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Durante a análise dos dados, percebe-se a questão da resiliência como prioritária, principalmente nas situações de crise, cada vez mais comuns na sociedade atual. Assim, é possível dizer que a resiliência é uma competência essencial ao perfil de um profissional contemporâneo.

De acordo com Barlach, Limongi-França e Malvezzi:

Os achados do estudo indicam que, no contexto do trabalho humano nas organizações, a resiliência pode explicar a mobilização de recursos psicossociais para o enfrentamento das rupturas e situações de tensão características da modernidade. Conclui-se que neste ambiente de transformação de crises em oportunidades o desenvolvimento da resiliência pode ser o elemento diferencial entre o enfrentamento da situação que leva ao crescimento psicológico ou a sensação de vitimização, em situações similares de pressão organizacional. (BARLACH; LIMONGI-FRANÇA; MALVEZZI, 2008, p.101)

A cobrança por profissionais adaptáveis e resilientes faz-se presente nos discursos empresariais, como uma condição para a empregabilidade do indivíduo. Segundo Helal e Rocha:

É possível supor que a ênfase no mercado e no cliente, nas novas competências gerenciais e na empregabilidade resolva um tradicional dilema gerencial, qual seja, o de controlar e direcionar os indivíduos para comportamentos desejados: autonomia, flexibilidade, criatividade, autovigilância, espírito empreendedor etc. (HELAL; ROCHA, 2011, p.141)

Segundo Barlach, Limongi-França e Malvezzi:

Pode-se dizer, então, que a flexibilidade característica da resiliência é uma das competências requeridas pela dinâmica da modernidade do trabalho nas organizações, capaz de explicar a administração da própria subjetividade diante das inúmeras situações de tensão, pressão e ruptura presentes neste contexto. (BARLACH; LIMONGI-FRANÇA; MALVEZZI, 2008, p.103)

O Novo Dicionário Aurélio (1999, p. 1751) define “Resiliência” como “Propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão

causadora duma deformação elástica”. O termo tem sua origem no latim resilio, que significa

retornar a um estado anterior e foi aplicado inicialmente, em Ciências Exatas como a Engenharia e a Física.

Esse conceito, segundo Barlach (2005), ao ser aplicado no Campo das Ciências Sociais e Humanas, fala sobre a capacidade de reconstrução positiva de um indivíduo ou grupo de indivíduos, ao superar adversidades, mesmo em um ambiente negativo.

Infante (2005, p. 23) conta que este conceito ganhou peso na área de desenvolvimento humano a partir de reflexões sobre a importância de promover o potencial dos indivíduos, ao invés de focar apenas no evento negativo. A autora entende que o estudo da resiliência busca

a promoção de processos que “envolvam o indivíduo e seu ambiente social, ajudando-o a

superar a adversidade (e o risco), adaptar-se à sociedade e ter melhor qualidade de vida”. Ainda segundo Infante (2005), historicamente o estudo da resiliência tem seu início na pesquisa para a compreensão das origens e desenvolvimento da psicopatologia. Essas pesquisas puderam demonstrar que um grupo de crianças, apesar de se encontrar em situação de risco e dos prognósticos negativos dos pesquisadores, desenvolviam-se de forma socialmente adaptada. Originalmente, Werner & Smith (2012), usavam o termo para definir os fatores de risco com as influências potenciais que podem dificultar o desenvolvimento do sujeito. Os autores também afirmam que quanto menor a proteção – fatores que melhoram a resposta do indivíduo às situações adversas – e maior o risco, aumenta a vulnerabilidade do sujeito.

Em um primeiro momento, entendeu-se que a reação positiva destas crianças se devia

a traços de personalidade, como a “invulnerabilidade”. A limitação desse tipo de conclusão é

que a resiliência passa a ser uma característica inerente ao indivíduo e não um processo a ser desenvolvido e estimulado. A autora cita Kaplan (1999) que descreve uma primeira geração de pesquisadores, com foco em identificar os fatores de proteção que estão na base da adaptação positiva nas crianças em situação adversa.

