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Como foi possível vislumbrar, a reestruturação na CEF se combina diretamente com a questão da terceirização da força de trabalho, o que permitiu à empresa redefinir o seu quadro funcional e, consequentemente, segregá-lo.

Os dados apresentados no organograma (figura 2) indicam que oitocentos e setenta e quatro trabalhadores (874), divididos entre técnicos bancários, estagiários, menores aprendizes e a força de trabalho terceirizada se coadunam no espaço físico da Caixa, a fim de desenvolver as atividades da empresa.

A convivência entre esses trabalhadores, estabelecida por vínculos empregatícios distintos, ou seja, ou estão atrelados à CEF por meio do contrato de trabalho por tempo indeterminado, como é o caso dos funcionários efetivos, ou nela estão amarrados pelo contrato de trabalho por prazo determinado, condição de todos os demais trabalhadores, diga-se: é permeada de contradições.

Nesse caso, é oportuno salientar que, salvo os estagiários e menores aprendizes, toda a força de trabalho terceirizada que está alocada na instituição, embora se relacione com ela por tempo determinado, possui registro na carteira de trabalho. Tal registro, ao menos em tese, garante um

conjunto de benefícios a esses trabalhadores, a exemplo do direito ao gozo de férias e o FGTS.

O paradoxo dessa situação é a constatação da “permanência” de alguns desses trabalhadores na CEF para além de dois anos. Legalmente, o contrato entre a tomadora de serviços e a prestadora não pode extrapolar dois anos, salvo após essa concorrer a novo processo licitatório e vencê-lo. Contudo, verifica-se a “continuidade” de parte da força de trabalho terceirizada na Caixa, mesmo quando a prestadora de serviços perde o contrato.

A rigor, os trabalhadores terceirizados são desligados das empresas que finalizam contrato com a instituição e logo são aproveitados pelas novas subcontratadas, normalmente a pedido dos representantes da CEF. O gráfico abaixo pode revelar o tempo de “permanência” desses trabalhadores na instituição.

Gráfico 7 – Tempo de serviço da força de trabalho terceirizada na CEF

Fonte: Gráfico elaborado pela autora com base em levantamento de dados colhidos junto à força de trabalho contratada, entre os meses de fevereiro a maio de 2009.

Como se verifica, há trabalhadores terceirizados sendo objeto de contrato da Caixa Econômica há mais de 20 anos. Óbvio que é uma estimativa inexpressiva, significando somente 3,2% da totalidade dos 125 trabalhadores

consultados na pesquisa, até porque no outro extremo, ocupando um percentual bem superior, ou seja, 51,2% localizam-se os que nela laboram pelo período de até dois anos. Destacam-se ainda os que trabalham na instituição há mais de dez anos, que correspondem a 8,0% dos trabalhadores, bem como os que nela estão entre o período de 7 a 10 anos, que são 10,4% deles. Aqueles que estão entre o prazo de 3 a 6 anos na instituição, equivalem 18,4% da força de trabalho, e os com menos de 1 ano corresponde a 8,8% do universo da amostra.

Nesse sentido, faz-se pertinente elucidar a trajetória de um desses trabalhadores que se encontra trabalhando há mais de duas décadas nos aposentos da CEF:

Olha, eu comecei a trabalhar na Caixa em 1987, iniciei como estagiária, era bem novinha, tinha somente 17 anos. No ano de 1989 acabou o tempo do meu estágio e aí o gerente da Unidade de Processamento de Dados – UPED – , como se chamava à época, perguntou se eu gostaria de trabalhar como digitadora na empresa que a CEF estava contratando e eu disse que sim. Daí, estou como terceirizada na Caixa até hoje. Acompanhei todas as mudanças e ampliação da terceirização. Hoje trabalho no setor da Retaguarda, passei por todas as firmas, pulei de uma para outra, parece-me que trabalhei em 6 delas ou mais. Já tenho 22 anos de casa, é um longo período. Eu parei no tempo, me acomodei aqui. Agora é que acordei, pois vou ser demitida porque a terceirização da Retaguarda vai acabar e os meus dias estão contados aqui (Auxiliar de Processamento de Dados, 2009).

