Fonte: (IGEO) Instituto de Geografia/UFU
Essas representações típicas das elites agrárias, empresariais e políticas se estabeleceram na região e também foram capilarizadas para outros setores da população. Pode-se afirmar que tais marcas vêm se constituindo nessa zona de fronteira espacial e simbólica, de acordo com as características do estrangeiro apontadas por Simmel:
Sua posição no grupo é determinada, essencialmente, pelo fato de ter introduzido qualidades que não se originam nem poderiam se originar no próprio grupo. A unificação de proximidade e distância envolvida em toda relação humana organiza-se, no fenômeno do estrangeiro, de um modo que pode ser reformulado de maneira mais sucinta dizendo-se que, nesta relação, a distância significa que ele que está próximo, está distante; e a condição de estrangeiro significa que ele, que também está distante, na verdade está próximo, pois ser um estrangeiro é uma relação muito positiva: é uma forma específica de inteiração. Assim, como o indigente e as variadas espécies de “inimigos internos”, o estrangeiro é um elemento do próprio grupo. São elementos que, de um lado, são imanentes e tem uma posição de membros, por outro lado estão fora dele e o confrontam. (SIMMEL,1983, p. 1 e 2).
32
Essa potencialidade positiva de especificidade em relação a Minas Gerais e de proximidades com Estados diferentes criou uma espécie de consenso na formação das urbanizações das duas cidades mais populosas da região: Uberlândia e Uberaba. Paira sobre elas um espectro rural que faz pulsar um “provincianismo cosmopolita” envolvendo os valores do campo com grandes tecnologias similares aos centros urbanos brasileiros e estrangeiros. Dessa forma e nesses contextos, a menção da região também extrapola a tríade matuto-cosmopolita do mineiro-goiano-paulista e eleva as cidades mais populosas da região a um patamar ainda mais cosmopolita, especialmente a cidade de Uberlândia. Até mesmo a negativa de alguns projetos de reconhecimento da região como metropolitana, apresentados desde o início do século passado até os dias atuais pelos deputados da região na Assembleia Legislativa, legitimam esse desejo do devir populacional metropolitano.
É interessante como entre as populações dessas cidades, seja em parcelas de moradores ricos, seja em classes médias ou pobres, a posição local e regional está inserida em vários circuitos migracionais interestaduais, nacionais e internacionais, projetando visões de mundo e experiências distintas sobre essas aproximações, mas que de toda maneira, situa a região como importante polo. Assim, pelo alto fluxo migracional e o intenso processo de urbanização comercial, Uberlândia virou o grande centro de condensação populacional, desejando há décadas virar cidade metrópole, mas que mantêm certas figurações rurais. Podendo ser entendida assim como uma cidade que sintetiza várias adjetivações: moderna, rural, violenta, barulhenta, bem planejada, coronelista, retrógrada, progressista, higienizada ou possuidora de uma cultura de “invasões” de terras.
2.2 Caiaponia, Sertão da Farinha Podre e Triângulo Mineiro: genocídio e etnocídio no controle social da colonização
O Triângulo Mineiro foi habitado por sociedades indígenas de tradição Aratu-Sapucaí culminando em épocas mais recentes na ocupação dos Caiapós e, posteriormente, nas formações de quilombos e aldeias coloniais. Os primeiros colonos portugueses chegaram à região por volta do século XVIII. A sua primeira forma de ocupação colonial foi consolidada por núcleos de populações indígenas criados por colonizadores e jesuítas.
33 Os indícios arqueológicos dos primeiros povos horticultores e ceramistas remontam a 1.000 anos, aproximadamente, conhecidos como Tradição Aratu-Sapucaí (Barbosa; Shimz, 1998). Esses agricultores construíam aldeias na mata-galeria, nas margens dos cursos d´água, praticavam agricultura fundamentada no milho, e desconheciam a mandioca. A área de distribuição da Tradição Aratu-Sapucaí (oeste minero e sul goiano) correspondia quase exatamente à região dos Caiapós Meridionais. Inúmeras outras coincidências entre os achados arqueológicos e os registros históricos sobre os Caiapós levam os especialistas à suposição de que existe uma continuidade cultural entre aquela tradição e esse povo indígena do período colonial (Barbosa; Shmiz, 1998). Não foram, contudo, os primeiros povoadores da região, pois uma outra cultura ainda mais antiga, a Tradição Itaparica, formada por caçadores e coletores exclusivos, antecedeu a Aratu-Sapucaí, e remontava ao final do pleistoceno (Dillehay, 2000). Nossa região em estudo, desse modo, vem sendo habitada há pelo menos 12.000 anos (LOURENÇO, 2010, p. 43 e 44).
