Onde se observa que, após a queda do Império Romano, a Igreja continuou sendo uma instituição influente e poderosa.
Na visão de Sjoberg (1972, p. 47), “com o colapso do Império Romano, suas cidades declinaram acentuadamente, tanto a capital [...] como muitas cidades fronteiriças, algumas a ponto de desaparecer completamente”, verificando-se naquele momento a desintegração do seu poder central.
Enquanto Castells (2000, p. 43), em acordo com a análise desenvolvida por Sjoberg (1972) afirma:
então, é lógico que a queda do Império Romano no Ocidente ocasiona quase o desaparecimento da forma socioespacial da cidade, pois tendo as funções politico-administrativas centrais sido substituídas pelas dominações locais dos senhores feudais, não houve outro fundamento social a encargo das cidades a não ser o das divisões da administração da Igreja ou a colonização e a defesa das regiões fronteiras [...].
1.1.2 A cidade na Idade Média
Durante o período medieval que se estende do século V ao XV, com a desarticulação inicial da rede urbana, ocorre a dispersão da população para o campo, de onde passa a tirar o seu sustento.
No sistema feudal, cuja forma de produção era basicamente agrícola, o campo passa a ter predominância em relação às cidades que, naquele momento, não mais exerciam a função político-administrativa, bem como a de centro de produção e de comercialização.
A partir do século VII, quando os árabes interrompem o fluxo comercial através do Mediterrâneo, são desarticuladas as atividades econômicas das cidades que ainda tinham conseguido manter sua importância após a queda do Império Romano do Oriente.
Acentua-se, então, a migração de um imenso contingente populacional para a área rural, o que contribuiu para gerar problemas de ordem espacial e de ocupação, tendo em vista que parte dessa população não teve condições de desenvolver suas atividades no campo, sem outras alternativas, retornava ao seu local de origem.
Essa população migrante ou retorna à localidade de origem ou opta por estabelecer sua moradia em outro local, fundando assim novas aldeias as quais posteriormente se transformam em vilas e em novas cidades. No primeiro caso, os antigos laços sociais são
retomados, enquanto no segundo, são estabelecidos novos laços sociais. Na ótica de Castells (2000, p. 43-44),
a cidade da Idade Média renasce a partir de uma nova dinâmica social inserida na estrutura social precedente. Mais concretamente, ela se edifica pela reunião de uma fortaleza preexistente, em torno da qual se organizara um núcleo de habitação e serviços, e de um mercado [...]. Nesta base organizam-se as instituições político-administrativas próprias à cidade, que conferem-lhe uma coerência interna e uma autonomia maior frente ao exterior. É esta especificidade política da cidade que faz dela um mundo próprio e define suas fronteiras enquanto sistema social. A ideologia de pertencer à cidade, prolongada até a sociedade industrial avançada, encontra seu fundamento histórico neste gênero de situação (grifos do autor). Na Idade Média, subsistiram dois tipos de aglomerados: as cidades episcopais e os burgos. Segundo Sposito (1997), nas cidades episcopais, localizavam-se os centros de administração eclesiástica, com um papel econômico de pequena relevância, devido à abrangência do mercado se restringir ao âmbito local. Enquanto nos burgos, por suas características de fortificação, residiam os senhores feudais e seus servos.
No período compreendido entre os séculos V e IX, as cidades medievais passaram por um período de estagnação. Com a retração da atividade comercial, a cidade perdeu importância econômica deixando de ser o centro de trocas e de produção artesanal.
No entanto, nesse espaço de tempo, novas atividades surgiram promovendo com elas uma divisão social do trabalho e a diversificação das classes sociais. A partir de então, para Benevolo (1997, p. 259) “cresce assim a massa de artesãos e dos mercadores, que vivem a margem do poder feudal”, os quais tinham por sustentação os latifúndios e a exploração servil.
A partir do século X, a economia européia começa a retomar o seu crescimento. Eis que ocorre um aumento da produção agrícola, com reflexos diretos nas atividades industriais e comerciais, quando passam a ter maior relevância devido ao elevado aumento da população que passou de 22 milhões em 950 para 550 milhões em 1350 (BENEVOLO, 1997).