Nesse caso, verifica-se que essa combinação entre o permanente e o transitório marca a situação de toda a força de trabalho da instituição. Ela, por conseguinte, vai se caracterizar por desigualdades reais entre direitos e deveres de todos os trabalhadores perante a Caixa, o que, inclusive, tornam as relações de trabalho tensas e conflituosas entre a totalidade deles.

Ora, o processo de terceirização na CEF conforma uma realidade marcada fundamentalmente pela diferenciação e segmentação no trabalho. Na verdade, estar trabalhador terceirizado constitui uma situação marcada, principalmente, pela discriminação, indiferença, baixa remuneração, insegurança e precarização do trabalho. Talvez, por isso, a idéia de trabalhar na condição de terceirizado seja apenas passageira – por um tempo, até que se obtenha a aprovação em um concurso público federal, que é conotativo de

melhores níveis salariais, perspectiva de construção de carreira profissional e, sobretudo, “estabilidade”. Isso é o que almeja a maioria dos trabalhadores contratados por tempo determinado que a investigação contemplou na Caixa Econômica Federal.

Logo, a constatação a que se chega, a partir dos dados levantados por meio das entrevistas, é que esses trabalhadores mergulham em uma crise de incerteza, instabilidade e vulnerabilidade. Eles oscilam entre tempos de trabalho de curta duração e tempos de desemprego. Situação essa que, resguardadas as devidas diferenças entre um momento histórico e outro, entra em consonância com a existência da superpopulação relativa, que Marx (2006) classificou de população flutuante, de latente e de estagnada, e que se fez presente no processo de industrialização inglesa.

De um modo geral, pode-se afirmar que esses trabalhadores possuem ótimo nível de escolarização. Do universo de 125 entrevistados, 0,8% (1) cursa pós-graduação; 42,4% (53) cursaram ou estão cursando graduação; 46,4% (58) deles concluíram o Ensino Médio; 7,2% (9) estão em processo de conclusão e 3,25% (4) cursaram somente as primeiras séries do Ensino Fundamental.

Esses dados a respeito do nível de escolarização dos trabalhadores podem revelar quão relativa é a tese de que um bom nível de escolarização seja o passaporte para a ascensão profissional. “Contudo, é conveniente assinalar que no curso da crise do capital, os diplomados também aumentaram as chances de ficar desempregados ou subempregados, ainda que os menos escolarizados estejam mais vulneráveis ao desemprego” (DIAS, 2009, p.110). É por isso que Castel (1998) e Leite (1996) endossam que uma alta qualificação não é o caminho mais glorioso para obtenção de um emprego condizente ao título que se obteve.

No que diz respeito à questão de gênero, eles são em sua maioria do sexo feminino. Cerca de 52,8% (66) dos trabalhadores são do sexo feminino, em detrimento de 47,2% (59) do sexo masculino, o que é revelador da forte presença da mulher em um ambiente de trabalho que outrora se caracterizou pela prevalência de homens.

A presença do contingente feminino é um traço distintivo desse ambiente de trabalho. Hoje, tendo em vista as intensas mudanças forjadas no mundo do trabalho, é possível compreender que a classe trabalhadora [...] “é tanto masculina como feminina e, portanto, é mais diversa, heterogênea e complexificada (ANTUNES, 1999, p.46). Um dado curioso é que no ambiente da Caixa não se observam diferenças por sexo no que se refere ao conteúdo das tarefas executadas pelos trabalhadores. Aqui, homens e mulheres executam as mesmas atividades e percebem os mesmos salários.

Percebe-se ainda que esses trabalhadores que já não são tão jovens assim, pois a maioria deles, ou seja, 68,% já se aproximam dos quarenta anos. Certamente, esses são aqueles trabalhadores que sentiram (ou sentem) na pele o preço das mudanças operadas pelo capital desde os anos de 1970. Eles correspondem à força de trabalho que ingressou no mercado de trabalho quando as empresas brasileiras, ressentindo-se da crise do capital, iniciavam seus ajustes administrativos. No gráfico 8 se verificam esses dados:

Gráfico 8: Distribuição dos trabalhadores por faixa etária

Fonte: Gráfico elaborado pela autora, com base nas entrevistas.