Por esta relação entre povos indígenas e colonos portugueses, o Triângulo Mineiro foi chamado inicialmente pelos colonizadores de Caiaponia. Segundo Lourenço (2010), com características seminômades as populações dos Caiapós eram compostas por grupos que se juntavam no momento das plantações de milho, se dispersavam em pequenos grupos no final das plantações e se reencontravam novamente na época das colheitas. Em meio a essas etapas os nativos praticavam caças, coletas e se vinculavam em pequenas aldeias. De tempos em tempos, eram abandonadas por causa do sistema itinerante de produção agrícola.
Com as entradas e bandeiras houve as primeiras incursões coloniais no interior do Brasil. As condições interioranas, pouco exploradas face ao desenvolvimento litorâneo, e a exploração do interior das outras regiões de Minas Gerais, a partir do ciclo do ouro e diamantes, projetaram o Triângulo Mineiro como um importante ponto de passagem de viajantes, mineradores e tropeiros fazendo elo entre a parte interiorana do Sudeste e do Centro-Oeste com São Paulo e o restante do litoral brasileiro colonizado.
O caminho aberto por Bartolomeu Bueno da Silva e institucionalizado pela Coroa Portuguesa, estabelecia a estrada de Anhanguera como um único caminho para Goiás, incluindo pagamento de pedágios das tropas de viajantes sertanistas para o desbravador, formando assim em algumas áreas da estrada pequenos povoamentos. Esses primeiros povoamentos e arraiais criados para a exploração do ouro e diamantes, bem como o tráfego comercial na estrada de Anhanguera, sofriam violentos conflitos oriundos das incursões de ambas as populações - dos Caiapós e dos Sertanistas - impedindo em início de confronto a efetivação de habitações dos poderes imperiais e de colonos na região. Com o intuito de preservar os primeiros povoamentos, os colonos montavam policiamentos por meio de milícias para escoltar os tropeiros viajantes.
34
O processo histórico de constituição da estrutura econômica e política triangulina, principia-se no início do século XVII, quando essa região era apenas um ponto de passagem de mineradores e tropeiros. Entretanto, sua efetiva ocupação somente ocorreu no final do século XVIII, quando a expedição de Bartolomeu Bueno da Silva cruzou as terras entre os rios Grande e Paranaíba, rumo a Goiás. A descoberta de ouro e diamantes no interior de Goiás e Mato Grosso provocou a formação de alguns arraiais nas terras do chamado Sertão da Farinha Podre (atual Triângulo Mineiro), em decorrência do afluxo de pessoas em direção ao Brasil Central, em busca de riquezas. Assim, desde aquele momento, essa região se constituiria em um ponto de passagem entre o litoral e o sertão (SOARES, 1995, p. 60 e 61)
A partir desse processo de colonização a região chamada de Caiaponia tornou-se conhecida pelos colonos como Sertão da Farinha Podre. Narrativas míticas demonstram como o nome da região pode ter surgido devido ao forte caráter de resistência dos indígenas Caiapós e grupos de negros quilombolas em relação às violentas expedições sertanistas realizadas pelos portugueses.
