forma regular mas sem grandes movimentações ou acontecimentos. Só na década de cinquenta, e por questões que serão devidamente abordadas, é que se intensificam as relações com o “País irmão”, com o General Craveiro Lopes na alta magistratura de Portugal.
No entanto a política externa portuguesa durante a presidência de Craveiro Lopes (1951-1958) foi sempre elaborada pelo chefe do governo, Professor Doutor Oliveira Salazar, em conjunto com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Prof. Paulo Cunha. Isso aconteceu durante todo o consulado de Salazar de 1936 a 1968 e prolongou-se também ao período do governo de Marcelo Caetano (1968-1974).
Na década de cinquenta Portugal vivia o ambiente internacional do pós-guerra. Portugal tinha grandes interesses e muita responsabilidade mas era um país pequeno e com pouca força, por isso a sua política externa tinha que ser ambiciosa, mas ao mesmo tempo muito cautelosa.
Os ministros dos negócios estrangeiros portugueses mostraram-se exímios negociadores executando uma política que praticamente lhes era ditada, nas suas grandes linhas, pelo Presidente do Conselho, professor Oliveira Salazar.
Embora Portugal aderisse em 4 de Abril de 1949, ao Tratado do Atlântico Norte e decidisse alinhar com os Estados Unidos segundo a lógica de aliado marítimo, o que é facto é que, avesso às Organizações Internacionais, Salazar continuava com a sua política de “orgulhosamente sós”. O período de seis anos entre 1949 (entrada na NATO)192 e 1955 (entrada na ONU)193 é provavelmente o melhor e o mais bem sucedido ao nível da política externa portuguesa. Em 1955 dá-se a entrada simultânea de Portugal e Espanha na ONU. Se a entrada da Espanha na ONU significou a saída do isolamento que até aí estava votada na cena internacional, para Portugal a entrada na ONU marca o declínio da tolerância externa para com a sua administração, e o início da verdadeira pressão internacional. Assim, aos poucos Portugal fica condicionado pelo
192 Organização do Tratado do Atlântico Norte 193 Organização das Nações Unidas
59 seu isolamento, já que quase todos os países criticam Portugal, no que se refere à sua política ultramarina, chegando mesmo a exigir que Portugal retire dos países Africanos.
O regime ditatorial e autoritário de Salazar teimava em manter uma atitude de independência, afastamento e mesmo de hostilidade face a todo e qualquer projecto de natureza política, mas ao mesmo tempo fazia questão de participar e marcar presença nas Organizações de natureza económica.
A opção pela política do “orgulhosamente sós” repercutir-se-á também nas relações do Presidente da República com os seus homólogos de outros países da Europa e também das Américas.
Desta forma, o Presidente Craveiro Lopes apenas efectuou três visitas de Estado, sendo uma a Espanha de Francisco Franco, entre 15 e 20 de Maio de 1953, outra a Inglaterra a convite da Rainha Isabel II, entre 25 e 28 de Outubro de 1955, e outra ao Brasil, com o Presidente Juscelino de Oliveira, entre 5 e 25 de Junho de 1957.
Para além destas viagens oficiais Craveiro Lopes, visitou as Províncias Ultramarinas portuguesas.
A 18 de Julho de 1936 começa a Guerra Civil de Espanha. Salazar sabe da importância do desfecho do conflito para a sobrevivência do seu regime. Na maior discrição são colocados ao serviço das forças franquistas todos os recursos que Portugal podia dispor. A “questão espanhola” ocupa o centro das preocupações de Salazar entre Fevereiro de 1936 e finais de Março de 1939
No Verão de 1938, em plena crise centro-europeia originada pelas pretensões agressivas do nacional-socialismo alemão de Hitler sobre a região dos Sudetas e sobre a Checoslováquia, o irmão do general Francisco Franco, Nicolau Franco, dirige-se a Portugal para propor a Salazar um Tratado de amizade e segurança de fronteiras. O tratado luso-espanhol é assinado em Março de 1939 nas vésperas da vitória franquista. A partir do Inverno de 1942 este tratado passa a ser conhecido como Pacto Ibérico.
Após a ofensiva vitoriosa da Alemanha hitleriana sobre a França, a Espanha declara o seu estatuto de potência não-beligerante. Muda assim a posição assumida no início do conflito em que afirmava a sua neutralidade quase em simultâneo com Portugal.
