Shigeaki Ueki foi assessor do ministro da Indústria e do Comércio, ministro de Minas e Energia do governo Geisel (1974-79), presidente da Petrobras (1979-84) e membro da Delegação Brasileira junto à Associação Latino-Americana de Livre Comércio.
Depoimento concedido a Marly Motta, Tatiana Coutto e Marina Monassa em duas sessões realizadas no Rio de Janeiro nos dias 14 de dezembro de 2010 e 19 de janeiro de 2011. A atuação no Ministério da Indústria e Comércio
Como o senhor foi trabalhar com o ministro da Indústria e Comércio, Paulo Egydio Martins,252 no governo Castelo Branco?
Eu era o mais jovem conselheiro da Associação Comercial de São Paulo. Aos 26 anos, convivi com grandes economistas como Daniel Machado de Campos,253 Paulo Egydio, Delfim Netto,254
Boaventura Farina,255 e com professores de universidades europeias que tinham vindo para a USP depois da Segunda Guerra. Na Associação Comercial, sentimos que havia um plano sinistro em curso no Brasil para transformá-lo em um “Cubão”, uma Cuba enorme, gigantesca. O processo andava rápido. Raul Didier, presidente do MMDC/Sociedade Veteranos de 1932, temia que o país se
tornasse comunista, e achava que era preciso lutar contra esse processo. A Associação tornou-se um dos núcleos de um movimento que estava em curso no Brasil, principalmente no Rio, Minas e São Paulo.
Em 1963, Daniel Machado de Campos me incumbiu de representar São Paulo na Conferência
Brasileira de Associações Comerciais em Belo Horizonte. Apresentei, em nome da Associação, uma proposta de criação do Conselho Nacional do Comércio Exterior, mais tarde instituído no governo Castelo Branco. Ao retornar da sessão de abertura, comentei com o doutor Machado de Campos que, a meu ver, as associações comerciais estavam tomadas por comunistas, socialistas e simpatizantes, porque tinha havido um movimento nítido no sentido de trazer somente embaixadores dos países socialistas e comunistas. Quando foi nomeado ministro, Daniel, durante um almoço, me apresentou a seu sobrinho. Quando terminamos, Paulo Egydio disse que precisava de uma pessoa como eu, e perguntou-me se eu poderia deixar o escritório para trabalhar com ele. Preveniu-me de que eu não ganharia nada, mas aceitei e vim para o Rio de Janeiro.
O que o atraiu no Ministério da Indústria e Comércio?
Primeiro, a personalidade do Daniel Machado de Campos. Também percebi no Paulo Egydio um idealismo do “Brasil Grande” desenvolvido: além dele, todos com quem trabalhei, como o marechal Ademar de Queirós,256 o general Golbery257 e, principalmente, o general Geisel, pensavam do mesmo modo.
O que levou o senhor a atuar na Alalc e na OEA?
Em 1967, a Confederação Nacional da Agricultura tinha que mandar uma delegação à Alalc, em Montevidéu. Paulo Tarso Flecha de Lima,258 chefe da Divisão da Alalc, representava o Itamaraty e, depois de duas reuniões, falou para o chefe da missão do setor da agricultura que eu deveria
permanecer lá para assessorá-lo.
Mais tarde, já no governo Costa e Silva, um ex-ministro do Interior, chamado João Gonçalves de Souza,259 que fora nomeado diretor-técnico da Organização dos Estados Americanos, me disse que o governo Castelo Branco estava servindo de modelo na OEA para transferir a experiência para outros países da América Latina, e me convidou para trabalhar com ele como consultor da OEA. O contrato inicial seria de três meses, que poderiam ser prorrogados, dependendo de minha adaptação e interesse. Aceitei o convite: já tinha quase abandonado o escritório de advocacia, começava a gostar de política.