Essa região é denominada de Sertão da Farinha Podre por causa dos sacos de palha com farinhas encontrados enterrados ou pendurados nas árvores. Das histórias contadas a origem deste nome, a que mais me convence é a que afirma que quando as bandeiras se aproximavam os indígenas e quilombolas que aqui habitavam escondiam a farinha com esperança de poderem voltar alguns dias as suas aldeias. Eles se refugiavam nas matas e esperavam os bandeirantes abandonarem suas moradas após arrasá-las com saques e incêndios. Mas esta região, após a sua “descoberta” foi povoada pelos familiares dos bandeirantes. Por causa de sua localização geográfica, passou a ser um entreposto para os avanços das bandeiras. A farinha que fora escondida apodrecia com a ação do tempo, e depois encontrada pelos novos habitantes do lugar. Por causa da grande quantidade de mantimentos apodrecidos encontrados, a região da bacia do Rio Paranaíba que abrange o atual Triângulo Mineiro e parte do sul do estado de Goiás, ganhou o nome de Sertão da Farinha Podre. O Sertão da Farinha Podre era povoado pelos quilombolas saídos do Ambrósio (região de Formiga e Piuí), na metade do século XVIII. A área quilombola dessa região era denominada de Quilombo de Campo Grande, possuindo diversos núcleos, como pontos de uma rede. O Quilombo do Ambrósio foi como uma célula central de onde partiam integrantes que formavam os outros núcleos da rede (MARRA, 2005, p.3).
Além dos violentos conflitos entre nativos, negros e sertanistas, conflitos intracoloniais entre jesuítas e colonos pelo controle social dos indígenas também foram comuns na região, como em boa parte do Brasil. Esses grupos de colonos divergiam no exercício de governar tais sociedades nativas: jesuítas fazendo um trabalho de catequização enquanto que sertanistas objetivavam escravizar ou exterminar tais grupos nativos.
Pierre Clastres cria um modelo que poderá servir com um bom recurso de análise sobre essas diferentes formas de colonização doSertão da Farinha Podre:
35
Em suma, o genocídio assassina os povos em seu corpo e o etnocídio os mata em seu espírito. Em um ou em outro caso trata-se da morte, mas de uma morte diferente. Ele compartilha com o genocídio uma visão idêntica do Outro. O Outro é a diferença, claro, mas, sobretudo a má diferença. Estas duas atitudes se separaram em relação à natureza do tratamento que se deve reservar à diferença. O espírito genocidário quer pura e simplesmente negá-la. Exterminamos os outros porque são absolutamente maus. O etnocídio, por outro lado, admite a relatividade do mal na diferença. Os outros são maus, mas podemos melhorá-los, obrigando-os a transformarem-se até se tornarem possível, idênticos aos modelos em que propomos, que lhe impomos (CLASTRES, 1982, p.54).
Reproduzindo o modelo brasileiro de colonização, enquanto os sertanistas desbravavam o sertão mineiro no paradigma do genocídio, os jesuítas contrariamente desejavam promover o etnocídio do “selvagem Caiapó” oferecendo para ele o processo civilizador europeu ibérico monoteísta. Ao menos no Sertão da Farinha Podre, os primeiros venceram e o genocídio foi institucionalizado através dos contratos de matança conveniados entre a Corte portuguesa e milícias armadas criadas por sertanistas portugueses e nações indígenas contrárias aos Caiapós.
Segundo Pereira (2010), em 3 de setembro de 1759 aconteceria o rompimento definitivo do Rei de Portugal com o tipo de colonização realizada pelos jesuítas. Através das ordens do Marquês de Pombal, muitos foram expulsos da colônia e outros que habitavam a região foram presos e levados sob escolta para São Paulo.
Além das sociedades indígenas, os primeiros quilombos foram criados na região no século XVIII por escravos fugitivos que chegaram ao Triângulo Mineiro através da rota do rio São Francisco. Com a presença de senhores de escravo, outros quilombos ocuparam as regiões, tais como o Ambrósio, situado entre Ibiá e Araxá, Grunga em Uberaba e outro situado em Cruzeiro dos Peixotos (atual distrito de Uberlândia).
Foi somente após as expedições de desarticulação e extermínio aos Caiapós e também dos quilombolas que os povoados, aldeamentos coloniais e poderes da Coroa conseguiram se consolidar na região e se expandir para a formação de pequenas cidades. Essas expedições de extermínios, muitas vezes, eram planejadas pelos próprios governadores como narra Lourenço:
Em Carta Régia de 1749, destinada a D. Marcos Mendonça, governador da Capitania de Goiás, a Coroa portuguesa decidiu pela guerra aos caiapós, que não cessa de infestar com as mais cruéis hostilidades o caminho de São Paulo para Goiás, e até as povoações daquelas Minas. Um ano antes os caiapós haviam dizimado os garimpeiros
36 de um núcleo aurífero, nas cabeceiras do rio das Abelhas, no mesmo lugar onde, alguns anos depois, surgiria o arraial do Desemboque. Impunha-se uma solução militar contra os caiapós da região dos rio Paranaíba e Grande, para resguardar a segurança do tráfego da Estrada dos Goiases. Para isso, o governo da capitania contratou os serviços do sertanista paulista Antônio Pires de Campos, o moço. Ainda no século XVIII era comum a contratação de paulistas pelo Estado Colonial, para a prática do sertanismo de extermínio, com o intuito de desinfetar os índios e quilombolas a área de fronteira (LOURENÇO, 2010, p.55).
