I. BÖLÜM
5. DERSİM SANCAĞI BELEDİYE DAİRELERİ
1.1 Ma’müratü’l-Aziz Merkez Kazaları Nahiyeleri
A posição de Naufrágio baseia-se na aproximação entre três conceitos: alteração, crise e dependência absoluta. O primeiro, como vimos, Ortega y Gasset (2010) apresenta como um estado, no qual o sujeito não responde de acordo com suas próprias convicções. Em um estado comparado pelo autor ao sonambulismo, o sujeito é refém das ações que o rodeiam. Dentro desta perspectiva, consideramos que a crise é o disparador e a travessia entre o período de alteração e ensimesmamento, tendo em vista que o conceito de crise, segundo Ortega y Gasset (2010), remete a um sujeito inicialmente confuso, desorientado e impedido de decidir com precisão, mas que, ao mesmo tempo, busca uma nova condição e perspectiva de vida. Já em relação ao conceito de dependência absoluta winnicottiano, a posição de Naufrágio corresponde ao período de transição entre a fase de dependência absoluta, na qual o bebê ainda vive em plena imaturidade, semelhante
ao conceito de alteração orteguiano, e a fase de dependência relativa, período de desenvolvimento da tolerância.
O naufrágio é uma situação imprevista que pode ocorrer durante uma rota de navegação. Porém, antes de uma embarcação afundar, provavelmente, ela estava navegando de forma satisfatória, até que algo alterou sua condição e iniciou seu processo de naufrágio. Uma tempestade, um ataque inimigo, um choque em um iceberg são algumas das possíveis causas de um naufrágio. Neste sentido, propomos que um diário de crise nasce das mãos de um sujeito que está em condição semelhante a um barco à deriva, na dependência da direção dos ventos e das correntes marítimas, ou seja, encontra-se em estado de alteração e dependência absoluta até o momento em que algum imprevisto, uma crise, instaura- se, causando-lhe desconforto, instalando uma condição desesperadora na vida do indivíduo. O processo que identificamos como posição de Naufrágio inicia com o diarista que não está seguro de suas ações, parece não saber diferenciar-se dos outros, ou seja, está distante de sua própria vontade e, por isso, apenas vive as consequências do mundo que o rodeia. Nessa posição, o diarista ainda não reconhece os limites entre eu e não-eu, não sabe ao certo qual é o seu lugar dentro do processo de crise que está vivenciando. Por isso, põe em dúvida suas certezas e, desorientado, desabafa nas páginas do seu diário, assim como um marinheiro grita por socorro, quando percebe que o barco está afundando.
Nessa posição, o diarista procura apresentar elementos de sua história pregressa que incentivaram o processo de escrita, bem como indícios do reconhecimento de seu estado de crise. A posição de Naufrágio é também o período em que o diarista começa a desenvolver o método de escrita e organização do seu diário.
Aproximamos este posicionamento ao naufrágio de Robinson Crusoe4 e sua chegada à ilha ou à tempestade enfrentada por Jonas. Assim como esses personagens, o sujeito, ao começar a escrever um diário de crise, ainda perdido, passa por grandes dificuldades, pois, em meio à tempestade e riscos de naufrágio, ele busca desesperadamente novas convicções. O período em que Robinson
4 Robinson Crusoe, personagem de Daniel Defoe, após sofrer um naufrágio e viver durante anos em uma ilha, depara-se com a presença de um homem “selvagem”, que, em um primeiro contato, é visto como uma ameaça, mas que, com o passar dos dias, acaba ganhando a confiança do náufrago, mostrando-se um sujeito puro e leal. A obra de Daniel Defoe é considerada um clássico da literatura ocidental.
Crusoe navega por mares revoltos constitui uma situação sobre a qual ele não tem o controle, assim como o sujeito que inicia um diário de crise.
Um diário que pode ser considerado como diário de crise é o de Florbela de Espanca5, que relata a angústia e o sofrimento dos seus últimos meses de vida. Na passagem do dia 28 de abril de 1930, Florbela expressa a posição de Naufrágio. Diferente de Robinson Crusoé que viu sua embarcação afundar em alto mar, ela afundou no mar da própria existência: “Não tenho forças, não tenho energia, não tenho coragem para nada. Sinto-me afundar. Sou o ramo de salgueiro que se inclina e diz que sim a todos os ventos” (ESPANCA, 2009, p. 20). Tanto Florbela quanto Robinson Crusoe reconhecem que se encontram em uma situação de crise e em condição de passividade, ou seja, parecem reféns das circunstâncias dos seus entornos.