Foi uma experiência muito boa, mas também fiquei meio desencantado, porque meu primeiro projeto foi a criação de um curso de comercialização e marketing de produtos agrícolas na América Latina. João Gonçalves gostou do meu projeto, assim como o diretor técnico, um americano de origem italiana chamado Theo Crevenna.260 Levamos a proposta ao Departamento de Estado americano, já que a maior parte da verba da OEA vinha dos EUA. Havia um programa de “Alimento para a Paz”, e defendi a tese de que aquilo era uma tragédia para a América Latina, porque a região tinha um clima favorável para produzir. O fornecimento gratuito de alimentos desestimularia toda a cadeia de
produção, tornando os países dependentes e incapazes de concorrer no mercado mundial. Precisávamos de ajuda para aprender a comercializar, não para produzir ou receber de graça. Lembro que um funcionário do Departamento de Estado disse que era impossível atender ao meu pedido; isso caberia à iniciativa privada, não ao governo ou a um organismo internacional. O Itamaraty tampouco nos apoiou. Pedi demissão da OEA, e voltei após três ou quatro meses de trabalho em Washington.
Quando voltei ao Brasil fui trabalhar com Paulo Egydio, que havia aberto uma consultoria de projetos referentes à implantação de indústrias, situada em um escritório na rua Boa Vista.
Petrobras: gestão privada de uma estatal Como se deu sua ida para a Petrobras?
O Paulo Egydio tinha sido nomeado árbitro em uma questão com os Estados Unidos sobre o café solúvel. Os EUA reclamaram que a atitude do Brasil era discriminatória contra a indústria de café norte-americana e mundial, porque dávamos um tratamento tributário mais favorável para o café solúvel e menos favorável para o café verde. Houve a arbitragem. O Sindicato da Indústria do Café Solúvel contratou um grupo de advogados, entre eles eu e Jorge Nogueira. Fomos remunerados pelo sindicato para trabalhar nessa questão. Penso que no fim vencemos, mas, como acontece em
arbitragem, não se sabe quem ganhou. Defendemos a nossa posição, e o Brasil não teve que mudar sua política cafeeira na época.
Paulo Egydio era muito amigo do Ralph Rosenberg, nome importante na indústria química e petroquímica. Montou a Bakol, a Cevekol, e ainda era sócio de uma grande indústria de peças de automóvel e da Union Carbide. Ele tinha dois consultores na época, o marechal Ademar de Queiroz e o doutor Leopoldo Miguez de Mello, considerado o pai da petroquímica no Brasil. Apesar disso, precisava de um executivo, e pediu ao Paulo Egydio que indicasse alguém. Paulo me indicou. Aceitei o desafio e o cargo de vice-presidente. Na prática eu era o presidente, pois o marechal Ademar de Queiroz vivia no Rio e não exercia função executiva. Em 1968, a Bakol foi vendida para a Dow Chemical, do Golbery. Participei inclusive da negociação, no escritório de advocacia Pinheiro Neto. Em relação à Cevekol, as conversas tomaram outro vulto porque a empresa começou a dar lucro, e por causa disso o marechal Ademar comentava a meu respeito com o general Geisel, que era ministro do Superior Tribunal Militar, STM. Quando Médici tornou-se presidente da República, o general Geisel se tornou presidente da Petrobras e me disse que a área comercial e financeira da Petrobras precisava de alguém com experiência na iniciativa privada. Preveniu-me que eu substituiria um homem de personalidade muito forte, o general [Augusto] Roca Dieguez, inclusive cotado para ser presidente da Petrobras. Isso significava que eu encontraria oposição; poderia haver resistência ao meu nome na Petrobras, pois o general Roca Dieguez havia nomeado todas as pessoas, na diretoria financeira e na diretoria comercial. Havia a resistência natural, em uma empresa estatal, a um nome da iniciativa privada.
Como diretor comercial da Petrobras, adotei uma posição que repeti em outros cargos de diretoria em que havia um grande número de colaboradores: não substituir ninguém. Pensei muito para tomar a decisão, o que me ajudou futuramente quando fui para o Ministério de Minas e Energia.
Depois que terminou a posse eu disse que nomearia o chefe do gabinete, doutor Aldir Quadrado, que era engenheiro nuclear e funcionário da Petrobras indicado pelo Ademar Queiroz, o subchefe
auxiliar, general Djalma Albino dos Santos, muito próximo do Geisel, e a secretária, dona Sionira Rolup. Todos os outros estavam confirmados nos respectivos cargos, como o superintendente do departamento comercial, Carlos Sant’Anna,261 que depois foi presidente da Petrobras, e todos abaixo deles. É lógico que substituí muitos por outros mais preparados para a função, mas não dispensei ninguém. Fiz o mesmo no Ministério de Minas e Energia. Em uma empresa como a Petrobras, não se pode ficar 30 dias esperando.