Por outro lado, o temor à violência Caiapó também beneficiava a Coroa portuguesa no sentido de intimidar grupos e expedições alternativas de colonos que objetivavam principalmente criar rotas ilegais para comercializar ouro e diamante sem pagar os devidos impostos.
As contratações de matanças realizadas pela Coroa portuguesa com os sertanistas capitães de milícias e alguns grupos indígenas tornaram-se a estratégia institucionalizada mais comum. Antônio Pires de Campos foi um dos principais sertanistas que prestou serviços de matança para o governo imperial da época. Em 12 de outubro de 1742 foi contratado para eliminar os índios Caiapós da região. Ao assinar contrato com o governador de São Paulo, D. Luiz de Mascarenhas, ao entorno do chefe da milícia criou-se 16 núcleos de povoamentos acompanhando o trajeto da estrada Anhanguera. Somado aos dois povoamentos existentes – Santana do Rio das Velhas e Rio das Pedras – formavam os primeiros núcleos de povoamento, cujo objetivo maior era o de garantir e realizar a segurança das comitivas que circulavam pela estrada. Segundo Pereira (2010) inicialmente os aldeamentos foram povoados por índios Bororos os maiores aliados dos sertanistas portugueses nas expedições de extermínio contra os Caiapós, mas que com o passar dos tempos também foram dizimados ou “amansados”.
Mesmo com o alto grau de controle social sobre as populações marginalizadas, o desdobramento dos fluxos migracionais de fazendeiros senhores de escravos, escravos, populações quilombolas e índios para as cidades da região foram comuns. Muitos desses fluxos afrobrasileiros se tornaram habituais em vários povoados, tais como os festejos ligados aos santos de louvor negro como Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia celebrados pelas Irmandades negras e ternos de congados. Essas Irmandades criaram espaços e grupos que geriam tais festejos, além de ser o ambiente para os negros instituírem formas de solidariedade, principalmente frente à morte e a doença. Essas organizações tornaram-se uma das principais referências institucionais e políticas (no sentido arendtiano) que dispunham populações pobres e negras no Triângulo Mineiro e em toda Minas Gerais. Em muitas cidades
37
do Triângulo Mineiro, como em Uberlândia, as irmandades ainda são responsáveis pela gestão das festas de santos negros e por uma série de ações sociais para a população devota.
Massacres feitos, povoados consolidados, devoções evocadas, o Sertão da Farinha Podre desenvolveu e expandiu seus pequenos adensamentos populacionais, cujo objetivo maior era a exploração das jazidas de ouros e diamantes. Com a rápida expansão-decadência das minas há um refluxo migracional nesses aldeamentos que, logo em seguida, consolida-se não mais pelos efeitos da mineração, mas pela produção agrícola de subsistência e criação extensiva de gado, ambas realizadas por colonos que resolveram ficar na região.
Com esse refluxo, o primeiro momento de constituição de cidades aconteceu mais tardiamente, exatamente com as migrações de boa parte de mineiros que se deslocaram internamente com a decadência das minas de ouro e diamantes, além de mineiros e agricultores de outras regiões de Goiás e Mato Grosso que migraram no final do século XVIII, com intuito de plantar e garimpar os incipientes povoados mineradores. Algumas pequenas cidades da região como Desemboque, Estrela do Sul, Grupiara, Romaria e Cascalho Rico – locais propícios para o exercício do garimpo – sofreram esse fluxo e refluxo populacional se mantendo até hoje como pequenas cidades.