Ora, nessa era de incertezas e perspectivas sombrias advindas com o “capitalismo flexível”, adverte-se para o problema dessa juventude, uma vez que se condena a sobreviver dos trabalhos precários, interinos e instáveis. Passam tempos vagando de um emprego para outro, ou melhor, nesse caso específico, fazendo menção ao depoimento citado anteriormente, “pulando de uma empresa para outra”, impedida de construir, como faz lembrar Sennett (1999), uma biografia de vida linear e sustentável. Tal força de trabalho encontrava-se em uma empresa ontem, hoje está em outra e amanhã não se sabe se estará em alguma.

Essa sensação de insegurança permanente e a impossibilidade de planejar o futuro de longo prazo, decorrentes do “capitalismo flexível”, corroem o “caráter” dos trabalhadores, de acordo com Sennett (1999). A insegurança desorienta os trabalhadores adultos e compromete a posição de referência para futuras gerações.

Essa situação parece, inclusive, impossibilitar esses trabalhadores de edificarem uma vida de adultos, tal como a sociedade exige, ou seja, uma vida

de emancipação econômica, de sustentação de si e de uma família. Essa tendência aparece, sim, como um grande desabafo na voz da trabalhadora:

Eu digo que quando não se tem um emprego fixo não se pode programar as coisas nem planejar muito bem a vida. Por isso, evito me comprometer com despesas altas, parceladas em 12 vezes ou mais, e aquisições caras também. Tudo isso porque tenho medo de ficar desempregada. Já planejei comprar um terreno, já programei ter um filho, mas vivo adiando esses projetos porque corro sempre o risco de ficar desempregada e, com isso, não ter dinheiro para pagar o terreno e o bebê desejado passar por privações (Auxiliar de Processamento de Dados, 2009).

Especificamente nessa situação, parece ficar evidente que a condição de permanência transitória do trabalhador compromete projetos e desejos de fórum íntimo. Além disso, pode ser indicadora de uma vida tensa e sofrida porque é simplesmente frustrante estar postergando planos que oferecem sentido à vida de uma pessoa, como, por exemplo, o projeto da maternidade.

O temor incessante da perda do emprego, como se percebe, foi incorporado ao cotidiano desses trabalhadores. A condição de eternos vulneráveis ao desemprego os tornou refém da insegurança quanto à capacidade de adquirir bens materiais necessários à subsistência, como, por exemplo, a aquisição de um terreno, ou à possibilidade de constituir a própria família. O medo de não ser capaz de prover a sobrevivência de um filho posterga, inclusive, a concretização da maternidade.

Talvez o fato desses trabalhadores não conseguirem assegurar uma vida economicamente emancipada em fase adulta justifique o elevado índice dos que se encontram na condição de solteiros, consoante se visualiza no gráfico 9.

Gráfico 9 – Estado civil dos trabalhadores terceirizados da CEF

Fonte: Gráfico elaborado pela autora com base nas entrevistas.

De fato, parece ser um tanto complexo para a maioria dos trabalhadores terceirizados alcançar a bendita independência financeira, bem como se organizar em família, quando se constata, por exemplo, que percebem rendimentos que variam entre R$ 380,00 a R$ 1.200,00.

Sob esse aspecto assinala-se que, ao passo que o capital possibilita trabalhadores de categorias profissionais distintas, sob condições de trabalho tão contraditórias, ocuparem por anos o mesmo ambiente de trabalho, também cria um fosso real entre eles, inclusive os colocando em situação de oposição. Destacam-se, nesse caso, os rendimentos auferidos pelos técnicos bancários que estão na escala de R$ 1.447,00 a R$ 3.700,00, no intuito de ir demarcando as diferenças objetivas que se justapõem entre eles, o que contribui para a construção de um ambiente de trabalho tenso e hostil.

Atente-se que na diferença de preço da força de trabalho dessas categorias de trabalhadores encontra-se também a revolta deles, principalmente dos contratados. Esse dado, certamente, conflui para que se compreenda as condições de trabalho oferecidas a cada categoria. No gráfico 10 se analisam os desníveis salariais entre os diversos profissionais:

Gráfico 10: Remuneração dos trabalhadores: efetivos e contratados

Menos de 1

Sal. mínimo Entre 1 e 2 Sal. mínimos Entre 3 e 4 Sal. mínimos

De 5 Sal.