Depois disso, surgiu uma segunda geração de pesquisadores, que estuda o tema a partir de duas perspectivas: o processo dinâmico entre os fatores de risco e a resiliência e a busca por modelos para a promoção da resiliência de forma efetiva. Pode-se ver aqui, de acordo com Infante (2005) a afinidade do estudo da resiliência com a pesquisa sobre o coping,

ou seja, as estratégias utilizadas pelos indivíduos para se adaptarem a situações adversas ou estressantes.

Barlach, Limongi-França e Malvezzi (2008) reforçam que o entendimento da resiliência a partir de traços de personalidade é restrito para a compreensão deste fenômeno, e que atualmente poucos autores o descrevem sob essa perspectiva. A visão predominante sobre resiliência entende o conceito de forma sistêmica, a partir de forças que interagem entre =o indivíduo e o ambiente.

Para Barlach, Limongi-França e Malvezzi (2008, p. 103)

(...) o equilíbrio – alcançado pelos indivíduos assim denominados resilientes – só pode ser explicado por uma perspectiva que incorpore, em suas análises, a interação dinâmica entre sistemas. (BARLACH; LIMONGI-FRANÇA; MALVEZZI, 2008, p.103)

Brandão, Mahfoud e Gianordoli-Nascimento (2011) contribuem para esta discussão, apontando as diferenças no entendimento do constructo resiliência entre os anglo-saxões e os pesquisadores de língua latina. Segundo os autores, na maior parte da literatura sobre o assunto de origem anglo-saxã, a resiliência é vista como resistência ao estresse e são selecionados para estudos de pessoas que permaneceram bem e estáveis frente a situações difíceis. Por outro lado, os latinos tendem a estudar a resiliência tanto em sua relação com o estresse quanto em relação à recuperação e superação das situações adversas, selecionando para seus estudos indivíduos que não se abalaram e se recuperaram de episódios desfavoráveis.

Ainda para Brandão, Mahfoud e Gianordoli-Nascimento (2011), esta diferença ocorre porque em sua origem os estudos anglo-saxões buscavam compreender como algumas pessoas, apesar de todo um contexto negativo, apresentavam uma boa adaptabilidade. Seu

foco era a resistência ao estresse, a “invulnerabilidade” de certos indivíduos. Mesmo

avançando nas pesquisas e teorias desenvolvidas, seu foco se manteve basicamente o mesmo. Os pesquisadores de língua latina começaram a estudar o fenômeno da resiliência posteriormente, a partir dos trabalhos desenvolvidos pelos anglo-saxões e contribuíram com definições e pesquisas com foco na superação e recuperação. Neste sentido, a resiliência é mais do que a simples recuperação, pois implica em superação e crescimento pessoal.

Estas diferenças foram destacadas porque projetos sociais de caráter distintos serão produzidos de acordo com o seu conceito de base. Os projetos que entendem resiliência como resistência ao estresse têm como objetivo aumentar a resistência das pessoas, a partir do aumento dos fatores de proteção e minimização dos fatores de risco. Seu foco é, segundo Brandão, Mahfoud e Gianordoli-Nascimento (2011), “conseguir um máximo de pessoas competentes e bem adaptadas que não se abalem diante das adversidades. Seus objetivos não estão voltados para os que já sucumbiram intentando recuperá-los”. Já os projetos com base nos conceitos de recuperação e superação têm sua atenção voltada para fortalecer e recuperar indivíduos abalados por situações adversas.