Os primeiros contatos exploratórios da região datam no início do século XVII, quando jesuítas da Companhia de Jesus, buscando catequizar os numerosos índios da área, fundaram o Primeiro Núcleo da Raça Branca de Minas – A Aldeia de Sant´ana do Rio das Velhas – que não existiu por mais de 20 anos, pois esta catequese, impedindo a escravização dos índios, deu nascimento a uma ferrenha perseguição contra os jesuítas, promovida pelos brancos que queriam jugular, ao cativeiro, os desventurados gentios. Daí a organização de grandes Bandeiras Paulistas, marchando contra aquelas reduções que foram totalmente destruídas, entre os anos de 1628 e 1634... e o silvícola do Triângulo ficou na sua primitiva condição... foi quase um século depois, que, partindo de São Paulo, em 1722, rumo a Goiás, a expedição Bartolomeu Bueno Filho construiu a “Estrada Real”, ou “Estrada do Anhanguera”, ou “Picada do Goiás” (FREITAS e SAMPAIO, 1985, p. 22).
De forma mais ampla, nota-se em toda Minas Gerais uma figuração migracional específica em relação ao Brasil. Com as entradas e bandeiras em busca das pedras preciosas, a primeira etapa de povoamento colonial se figurou com uma população mais urbanizada, porém, devido ao alto controle social do Império, com uma escassez alimentar. A decadência das minas mudou a figuração para uma população mais ruralizada e pobre, com a passagem da exploração das pedras preciosas para o cultivo da agricultura e criação pecuária, gerando
38
uma população que produzia pouca riqueza, mas uma abundância de comidas. Nessa segunda etapa, tanto os embriões das primeiras cidades quanto aquelas consolidadas foram se empobrecendo, com parte das populações coloniais migrando para áreas mais ruralizadas.
Foi somente após esse processo de ruralização, somado aos resquícios urbanos da primeira etapa, que se consolidou, no início do século XX, um conjunto de cidades que objetivavam várias frentes de produção do setor primário, secundário e terciário. Dentre elas destacam-se: Uberaba, Araguari e Uberlândia (esta última chamada na época de São Pedro de Uberabinha).
Através dessa conjuntura histórica mineira, do processo de urbanização e do surgimento das cidades brasileiras, aliadas às primeiras experiências de entreposto comercial com a estrada de Anhanguera, o Triângulo Mineiro se constituiu para o Brasil como um espaço voltado à produção agropecuária e à logística do comércio, tornando-se até hoje um importante elo mediador e de escoamento das diversas produções regionais brasileiras.
2.3 Dos aldeamentos às cidades: alianças, conflitos e jocosidades entre Uberlândia, Uberaba e Araguari
Se na transição dos primeiros aldeamentos rurais para as cidades o processo de urbanização do Triângulo Mineiro começou com a passagem das pioneiras expedições bandeirantes no século XVII, essa transição para o urbano se consolidou na fase de crescente ampliação das relações mercantis, até o efetivo fortalecimento dos laços com São Paulo, por meio da inauguração da Companhia Mogiana de Estrada de Ferro em 1889, na cidade de Uberaba. Esta era o grande centro político, jurídico, tecnológico e religioso da região.
Em 1896 os trilhos do trem chegaram até Araguari. Ambas beneficiadas por serem
pontas de linhas, começaram a dividir as funções produtivas da região: Uberaba focada na produção agropecuária e Araguari na comercialização e no armazenamento da produção agrícola (SOARES, 1995). Com o processo de urbanização das cidades brasileiras, houve a expansão da linha ferroviária Estrada de Ferro Goiás criada entre Araguari e Goiânia, aumentando ainda mais a influência da cidade na região. Essa expansão ligou o Triângulo Mineiro também com Goiás, começando a ser um importante papel de entreposto comercial, trazendo crescimento e benefícios para o início da urbanização das cidades.
39
Fazendo a ligação entre o Sudeste industrial e Centro-Oeste agropecuário, se especializando na produção de alimentos, sobretudo, cereais como arroz e milho, na comercialização de produtos industrializados oriundos de São Paulo que iam até Goiás e produtos agropecuários que saiam de Goiás rumo a São Paulo. Assim, o Triângulo Mineiro começa a criar os primeiros embriões de região comercial e agrícola. Neste período, a principal atividade agrícola de São Paulo era a monocultura de café e a sua produção não conseguia suprir a alimentação da crescente população, sendo necessário importar, sobretudo