Como é possível combinar valores do mundo privado e uma empresa estatal e monopolista?
Sempre defendi que a Petrobras era uma empresa privada que tem o governo como acionista
majoritário. Temos que seguir as regras de uma empresa privada. E defendi a tese de que tínhamos que publicar o balanço trimestralmente, como as grandes empresas de petróleo do mundo, e não uma vez por ano. Essa era uma grande autodefesa da Petrobras contra a ingerência política na fixação dos preços de derivados de petróleo; o que falta no Brasil é: accountability, governança e transparência, como em qualquer empresa. É o que faltava na Petrobras.
Como era a relação, por exemplo, do ministro de Minas e Energia, Dias Leite,262 com o general Geisel, da Petrobras?
Muito difícil, presenciei muitos conflitos. Geisel tinha uma personalidade forte, estudava muito e entendia muito de contabilidade. Quando assumiu a presidência da Petrobras, ele já conhecia profundamente o setor de petróleo e energia, pois havia sido superintendente da refinaria e
representante do Exército no Conselho Nacional do Petróleo durante muitos anos. Quando tomou posse na Presidência da República, em março de 1974, Geisel teria que enfrentar a crise do petróleo em cheio. Lembrava, meio frustrado, que na presidência da Petrobras havia comprado o barril de petróleo abaixo de um dólar. O preço chegou a 12 dólares rapidamente.
A verdade é que não havia no MME alguém que entendesse de petróleo. Eu seria o único ministro de Minas e Energia oriundo da área do petróleo. Uns ministros eram políticos, outros eram ligados ao setor elétrico, barrageiros, que não entendiam de petróleo e menos ainda de energia nuclear.
O senhor sabe por que o Geisel ganhou a indicação para a Petrobras? Estaria a indicação relacionada a uma possível trajetória rumo à Presidência da República?
Não sei responder, é possível, porque o general Orlando Geisel263 se tornou ministro da Guerra e Ernesto Geisel era respeitado no Exército pela experiência que tinha na área civil, havia sido secretário de Fazenda da Paraíba, superintendente da refinaria de Cubatão e havia representado o Exército no Conselho Nacional do Petróleo.
O sucesso da Petrobras na exploração em alto-mar contribuiu para a redefinição das prioridades em termos de política energética?
Creio que sim. Geisel foi muito criticado por ter dado prioridade para o downstream da
petroquímica e refino e por ter abandonado a exploração e produção, mas isso não é verdade. Ainda na Petrobras, tomou decisões no sentido de desenvolver a produção offshore, como no caso do
campo de Guaricema, em Sergipe, ainda que os custos fossem o dobro do produto importado, por entender que precisávamos desenvolver a capacidade de exploração em alto-mar.
O relativo desconhecimento da área do petróleo por parte do MME conferia à Petrobras autonomia do ponto de vista decisório?
O marechal Ademar me disse que ninguém poderia ser presidente da Petrobras se não tivesse um telefone vermelho ligado diretamente ao presidente da República. Ele teve uma linha direta com o Castelo Branco, assim como eu viria a ter com o Figueiredo. É uma empresa grande que recebe pressão de todos os lados, principalmente dos grandes chefes políticos, em sua maioria de natureza pessoal.
Então, os embates ocorriam porque Geisel sabia mais do que o Dias Leite.
Sabia muito mais. Geisel tinha um telefone vermelho direto com o presidente Médici, e muitas vezes o presidente me colocava na frente, com o professor Dias Leite, que não gostava - ou ainda não gosta – muito de mim. Mas eu estava exercendo minha função.
Como se deu o convite para a pasta de Minas e Energia?