Com o passar do tempo a cidade adquire novas funções e as relações sociais se estruturam em torno da igreja e das corporações de ofícios – guildas de construtores e artesãos7, elementos formadores da cidade medieval.
7
As guildas, corporação artesanal ou corporações de ofício, eram associações de artesãos de um mesmo ramo, isto é, pessoas que desenvolviam a mesma atividade profissional, que procuravam garantir os interesses de classe em regulamentar a profissão. Ocorreram na Europa durante a Idade Média e mesmo após. Cada cidade tinha sua própria corporação de ofício. Essas corporações tinham como finalidade proteger seus integrantes.
De acordo com Mumford (1998, p. 286), “o movimento das cidades, a partir do século X, é uma história de velhas colônias urbanas a se transformarem em cidades mais ou menos autogovernadas e de novas colônias a se constituírem sob os auspícios do senhor feudal, dotados de privilégios e direitos [...]”, que a maior parte da população não alcançava.
Lefebvre (2006, p. 4) afirma que “a cidade medieval, sem perder o caráter político, foi principalmente comercial, artesanal, bancária. Ela integrou os mercados quase nômades, relegados para fora da cidade”, promovendo o surgimento de nova rede de cidades que se interligavam por estradas, por vias fluviais e marítimas, mantendo entre si uma efetiva relação comercial e financeira.
No período que antecedeu à queda do Império Romano, o contingente populacional das cidades era elevado, o mesmo não ocorria com as cidades do período medieval que eram menos populosas.
Segundo Mumford (1998, p. 284), “no fim do século XII, por exemplo, Paris tinha cerca de 100.000 habitantes; e ao fim do século XIII, algo em torno de 240.000. Em 1280, Florença tinha 45.000 habitantes, e, em 1339, cerca de 90.000, ao passo que [...] Bruges e Ghent mostravam números comparáveis”. Ou, conforme se pode depreender, os centros avançados da época eram em sua maioria de porte médio.
Enquanto para Benevolo (1997, p. 262), “o desenvolvimento das cidades promove e acelera as mudanças nos campos. A cidade mercantil importa víveres, matérias-primas e exporta produtos da indústria e do comércio [...]”. Cabendo assim ao campo, continuar a produzir em maior quantidade para atender a demanda da cidade que cada vez mais se eleva com o crescimento da sua população.
Lefebvre (2006, p. 5), afirma que:
as cidades medievais no apogeu de seu desenvolvimento, centralizaram as riquezas; os grupos dirigentes investem improdutivamente uma grande parte dessas riquezas na cidade que dominam. Ao mesmo tempo, o capitalismo comercial e bancário já tornou móvel a riqueza e já constituiu circuito de trocas, redes que permitem as transferências de dinheiro. Quando a industrialização vai começar, com a preeminência da burguesia específica (os “empresários”) a riqueza já deixou de ser principalmente imobiliária. A produção agrícola não é mais predominante, nem a propriedade da terra. As terras escapam aos feudais e passam para as mãos dos capitalistas urbanos enriquecidos pelo comércio, pelo banco, pela usura. Segue-se que a “sociedade” no seu conjunto, compreende a cidade, o campo e as instituições que regulamentam as suas relações, tende a se constituir em rede de cidades, com uma certa divisão do trabalho (tecnicamente, socialmente, politicamente) feita entre essas cidades ligadas por estradas, por vias fluviais e marítimas, por relações comerciais e bancárias. [...]. O que se levanta sobre essa base é o Estado, o poder centralizado. Causa e efeito dessa centralização
particular, a centralização do poder, uma cidade predomina sobre as outras: a capital. (grifo do autor)
Para Singer (1990, p. 22), “pode-se interpretar deste modo o surgimento do capitalismo no seio da sociedade feudal, [...] no centro dinâmico de uma economia urbana, que lentamente se reconstitui na Europa, a partir do século XIII [...]”. Pelo que se pode concluir que o “renascimento urbano que marca o último período da Idade Média, teve base territorial no próprio aglomerado medieval, que não possuía caráter urbano” (SPOSITO, 1997, p. 31).