Essa alteração da política espanhola leva a intensas e breves negociações entre Portugal e Espanha e leva à assinatura do I Protocolo Adicional ao Tratado de Amizade de Março de 1939, em 29 de Julho de 1940. Os dois Estados ibéricos ficam obrigados a
60 consultas mútuas obrigatórias no caso de se verificarem circunstâncias em qualquer um deles que “implicassem” com a segurança e o estatuto internacional do outro.
A preocupação central de Salazar passa a ser doravante a eventualidade de Espanha entrar na Guerra. Em Fevereiro de 1942 encontra-se em Sevilha com o general Franco, a quem repetidamente chama a atenção para os efeitos da germanização da Europa. A partir de Novembro de 1942 e da invasão do Norte de África pelas tropas Aliadas e da evolução definitiva de Espanha para a neutralidade, que ficou clara com a visita do Conde de Jordana, Ministro dos Assuntos Exteriores de Espanha, a Portugal, a atenção passa a ser dedicada às negociações com os Aliados.
É precisamente esta matéria que ocasiona uma divergência entre os 2 países. Excluída a possibilidade da Espanha entrar na NATO, o governo espanhol pressiona Portugal no sentido da não adesão, alegando a incompatibilidade com o Tratado de Março de 1939 e com o Protocolo Adicional posterior.
As diligências não têm sucesso e as tensões são dissipadas na visita de Franco a Portugal em Outubro de 1949.
O acento na continuidade da legitimidade constitucional evitava uma tomada de posição clara em relação ao novo regime instituído. Além do mais, quando esse regime se comprometia a seguir a mesma orientação anterior no que concerne às grandes linhas de política externa. Este compromisso, patente nas circulares enviadas sucessivamente (à medida que a situação política e os seus protagonistas se iam modificando) aos representantes diplomáticos estrangeiros acreditados em Portugal, é confirmado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros português, em entrevista a jornal espanhol, onde explicita as linhas mestras da política externa portuguesa: a aliança secular com a Inglaterra; a relação privilegiada com o Brasil; o reatamento das relações com a Alemanha; as relações culturais com a França; o aprofundamento das relações com a Espanha, tanto com o povo, como com o Governo; e a inexistência de contactos com os “soviets”, agora no poder na Rússia.
A intensificação das relações luso-espanholas merece aqui uma atenção particular. Desde 1923 que a Espanha era governada por uma ditadura militar, chefiada pelo General Primo de Rivera, com a conivência do rei Afonso XIII. Não seria de admirar que a implantação de regime idêntico em Portugal provocasse uma aproximação entre os dois países. Foi o que sucedeu. Logo após o golpe de 28 de Maio chega a Lisboa a notícia que a Espanha pretendia elevar a sua representação diplomática em Portugal à categoria de embaixada. Tal informação, veiculada pelo ministro
61 português encarregue da Legação de Portugal em Madrid, causa impacto no meio político português, que imediatamente inicia as diligências no sentido de retribuir, o que leva a cabo, através do decreto n.º 11750, redigido nos termos seguintes:“ Considerando
os sinceros sentimentos de amizade que reciprocamente nutrem as Nações Portuguesa e Espanhola, sentimentos derivados não só da vizinhança e afinidade de raça como de sólidos vínculos, tais como a História, a mentalidade, as descobertas que deram à civilização um novo mundo, vínculos que naturalmente impelem a uma íntima aproximação, sem exclusão do respeito mútuo pelas suas soberanias, e às relações fraternais entre os dois países (…).
Considerando ainda o alto apreço em que foi tida pelo Governo de Sua Majestade o Rei de Espanha de estimular a cordialidade de afectos e solidariedade de interesses entre os dois povos irmãos, elevando à categoria de Embaixada a sua Legação em Lisboa (…).
Havemos por bem, de harmonia com a resolução em Conselho de Ministros, decretar o seguinte: Artigo 1.º É elevada à categoria de Embaixada a Legação da República Portuguesa em Madrid.”194
Portugal elevava deste modo o número das suas embaixadas para três: Brasil, Grã-Bretanha e agora Espanha. São diversos os exemplos que ilustram esta aproximação entre os países ibéricos, entre os quais podemos citar: os acordos de cooperação económica celebrados nesta altura, a visita oficial do Presidente da República Portuguesa a Espanha, acompanhado pelo Presidente do Conselho e pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, realizada em Outubro de 1929, a censura prévia em relação a notícias pouco abonatórias para Portugal195, o controle governamental sobre as movimentações dos exilados políticos portugueses em solo espanhol, etc. Porém, as relações “arrefecem” um pouco com a vitória republicana em Espanha, em Abril de 1931. Se é certo que Portugal reconheceu o novo regime quase automaticamente (a 18 de Abril de 1931), também o é que as similitudes entre as formas de governar desapareceram, surgindo no seu lugar uma desconfiança surda, em que estava presente a nostalgia dos tempos antigos pelo lado português, e a clara simpatia espanhola pela causa dos exilados políticos portugueses.