No início de 1974, o presidente Geisel me disse que eu daria um grande ministro da Agricultura e perguntou-me se eu aceitaria o cargo. Para isso, eu deveria cumprir bem minha missão na Petrobras e cuidar da questão do abastecimento até o último dia. Ele mandou para minha casa uma Kombi
carregada de documentos, na maior parte contribuições de candidatos a ministro. Depois do expediente, eu lia os documentos para me preparar para ser ministro da Agricultura. Algumas semanas depois, o secretário dele, Heitor Aquino,264 me telefonou pedindo para eu devolver os documentos da Agricultura, porque o ministro seria Alysson Paulinelli,265 de Belo Horizonte. Em seguida, Heitor disse que me enviaria os documentos para eu estudar o Ministério da Indústria e Comércio. Respondi que não os enviasse, pois havia trabalhado com o Paulo Egydio e conhecia as propostas. No derradeiro momento, o general Golbery, que tinha horror a conversar por telefone, me chamou ao gabinete do Geisel, e disse que Geisel achava que o ministro da Indústria e Comércio tinha que ser paulista como eu. Pediu-me um favor: que eu conversasse com o Severo Gomes e o sondasse sobre vir a ser o futuro ministro da Indústria e Comércio do governo Geisel.
O senhor pensou que ia ficar sem nada?
Não. Depois de eleito, Geisel foi a Brasília para a primeira reunião com o presidente Médici. Andávamos sempre de avião comercial, mas, naquela ocasião, alugamos um jato da Líder. Antes de pegar o avião, Geisel me chamou de lado e disse que Golbery e eu seríamos seus ministros. Não disse que ministérios assumiríamos, pois éramos seus curingas. Conversei com o Severo e ele disse que, se convocado, aceitaria o cargo. Falei com o Golbery, que telefonou para o Severo na minha frente e confirmou o convite para o cargo.
No dia seguinte, eu e o Geisel tivemos uma conversa longa, e ele me disse que o problema da energia era mundial e que essa era uma área em que o governo não poderia falhar. Ele havia pensado em muitos nomes, e havia rumores de que Dias Leite seria confirmado no cargo, o que seria natural em uma época de crise. No entanto, Geisel me indicou como ministro de Minas e Energia. Fui avisado pelo SNI de que só eu e o presidente teríamos acesso ao telefone vermelho direto no meu gabinete no MME com o gabinete do presidente. Pensei que todos os ministros tinham esse telefone e um dia comentei com alguns colegas, que se mostraram surpresos, até com um certo mal-estar. Quando eu sentei no gabinete do Ministério vi muitos dados sobre energia, mas tudo espalhado na Eletrobras, na Petrobras, no Ministério do Planejamento e assim por diante. Não havia consolidação de dados. Não havia accountability. Aí eu disse: “Todos vocês vão continuar no cargo.”
Mas o senhor sabia que iria trocar.
Sim, havia intenção de troca, e houve mudanças na direção do Ministério. Na área do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), Acyr Ávila da Luz, que era o número dois, passou a ser o número um; para o Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE) eu trouxe
paulistas, pela primeira vez. A área elétrica era dominada por mineiros. Na área do petróleo e mineração, vinham sugestões, e havia cobrança para dar andamento ao processo.
É possível identificar um viés nacionalista entre os mineiros em oposição a uma imagem ‘entreguista’ ou de privatizador que o senhor talvez transmitisse?
Não nesse sentido. Por exemplo, para o professor Dias Leite, a concorrência com a Vale deveria ser evitada. Houve uma decisão tomada por ele e apoiada pelo Conselho de Segurança Nacional
impedindo a extração de minério de ferro pela Samitri e a Marcona Mining, que tinha sido nacionalizada no Peru e trouxera dinheiro para o Brasil, constituindo a empresa Samarco para exportar minério de ferro.
Quando recebi a visita de um dos diretores da Belgo Mineira, fui questionado sobre a decisão de meu antecessor, que só permitia à Vale exportar minério de ferro. Estudei o assunto e notei que a exportação de minério de ferro da Vale se voltava mais para a Ásia, para o Japão, um pouco menos para a Europa e zero para os Estados Unidos. Através da Samarco, o minério do Peru ia para os Estados Unidos, era um mercado novo. A meu ver, a decisão do professor não era correta, o
interesse do país era maior do que o interesse da Vale do Rio Doce. O presidente Geisel disse que, como a decisão havia sido tomada pelo CSN e assinada pelo presidente Médici, o projeto deveria cumprir diversas formalidades para mudar a decisão do governo. Autorizei as atividades da Samarco e vários outros projetos. O país, numa crise como aquela, precisava de recursos e de investimentos.
