagens da turma da Mônica foi o que mais agradou a meninos e meninas, ao aparecer como personagens mistos quanto ao gênero e com poderes e características que se adequavam a ambos os gêneros. O casal de amigos A., quatro anos, e M., cinco anos, concordaram ao afirmar que era
161 legal o grupo de personagens da turma da Mônica pois daria para todos brincarem juntos e seria divertido
como o Trenzinho da Mônica23.
Cabe apontar que até essa fase do encontro, as observações tiveram cunho mais qualitativo, com o intuito de observar os sujeitos quanto às suas preferências e reações durante o contato com as cartelas. Além disso, como supracitado, a pesquisadora foi inserida aos grupos com o intuito de ganhar confiança e cumplicidade das crianças, o que facilitou e possibilitou que os próximos passos da pesquisa fossem dados de forma produtiva.
Ao término da dinâmica das cartelas, os dados passaram a ser coletados de forma que fosse possível observá-los de modo mais quantitativo. Para tato, ao fim do primeiro encontro, as crianças escolheram desenhos dos personagens já vistos e que seriam sua preferência para colorir. Os dados gerados a partir dessa escolha foram tabulados como forma de avaliar as seguintes circunstâncias:
- se as crianças escolheram os desenhos do seu próprio gênero, de gênero oposto ou neutro; - se as crianças coloriram os desenhos com cores do próprio gênero, de gênero oposto o neutro. Como fechamento dessa etapa os dados foram avaliados de modo que fosse contabilizada a escolha dos desenhos/pintura X gênero do sujeito.
A primeira observação pontuou a escolha do desenho que os sujeitos iriam colorir, contemplando os desenhos vistos nas cartelas ao longo do encontro. Com a barreira do contato pesquisadora X sujeitos quebrada, nesse momento as crianças já se apresentavam animadas com a brincadeira. Meninas e meninos decidiam quais desenhos iriam escolher, o que já sugeriu um primeiro resultado de escolhas de gênero (Gráfico 3). Ao todo estiveram presentes 34 meninas e 45 meninos no primeiro encontro.
23O Trenzinho da Mônica é uma atividade popular que acontece preferencialmente semanalmente ou em períodos
festivos na cidade de Caruaru e que corresponde a um passeio nas principais vias da cidade em um trem com os personagens da Turma da Mônica, entoando várias músicas infantis.
162
Gráfico 3. Números referentes às escolhas dos desenhos pelas crianças.
Fonte: Arquivo pessoal (2014).
Os desenhos escolhidos para as meninas em sua maioria faziam referência ao universo feminino, de princesas e bailarinas e apenas quatro desenhos do grupo dos neutros foram por elas escolhidos. Havia uma disputa na sala de aula pelos temas e cada uma das meninas já fazia planos das cores que iriam aplicar em cada desenho. Já os meninos contavam histórias dos personagens escolhidos, ilustrando ainda mais a forma retratada no papel. Carros e robôs foram os disputados entre os meninos, que batizavam os seus e contavam quais eram os superpoderes que poderiam executar. Ainda assim, onze desenhos neutros e dois elencados no grupo dos tidos como destinados às meninas ainda foram selecionados pelos meninos. O encontro virou uma divertida aula de artes e de discussão das escolhas, visto que eles comentavam entre si sobre os desenhos. C., quatro anos, escolheu a princesa para colorir porque a roupa e coroa dela eram detalhes de meninas. R., quatro anos, afirmou que o carro poderia ser escolhido por meninos e meninas para auxiliar nas atividades. Mas para ele seria ótimo pois ele conseguiria trabalhar e brincar ao mesmo tempo. Foi possível observar que os desenhos destinados a cada grupo quanto ao gênero foram os mais escolhidos entre meninas e meninos. Nenhuma menina escolheu desenhos do grupo masculino para ilustrar e apenas dois meninos escolheram o desenho oposto para colorir. Nos dois casos foi observado que os sujeitos que escolheram eram extremamente introvertidos e pegaram o primeiro desenho que viram.
Quanto ao momento de colorir, os sujeitos apresentaram características distintas entre si para dar vida aos desenhos escolhidos. Cores e traços foram adicionados às figuras como forma de personalizar cada um deles. Embora as crianças delimitassem uma área comum de representação cromática nos desenhos, foi possível observar resultados interessantes diversos (Gráfico 4).
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 a a
desenho neutro desenho menina