194 Diário do Governo, I Série, n.º 132, 22 de Junho de 1926, p. 1.
195 O Embaixador Mello Barreto está autorizado pelo próprio Primo de Riviera para actuar directamente
62 Na sequência da nova ordem internacional resultante do pós-II Guerra Mundial e designadamente das pressões para a descolonização, Portugal procura angariar apoios externos às suas posições. Essa necessidade cresce particularmente após os primeiros conflitos com a União Indiana. Ainda para mais quando um dos aliados preferenciais de Portugal, o país vizinho, não se solidariza com a política externa portuguesa. Em Maio de 1956 o governo espanhol inicia mesmo relações diplomáticas com Nova Delhi.
Reforçam-se as tentativas de construção de uma comunidade luso-brasileira, celebrando-se, desta forma, o Tratado de Amizade e Consulta Luso-Brasileiro, cujos documentos de ratificação são trocados entre Paulo Cunha e Olegário Mariano em 5 de Janeiro de 1955: salvaguarda para os 2 países a fidelidade às raízes, sem prejuízo das relações específicas com outras nações; principio da consulta, consignado quanto a problemas internacionais de interesse comum e que torna viável uma coordenação de atitudes e de esforços.
A visita a Portugal de Café Filho, vice-presidente brasileiro que ascendera à chefia do Estado na sequência da morte de Getúlio Vargas em finais de Agosto de 1954, acontece em Abril de 1955.
A 22 de Janeiro de 1956 Juscelino Kubitschek de Oliveira, presidente eleito do Brasil, Chega a Portugal. A visita, não sendo oficial é conduzida como se fosse. É nesta altura que convida Craveiro Lopes a visitar o Brasil.
A visita de Craveiro Lopes, dado o seu interesse político e a desconfiança de Salazar relativamente ao à sensibilidade política do chefe de Estado para a conduzir, é preparada por aquele ao pormenor. A confiança do chefe do Governo no Presidente da República já não é a mesma. Salazar teme algum “deslize” do presidente perante o assédio da imprensa brasileira e sobretudo teme o prestígio que a viagem lhe possa trazer se bem sucedida. Salazar combina os ínfimos pormenores com Craveiro Lopes e com o MNE que o acompanha na viagem.
A 4 de Junho de 1957 o chefe de Estado parte para o Brasil por via aérea. Da comitiva faz parte Paulo Cunha, que partira alguns dias antes em transporte marítimo e Mário de Figueiredo, depois de muito instado por Salazar.
Na sequência da nova ordem internacional resultante do pós-II Guerra Mundial e designadamente das pressões para a descolonização, Portugal procura angariar apoios externos às suas posições. Na década de 50 e depois dos primeiros conflitos com a União Indiana, a questão colonial adquire progressivamente um papel central como motivação de toda a política externa portuguesa. Esse papel será evidente após a
63 Primavera de 1961 e do deflagrar do conflito em Angola. Portugal tenta construir uma rede de apoio externo à posição por si defendida. Os seus objectivos são consolidar a posição de Portugal no seio da NATO, reforçar o entendimento com o Brasil e alargar o relacionamento externo de Portugal. É neste contexto que se insere a visita oficial do presidente da Indonésia a Portugal.
A visita faz parte de um conjunto bem mais vasto, que se inicia com as visitas do presidente brasileiro Café Filho (1955) e do presidente eleito do mesmo país Kubitschek de Oliveira (1956). A prossecução dessa política continuará com uma série de visitas de chefes de Estado a Portugal, que demonstram bem os esforços diplomáticos portugueses: em 1957 dão-se as visitas de Isabel II de Inglaterra e do presidente do Paquistão; em 1959 as visitas do imperador etíope Hailé Selassié e do primeiro-ministro de Marrocos; em 1960 as visitas do Secretário Geral da ONU, do presidente do Peru, do presidente dos Estados Unidos da América, dos reis do Nepal e da Tailândia.