O senhor defendia a ideia de uma política industrial que privilegiasse determinados setores?
Defendia uma política industrial, mas sem privilégios. O Brasil teve uma política completamente diferente da adotada pela Alemanha e Japão, onde as pessoas pensavam grande e a longo prazo. No Brasil poucas pessoas pensavam grande, como Geisel, Leopoldo Miguez e outros. Leopoldo
afirmava que neste país nada ainda havia sido feito exageradamente grande, nem as projeções. Geisel apoiava essa ideia.
Nossa política industrial era totalmente errada. Alemanha e Japão tinham projetos de país e reduziam progressivamente as tarifas de importação para estimular o desenvolvimento tecnológico e a
produção nacional e expô-la gradativamente à concorrência internacional, como ocorreu com a produção de polietileno por empresas como a Bayer, a Basf e a Mitsubishi Chemical. As indústrias japonesas e alemãs investiram, desenvolveram tecnologia e passaram a ter uma participação grande no mercado mundial de petroquímica. O Brasil não teve política industrial. A tradicional política da década de 1950 investiu na indústria básica, em aço e um pouco na parte de química – álcalis, soda- cloro, etc. Depois não houve mais nada. Montamos fábricas de automóveis com tudo importado. O mesmo ocorreu com a proteção aos produtos eletrônicos, que tinham uma tarifa altíssima, enquanto os componentes entravam de graça.
Quando o governo Geisel assumiu, essa política estava em vigor; discuti muito com o presidente. Se mudássemos subitamente ou radicalmente, inviabilizaríamos até mesmo a indústria de montagem. Por outro lado, essa política tarifária impedia os investimentos, pois era melhor importar. Então, para implantar a indústria siderúrgica, petroquímica, de fertilizantes – a Petrofértil –, atrairíamos um grupo que tivesse conhecimento e dominasse a tecnologia, um grupo nacional, e nós, o governo. Sem esse tripé – Estado, multinacionais e capital nacional –, ainda estaríamos com uma indústria de
montagem em que todos os componentes seriam importados.
Antes do presidente Geisel não tivemos ninguém que entendesse a problemática de energia como um todo, que estabelecesse prioridades. E hoje ele é criticado, injustamente, por não ter dado apoio para o setor de hidreletricidade. Isso não é procedente. O investimento foi enorme em Tucuruí, Itaipu e em outras hidrelétricas. Mas a energia nuclear mereceu atenção porque a crise do petróleo nos obrigava a ter um suprimento que não fosse o petróleo. A operação conjunta dos dois sistemas traria um
benefício extraordinário, mas houve muita oposição. O presidente Geisel, antes de morrer, me disse estar convencido de ter feito a coisa certa. Eu também estou. A única coisa em que não há
reconhecimento é no setor nuclear, porque em todos os demais tivemos reconhecimento: offshore, exploração de petróleo, etanol.
Um programa nuclear modesto
O senhor assumiu o Ministério de Minas e Energia com o desafio de propor uma resposta do Brasil à crise do petróleo.
A primeira coisa que notei foi que o setor elétrico era uma ilha, em que prevalecia muito a presença de técnicos do setor de hidreletricidade – barrageiros, como eles orgulhosamente se denominavam. De certa forma, temos que prestar homenagem a eles: quando o custo da energia elétrica era mais alto do que a de derivados de petróleo, eles implantaram no país grandes usinas hidrelétricas, assinaram o acordo de Itaipu e formularam o projeto de Tucuruí. Com a crise do petróleo os jornais não
cansavam de dizer que o país passou a ser inviável, pois nossa dependência de combustível
importado ultrapassava 80%. Verificamos que algumas obras não muito grandes do setor estavam praticamente paradas devido a dificuldades econômicas e gerenciais, como a usina de Paredão, no Amapá; Curuá-Una, em Santarém, onde gerávamos eletricidade com óleo diesel, a um custo enorme.