Para este trabalho, é essencial entender o conceito de resiliência no contexto do trabalho das organizações contemporâneas. Com os cenários desafiadores, complexos e mutáveis da economia, sociedade e trabalho no século XXI, há a necessidade de flexibilidade e ajustamento constante por parte dos indivíduos. Segundo Barlach, Limongi-França e Malvezzi (2008):

O desempenho profissional nessas condições obriga o indivíduo a administrar sua vida profissional, ou seja, a trabalhar arduamente na reposição de si mesmo, uma vez que as referências ao seu redor, através das quais ele atribui sentido e valor para si mesmo, estão em constante alteração. Nesse sentido, as competências para a administração de sua identidade, seus papeis e seus recursos tornam-se uma condição fundamental para a sua sobrevivência profissional. Em outras palavras, a administração da própria identidade, como esforço de ajustamento do vínculo com o trabalho e de reconstrução de sua trajetória histórica é um sinal de eficácia na responsividade à metamorfose do mundo. A identidade emerge como um conceito e uma ferramenta da vida profissional. Barlach, Limongi-França e Malvezzi (2008, p.103)

A partir desta análise, os autores concluem que atualmente a dinâmica do mercado de trabalho exige flexibilidade, uma das características da resiliência, para que o indivíduo seja capaz de administrar as várias situações de tensão e pressão presentes no seu cotidiano. Assim, para os autores, a resiliência no contexto do trabalho contemporâneo diz respeito à estruturação de recursos adaptativos que venham a manter um relacionamento saudável entre o indivíduo e seu trabalho, frente às rupturas presentes em um ambiente instável. Eles também citam Coutu (2002) e sua organização de três características presentes nas pessoas resilientes: aceitação da realidade, crença de que a vida é significativa e habilidade de improvisação.

Job (2003), em seu estudo sobre os fatores de sofrimento e de resiliência utilizados pelos empregados de duas unidades industriais de uma multinacional do setor elétrico- eletrônico, descreve como as organizações enfrentam a necessidade de inovar continuamente e os trabalhadores entendem a partir daí que seus conhecimentos e habilidades que atendem ao agora podem não ser o suficiente para sua carreira no futuro. A velocidade das descobertas e mudanças exigem adaptações cada vez mais rápidas em um mundo de competitividade sem precedentes. Para o autor:

(...) exigências cada vez maiores recaem sobre os indivíduos em todos os setores das empresas – não apenas sobre os que estão no topo do sistema – no tocante ao autogerenciamento, à responsabilidade pessoal, à objetividade, a um grau elevado de consciência e a um compromisso com a inovação e colaboração, sendo estas as grandes prioridades. (JOB, 2003, P. 16)

Os resultados de sua pesquisa indicaram como principais causas de sofrimento nas organizações: a pressão e a auto cobrança pelo trabalho, a falta de aceitação das próprias falhas, o sentimento de culpa pela desinformação, o pouco tempo para a família, a falta de apoio dos superiores e pares, a falta de controle sobre o futuro, a falta de reconhecimento e baixo conteúdo significativo no trabalho, como autonomia e liberdade de criação.

Para Barlach, Limongi-França e Malvezzi (2008), tanto as pesquisas sobre resiliência no trabalho quanto as pesquisas de Psicopatologia do Trabalho fazem a proposição de um referencial para que possam ser entendidos os fatores de risco a que os profissionais são expostos, investigando estratégias para a administração do sofrimento. Os autores resumem os pontos em comum entre as duas teorias em quatro questões principais:

a) saúde não é ausência de patologia; b) resiliência tampouco é representada por oposição ou pela ausência de patologias (Masten, 2001); c) o sofrimento pode ser patogênico ou criativo (Dejours & Abdoucheli, 1994); d) diante da situação de risco à saúde psíquica, pode haver vitimização/patologia ou resiliência. Saúde, nos dois referenciais, é também associada à presença de esperanças, sonhos, desejos e a ausência destes elementos ou sua impossibilidade representa risco à saúde psíquica do trabalhador. (BARLACH, LIMONGI-FRANÇA e MALVEZZI, 2008, P. 104).

Outro ponto em comum é a afinidade entre resiliência e sofrimento criativo, pois nas pesquisas sobre resiliência é visto que o processo ocorre na adversidade, e o enfrentamento da situação é que faz o indivíduo se superar e crescer psicologicamente.

Benzer Belgeler