Nessa etapa do desenvolvimento de um diário de crise, o diarista relata até mesmo suas dificuldades anteriores à data de sua primeira entrada, assim como os motivos que o levaram a iniciar seus registros. Outro ponto fundamental é o processo de adaptação ao gênero. A fase de crise e alteração é, inicialmente, conduzida por desabafos, ideias confusas e descargas de informações.
Podemos também citar como exemplo explícito da posição de Naufrágio, o caso de José Luis Cerveto (1979), conhecido como “El asesino de Pedralbes”. Cerveto, após ter sido preso no Centro Penitenciário de Huesca, na Espanha, por confessar friamente o assassinato de um casal, inicia um diário demonstrando a urgência em expressar o estado crítico que assola seus dias. No dia 22 de maio de 1974, data do primeiro registro, ele expõe seu posicionamento inicial de Naufrágio:
Busco como el náufrago un clavo ardendo en el que poderme salvar. Pero encuentro que ese clavo, además de estar ardendo, está lleno de grasa y, cada vez que intento cogerlo, resbalo y se me escapa. Por eso desisto y me dejo llevar por el oleaje hasta que, agotado, me abandono a mis fuerzas. Y, cuando mis fuerzas fallan, entonces, perezco. Porque dejo de luchar; desisto de volver a intentar cogerme al clavo (CERVETO, 1979, p. 94).
5 A poeta Florbela de Alma da Conceição Espanca nasceu em Vila Viçosa, Portugal, em dezembro de 1894. É considerada a maior representante feminina da poesia portuguesa. Em dezembro de 1930, ela faleceu por excesso de barbitúricos, não se sabe se por acidente ou suicídio.
Cerveto compara sua condição a de um náufrago e busca um meio de emergir da crise, expressando o desespero por uma solução. Podemos perceber também o aparecimento desta posição logo no primeiro registro do Diário do hospício de Lima Barreto, no dia 4 de janeiro de 1920: “Estou incomodando muito os outros, inclusive meus parentes. Não é justo que tal continue” (BARRETO, 2010, p. 44). Nesse caso, é possível perceber que há o desejo de mudança, mesmo que ainda não tenha o controle dos motivos que o colocam naquela situação, já que Lima Barreto foi encaminhado até o hospício pelas mãos da polícia.
No diário de Maura Lopes Cançado (1979), por sua vez, também é possível perceber a posição de Naufrágio: “Acho-me na seção Tillemont Fontes, Hospital Gustavo Riedel, Centro Psiquiátrico Nacional, Engenho de Dentro, Rio. Vim sozinha. O que me trouxe foi a necessidade de fugir para algum lugar, aparentemente fora do mundo” (CANÇADO,1979, p. 30).
A escritora traduz sua angústia em um desejo de fuga, de busca por um lugar qualquer, demonstrando sua insatisfação com a condição atual. Maura Cançado relata momentos confusos, de muitas dúvidas e ideias aparentemente inconclusas:
Quem? Acordo assustada. Não cochilei ao menos. Ou dormi demais? Estou cansada. Muito cansada. Não. Cansada de quê “Ao menos um lugar no mundo. Ao menos um lugar no mundo”. Apego- me a este pensamento vazio. Incolor, surgido não sei como, sem motivo (?), pensamento isolado, flutuante e insistente. Quadradinho da colcha de retalhos (CANÇADO,1979, p. 37).
A posição de Naufrágio, geralmente, encontra-se no início do diário, quando o diarista ainda não possui convicção em relação aos motivos que o levaram a começar os seus registros. O diarista parece desorientado, mas subentende as necessidades de mudança, de reflexão e introspecção que flutuam no seu mar de possibilidades.
Ao lermos um diário de crise é possível perceber a posição de Naufrágio, em situações nas quais o diarista deixa transparecer sua dificuldade em nomear as causas de seus sentimentos, bem como sua orientação no tempo e no espaço, como no caso desse registro de Maura do dia 25 de outubro de 1959:
O desconhecimento me cerca por todos os lados. Percebo uma barreira em minha frente que não me deixa ir além de mim mesma.
Há nisto tudo um grande erro. Um erro? De quem? Não sei. Mas de quem quer que seja, ainda que meu, não poderei perdoar. É terrível, deus, terrível (CANÇADO,1979, p. 34).
O naufrágio do sujeito representa a dificuldade que predispõe a fase de iniciação, o sofrimento que inspira um processo de reconstrução de si. É o momento inicial da transição do bebê e remete à sensação primeira de desespero pela ausência materna e à procura por algo que lhe dê a ilusão de proteção e conforto proporcionada pela presença da mãe. No entanto, é importante informar que nem sempre ela estará presente no diário, pois pode corresponder a um momento anterior ao início da escrita diarística.